Capítulo 6 — O lobo escondido

A mansão despertou gemendo antes do amanhecer. Os corredores respiravam com correntes de ar frias que cheiravam de leve a pedra, cera de madeira e à fumaça do fogo da noite passada. Os pés descalços de Elara sussurravam sobre o tapete enquanto ela se movia com cuidado e deliberadamente, como se cada passo pudesse traí-la.

Sua primeira manhã.

Ela apertou mais as tiras do avental na cintura, com os dedos desajeitados pela falta de sono. A noite inteira ficara acordada no colchão fino do alojamento dos criados, o coração martelando no mesmo ritmo que a carregava desde o instante em que pusera os pés naquela casa: esconder, esconder, esconder.

O lobo dentro dela se agitou, inquieto. Como sempre, odiava o cheiro de confinamento e o medo constante. Sussurrava junto aos ouvidos dela, exigindo libertação. Elara cerrou a mandíbula e o empurrou para baixo. Não aqui. Nunca. Não, se você quer viver.

A mansão era um mundo de olhos. O sorriso matreiro de Damien, os olhares de soslaio dos outros empregados — até os retratos ao longo do corredor pareciam observá-la demais. Ela mantinha a cabeça baixa, a respiração curta e os lábios fechados.

Quando chegou à cozinha, o calor do forno a envolveu, mas não trouxe conforto algum. A cozinheira empurrou um balde na direção dela sem erguer os olhos.

— Água. Da bomba. E não derrame.

Elara obedeceu depressa. A alça do balde afundava nas palmas enquanto ela o carregava, os músculos se retesando. Ela podia levantá-lo com facilidade — facilidade demais —, mas se obrigou a tropeçar uma vez, só o bastante para parecer comum. Sempre comum.

Quando voltou, a cozinheira mal a reconheceu. Isso era bom. Atenção era perigosa.

Mas a atenção a encontrou mesmo assim.

As rodas da cadeira de Edward rasparam no piso de mármore antes mesmo de ela vê-lo. O som desceu pelo corredor como um sino de alerta. O estômago de Elara se apertou. Ela enxugou as mãos úmidas no avental e baixou os olhos.

— Atrasada — a voz dele cortou, afiada como vidro quebrado.

— Eu estava na bomba, senhor — ela murmurou, firme, porém baixa.

— Desculpas — ele disse. — Todo criado começa com desculpas. Você acha que esta casa funciona à base de desculpas?

— Não, senhor.

A sombra dele passou sobre ela, onde estava na entrada da cozinha. Ele inclinou a cabeça, avaliando-a. O olhar dele tinha peso; Elara se sentiu despida por baixo das roupas, como se ele pudesse arrancar-lhe a pele e vislumbrar o segredo escondido. O lobo se mexeu, inquieto. Elara apertou os dedos na alça do balde até os nós dos dedos embranquecerem.

— Você parece frágil — ele disse por fim. O tom era neutro, mas havia algo por baixo que torcia como uma faca. — Coisas frágeis não duram muito aqui.

A garganta dela se fechou, mas ela forçou as palavras a saírem:

— Eu vou durar, senhor.

Os olhos de Edward se estreitaram. Uma curva cruel tocou sua boca.

— Veremos.

O dia se estendeu longo, uma sequência de pequenas humilhações.

Ele a mandou de um lado para o outro pela casa com ordens sem sentido. Tirar o pó das estantes, embora já estivessem brilhando. Alinhar as cobertas, embora ninguém as tivesse tocado desde a manhã. Buscar água, embora o jarro continuasse cheio. Cada tarefa, um insulto. Cada palavra, um teste.

Ela fez tudo sem protestar.

Os outros empregados cochichavam quando achavam que ela não podia ouvir. “Mais uma”, resmungou um. “Ele vai quebrar ela também.”

Mas ela não ia se quebrar. Não podia se dar a esse luxo. Cada moeda que ganhasse ali era mais um passo rumo ao futuro — uma chance de pagar os estudos, de construir uma vida que não fosse só se esconder e fugir.

Ainda assim, ao meio-dia suas mãos estavam em carne viva de tanto esfregar, e suas costas doíam de tanto se curvar. A loba dentro dela andava de um lado para o outro, rosnando baixo. Deixa eu sair, ela implorava. Deixa eu proteger a gente.

“Não”, ela sussurrou, baixo demais para alguém ouvir. Apertou os punhos contra o avental. “Não aqui. Não agora.”

Edward voltou a observá-la no jantar. Ela levou uma bandeja até o escritório dele, cuidando para não deixar os pratos tilintarem. O vapor do ensopado embaçou a borda de sua visão, mas ela manteve os passos firmes.

“Coloque ali”, ele disse, apontando com a cabeça para a escrivaninha.

Ela obedeceu, pousando a bandeja. O cheiro de carne e ervas arranhou sua fome, mas ela manteve o rosto impassível.

Edward rolou a cadeira para mais perto, rangendo. Levantou a tampa e então parou. Seu olhar subiu de novo para ela.

“Você não provou.”

Ela piscou. “Senhor?”

“Você me traz comida e não prova. Como eu vou saber que não está envenenada?”

O estômago de Elara se revirou. “O cozinheiro…”

“Eu não perguntei sobre o cozinheiro.” A voz dele se tornou cortante. “Coma.”

Os dedos dela tremiam quando pegou a colher. O ensopado queimou sua língua, mas ela engoliu sem vacilar. Ela não podia vacilar.

Edward recostou-se, observando. “Bom”, disse por fim, como se ela tivesse passado por algum teste invisível.

“Não sei por onde essa sua boca andou, então vá e pegue uma colher limpa para mim.”

As pernas dela pareciam fracas quando saiu do cômodo, mas manteve as costas retas, os passos regulares. Só quando chegou ao corredor é que pressionou a mão contra o peito, sentindo o coração furioso da loba batendo sob o seu.

Quando a noite chegou, Elara desabou na cama estreita. Suas mãos estavam cheias de bolhas, o corpo dolorido, o orgulho em frangalhos. Ela enterrou o rosto no travesseiro para abafar o som que lhe escapou — não exatamente um soluço, não exatamente um rosnado. Algo entre os dois.

Ela o odiava. Odiava o jeito como ele cutucava nela como se fosse uma ferida, o jeito como a encurralava, o jeito como a olhava como se soubesse que ela era mais do que fingia ser.

Mas, por baixo do ódio, algo pior se torcia. Pena. Dela mesma, sim, mas também dele. Das sombras que nunca abandonavam seus olhos, da raiva que parecia enjaulá-lo com a mesma força com que ela enjaulava a própria loba.

Ela se virou de lado, encarando a parede. Ela não podia se dar ao luxo de sentir pena. Não ali. Não agora. Tinha de sobreviver. Tinha de guardar o segredo.

Mas, quando o sono a arrastou para baixo, um pensamento sussurrou em sua mente, suave e perigoso:

Ele sabe.

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