Capítulo 3 — Luta e ódio
As ruas pareciam mais frias do que realmente eram. Cada som ao meu redor... o vento se enfiando entre os prédios rachados, o latido de um cão de rua, o zumbido de um poste de luz quebrado... me fazia sentir como se alguém estivesse me seguindo. Meus passos eram rápidos, mas meu peito carregava um peso que nenhuma velocidade conseguia sacudir.
“Eu nunca devia voltar lá”, sussurrei para mim mesma, apertando a palma da mão contra a alça da bolsa, como se segurar mais firme pudesse me manter inteira. “Nunca mais.”
Mas então outra voz... mais alta, mais afiada... me atravessou como uma facada.
Você precisa de dinheiro, Elara. Você precisa sobreviver.
Balancei a cabeça com força. “Eu prefiro passar fome a entrar na casa daquele monstro de novo.”
Mas então vi o rosto do meu pai na minha mente, pálido, ensanguentado, os lábios mal se movendo quando ele empurrou o presente dele para mim. As últimas palavras dele pressionaram meu crânio como uma maldição.
Evite-os.
Parei de andar, a respiração se quebrando no ar frio. “Mas... e se aceitar esse trabalho for o único jeito?” Minha própria voz falhou, e o som dela fez meu peito doer.
Quando empurrei a porta do meu pequeno apartamento, meu corpo já parecia pesado, como se as sombras da mansão tivessem me seguido até em casa.
O apartamento tinha um leve cheiro de macarrão instantâneo e sabonete barato. Meus sapatos rasparam no chão velho quando larguei a bolsa perto do canto. Apertei as duas mãos no rosto e murmurei: “Eu não consigo fazer isso... eu não consigo trabalhar pra ele. Não depois de ver aquele rosto na parede.”
Uma batida seca sacudiu a porta. Eu dei um pulo, o coração socando as costelas.
“Elara! Abre, sou eu!”
A voz era suave. É a Seraphina.
Abri a porta, e lá estava ela... o cabelo castanho preso num coque bagunçado, os olhos verdes brilhantes mesmo sob a luz apagada do corredor. Ela segurava um saco de papel junto ao peito.
“Você tá com uma cara horrível”, ela disse, entrando sem pedir. “O que aconteceu? A entrevista foi tão ruim assim?”
Tentei forçar um sorriso. “Pior.”
Ela largou o saco na minha mesa, o som de pão e frutas se mexendo lá dentro. “Me conta tudo.”
Sentei na beirada da cama, os dedos agarrando o lençol com tanta força que os nós dos dedos arderam. “Seraphina... eu vi ele.”
“Quem?” Ela se apoiou na mesa, cruzando os braços.
“Thorne.” A palavra me cortou como uma lâmina. “O rosto dele. Um retrato enorme na mansão.”
Os olhos dela se arregalaram. “Thorne? Tipo... o Alfa? Aquele que...”
“Sim”, eu interrompi, antes que ela terminasse. Minha garganta se apertou. “Aquele que matou a minha família.”
O quarto ficou em silêncio. Os lábios de Seraphina se entreabriram, mas por um instante não saiu som nenhum. Por fim, ela se aproximou, baixando a voz. “Elara, você tem certeza? Talvez seja só alguém parecido com ele...”
“Era ele”, rosnei. Minhas mãos tremiam. “Eu nunca esqueceria aquele rosto. Eu vejo toda noite quando fecho os olhos. Ele é o motivo de meus pais... meu irmão...”
Minhas palavras se afogaram na minha própria respiração, e eu mordi o lábio com força o bastante para sentir gosto de sangue.
Seraphina se sentou ao meu lado e passou o braço pelos meus ombros. “Sinto muito. Eu não sabia que o trabalho era naquela casa. Eu teria te impedido.”
O conforto dela era quente, mas também ardia. “Eu não posso aceitar esse trabalho, Sera. Eu jurei que nunca mais ia ter nada a ver com eles.”
“Mas, Elara...” A voz dela suavizou. “Você precisa disso. Você mesma me disse... você tá atrasada com a mensalidade. Seu senhorio tá batendo na sua porta. Você mal consegue comer.”
“Não me importo.” Eu me levantei, andando de um lado para o outro no quarto. “Prefiro varrer rua do que servir a eles.”
“Para de mentir pra si mesma.” As palavras dela foram firmes, cortantes como um tapa. “Você não está se alimentando direito. Está emagrecendo. Olha pra você... seus olhos estão fundindo. Você acha que seu pai ia querer te ver sofrer assim?”
Eu me virei num giro. “Não se atreva a trazer ele pra isso!” Meu peito subia e descia rápido, minha garganta ardendo. “Ele me disse pra ficar longe. Ele implorou. Se eu voltar pra aquela mansão, vou estar traindo ele.”
Seraphina também se levantou, estreitando os olhos. “E se você definhar aqui, e aí? Isso vai trazer paz pra ele? Ou ele vai estar olhando lá de cima, desejando que você tivesse vivido em vez de deixar o luto te matar?”
As palavras dela cortaram fundo porque uma parte de mim sabia que ela tinha razão. Eu desabei de volta na cama, enterrando o rosto nas mãos. “Eu não sei o que fazer. Toda vez que eu penso em pisar naquela casa de novo, eu sinto como se correntes estivessem apertando em volta do meu peito.”
Seraphina se sentou outra vez, agora mais suave, colocando a mão sobre a minha. “Então não pensa neles. Pensa em você. Pensa no que esse trabalho pode te dar. Comida. Aluguel. Escola. Uma chance de algo melhor.”
“Eu nunca vou perdoar eles”, eu murmurei.
“Você não precisa perdoar”, ela disse. “Você só precisa sobreviver.”
As palavras dela ficaram pesadas no ar. Eu queria discutir, gritar, mas a verdade me pressionava como uma mão que eu não conseguia afastar.
De repente, um sorrisinho curvou os lábios dela. “Além disso, talvez você consiga cuspir na comida deles ou dar uma rasteira no filho de Alfa mimado. Uma vingancinha enquanto ganha dinheiro.”
Eu não consegui evitar... uma risada escapou por entre as lágrimas. “Você é ridícula.”
“Ridícula e certa.” Ela me cutucou com o ombro. “Então? Vai voltar?”
Eu não respondi. Só encarei a parede, onde a tinta descascava como pele velha.
Ela se inclinou mais perto, sussurrando: “Eu te conheço, Elara. Você vai voltar. Você é teimosa demais pra desistir da vida, por mais que queira fingir que vai.”
Eu quis negar, mas meu silêncio foi mais alto do que palavras.
Seraphina mudou de assunto, abrindo o saco de papel. “Eu trouxe pão e maçãs. Você vai comer, ou eu vou enfiar isso goela abaixo.”
“Mandona”, eu murmurei.
“Aprendi com você.” Ela sorriu, enfiando uma maçã na minha mão.
Por alguns minutos, comemos em silêncio. O pão estava amanhecido, mas parecia um banquete.
Então veio outra batida na porta.
Nós congelamos.
Seraphina sussurrou: “Você está esperando alguém?”
“Não.” Meu estômago se revirou.
A batida veio de novo... mais pesada dessa vez.
Eu me levantei devagar e fui até a porta, a mão tremendo quando alcancei a maçaneta. Abri só um pouco.
Um homem alto, de terno preto, estava no corredor, o rosto inexpressivo como pedra. Os olhos dele brilhavam de leve na luz fraca.
“Elara”, ele disse, a voz grave e fria. “Você é necessária na mansão. Hoje à noite.”
A porta rangeu, abrindo mais na minha mão. Minha garganta se fechou. “O quê?”
“Edward solicita seus serviços imediatamente.”
Atrás de mim, Seraphina agarrou meu braço. “Elara, não!”
Mas o olhar do homem se prendeu em mim, afiado como uma lâmina. “Esteja pronta em quinze minutos. Você não pode recusar.”
Ele se virou e desceu pelo corredor.
Eu fechei a porta, a respiração irregular. “Elara”, Seraphina sussurrou, os olhos arregalados. “O que você vai fazer?”
Meus joelhos fraquejaram, mas eu me obriguei a ficar ereta, mesmo com meu coração gritando. “Eu não sei... mas acho que as correntes já estão me puxando de volta.”
