Capítulo 2 — A Mansão das Sombras

Os portões se erguiam mais altos do que eu tinha imaginado... barras de ferro preto se retorcendo em pontas afiadas que pareciam perfurar o céu.

Apertei com mais força as alças da minha bolsa velha, transferindo o peso de um pé para o outro. Meus tênis estalaram no cascalho enquanto eu subia a longa entrada. A cada passo, eu me sentia menor.

A mansão se agigantava à frente... paredes de pedra da cor de cinzas, janelas tão altas que pareciam me observar. Aquilo não era uma casa. Era um aviso.

O que eu estou fazendo aqui?

Quase voltei, mas uma voz estalou vinda da guarita. “Você veio pela vaga?”

Pisquei, assustada. Um homem de uniforme escuro saiu, as sobrancelhas franzidas enquanto me avaliava de cima a baixo.

“Sim... eu me candidatei pela agência.” Minha voz saiu fina, mais fraca do que eu queria.

Ele conferiu uma prancheta e então fez um gesto com a mão. “Siga o caminho. Bata uma vez na porta principal. Não toque em mais nada.”

Assenti depressa. “Sim, senhor.”

O caminho parecia não ter fim. Quando enfim cheguei à porta, minhas pernas já doíam. As portas duplas se erguiam sobre mim, esculpidas com lobos congelados no meio de um uivo. Levantei a mão e bati uma vez, exatamente como ele disse.

O som ecoou, oco e alto, como se fosse engolido pela própria casa.

Alguns segundos depois, a porta rangeu e se abriu. Uma mulher de vestido cinza apareceu. O cabelo dela estava preso num coque tão apertado que eu achei que o rosto dela poderia rachar.

“Você está atrasada”, ela disse sem emoção, embora eu soubesse que tinha chegado cedo.

“Eu... desculpa. Eu vim o mais rápido que pude”, murmurei.

Ela me analisou do mesmo jeito que o guarda tinha feito, olhos afiados como facas. Então deu meia-volta. “Siga-me.”

Entrei, prendendo a respiração.

O ar era frio. Não o tipo de frio que faz você tremer, mas o tipo que afunda nos ossos. O corredor se estendia largo, o piso de mármore polido com tanta perfeição que eu conseguia ver meu reflexo me encarando de volta... nervosa, deslocada, pequena.

“Ande”, a mulher rosnou, os saltos estalando no chão.

Acelerei atrás dela, agarrada à minha bolsa. Meus olhos corriam por todo lado... o pé-direito alto, os lustres pesados, os quadros alinhados nas paredes. Lobos, batalhas, fogo. Nada daquilo era acolhedor. Nada parecia convidativo.

No fim do corredor, uma porta se abriu. Um homem surgiu, se locomovendo em uma cadeira de rodas, e meu peito se apertou.

Edward.

Ele não parecia o chefe maldoso que eu tinha imaginado. Parecia alguém talhado em pedra. O cabelo era escuro, bagunçado, mas marcado contra a pele pálida. Os olhos — cinza-gelo — se prenderam em mim como se eu tivesse acabado de invadir o mundo dele.

“E quem é essa?” A voz dele era suave, mas carregava uma ponta que arranhava.

“A nova candidata, senhor”, a mulher disse depressa, abaixando a cabeça.

O olhar de Edward não saía de mim. Ele se recostou na cadeira, os lábios se curvando em algo entre um sorriso e um desprezo. “É o melhor que a agência conseguiu encontrar?”

O calor subiu ao meu rosto. Minha garganta ficou seca, mas eu forcei as palavras a saírem. “Eu... eu vim porque preciso do emprego, senhor.”

Ele ergueu uma sobrancelha, divertido. “Você precisa do emprego. Essa é nova. A maioria das pessoas vem implorando para me servir porque quer ficar perto de mim.”

Meus olhos se arregalaram. Ele estava falando sério? Tentei firmar a voz. “Eu não sou a maioria das pessoas, senhor.”

O canto da boca dele se contraiu. “Claramente.”

A mulher ao lado dele me lançou um olhar duro, me avisando para ficar quieta. Mas eu não consegui.

— Eu não me importo de ficar perto do senhor... — eu disse, as palavras escapando antes que eu conseguisse impedi-las. — Eu só quero trabalhar e ganhar o meu pagamento, senhor.

Por um instante, silêncio. Os olhos dele se estreitaram, e a tensão no ar se adensou até eu sentir que ia sufocar. Então ele soltou uma risada baixa e cortante.

— Interessante — murmurou. — Ou você é muito corajosa... ou muito idiota.

Engoli em seco, com as palmas das mãos úmidas. — Talvez os dois, senhor.

A risada dele ecoou pelo corredor, sem humor. — Me diga, garota, você se assusta fácil?

— Não, senhor. — A mentira queimou na minha língua, mas eu a forcei para fora.

Edward se inclinou levemente na cadeira, o olhar cravado no meu. — Ótimo. Porque esta casa devora os fracos vivos.

A mulher pigarreou. — Devo continuar a entrevista, senhor?

Ele fez um gesto de displicência com a mão, sem tirar os olhos de mim. — Faça o que quiser. Eu vou estar observando.

Segui a mulher até outra sala, com os joelhos fracos, mas me recusando a ceder. A entrevista em si foi simples... perguntas sobre limpeza, cozinha, ficar até tarde. Respondi a todas, minha voz mais firme agora, embora meu coração ainda disparasse.

Quando terminou, ela me entregou um papel. — A senhora terá notícias nossas dentro de uma semana.

Assenti, com alívio me inundando. Virei para ir embora, agarrando minha bolsa, ansiosa para escapar do ar pesado da mansão.

Mas então eu vi.

O retrato.

Estava pendurado no topo da escadaria... enorme, impossível de não notar. Um homem pintado em detalhes agudos, de pé, todo de preto, os olhos brilhando em vermelho nas sombras. O rosto dele me congelou no lugar.

Thorne.

O monstro dos meus sonhos. O Alfa que despedaçou a minha família. O homem que matou meu pai, minha mãe, meu irmão.

Minha respiração falhou. As paredes rodopiaram ao meu redor.

Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei a bolsa cair. Eu as pressionei contra o corpo, tentando me estabilizar, mas parecia que meu peito estava se partindo ao meio. Minhas pernas enfraqueceram, e ainda assim eu não conseguia desviar o olhar.

A mulher percebeu minha pausa. — O que a senhora está encarando?

Balancei a cabeça depressa. — N-nada. Só... o quadro.

— Ah — disse ela, com orgulho. — Esse é o Sr. Thorne. Ele foi um grande líder. Pai de Sir Edward.

As palavras me atingiram como um golpe. Meus ouvidos zuniram. Mordi a língua para conter o grito que subia na minha garganta.

Pai.

O pai do Edward.

O ar ao meu redor se adensou. Minha visão embaçou, não de lágrimas, mas de uma raiva que ferveu tão rápido dentro de mim que achei que eu fosse explodir. Forcei meus lábios num sorriso tenso. — Ele... parece forte.

A mulher assentiu. — Ele era um grande homem.

Grande. Meu estômago revirou.

Eu me virei, forçando minhas pernas a se moverem, forçando-me a caminhar calmamente para fora do corredor. Mas cada passo parecia pesado, cada respiração como engolir facas.

No instante em que a porta se fechou atrás de mim, eu puxei o ar, ofegante, segurando o peito.

Então era isso. A mansão do homem que me destruiu. O filho do Alfa que assassinou minha família agora sentado lá dentro, zombando de mim, sem saber quem eu era.

Cambaleei escada abaixo, as mãos tremendo, as unhas cravando nas palmas até eu sentir dor.

— Nunca — sussurrei para mim mesma, a voz se partindo. — Eu nunca vou perdoar. Eu nunca vou curar ninguém. Não ele. Não ninguém com o sangue dele.

O vento açoitou meu rosto enquanto eu tropeçava pelos portões, meu juramento ardendo no peito, mais alto do que nunca.

Mas uma parte de mim tremia.

Porque, mesmo enquanto eu jurava, eu sabia que o destino ainda não tinha terminado comigo.

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