Capítulo 7 — Os segredos entre nós
Já fazia mais de uma semana desde que Elara entrara pela primeira vez na mansão, uma semana cheia de provações e sobrevivência.
E agora ela começara a notar as mudanças.
As outras criadas haviam parado de cochichar que ela não duraria. Tinham visto Elara aguentar a acidez da língua de Edward sem sair correndo. Tinham visto ela arrastar baldes pelo chão de pedra sem reclamar. Tinham visto ela esfregar o corrimão da mesma escadaria três vezes numa única manhã porque “o brilho o ofendia”.
Elara não se quebrou.
Mas estava começando a se dobrar.
Não no trabalho — suas mãos se moviam firmes, precisas —, e sim na mente. Ela começara a ter visões. As visões tinham começado três noites antes. Vinham como rachaduras no vidro, súbitas e cortantes, mostrando-lhe coisas que ela não conseguia entender. Um borrão prateado no canto do olho. Um corredor encharcado de vermelho. O eco de uma voz que ela não conhecia sussurrando o nome dela.
Quando vinham, ela pressionava as palmas das mãos contra os olhos, tentando expulsá-las à força. Agora não. Aqui não. Mas elas se agarravam como teias de aranha, fios que ela não conseguia sacudir.
E Edward… Edward as piorava.
Cada vez que ele se aproximava com a cadeira e o olhar escrutinador pousava nela, a mente de Elara cedia. As visões, afiadas e implacáveis, arranhavam as bordas da sua percepção, como alguma coisa presa, lutando para sair.
Naquela manhã não foi diferente.
Ela varria o saguão principal quando o som das rodas raspou na pedra. Ela enrijeceu, obrigando seus movimentos a ficarem mais lentos, mais regulares, como se isso pudesse torná-la invisível.
“Ainda aqui”, disse Edward, a voz baixa, quase pensativa.
Ela se virou, baixando a cabeça. “Sim, senhor.”
“A maioria não passa de uma semana.”
Elara apertou o cabo da vassoura. “Então talvez eu não seja como a maioria, senhor.”
As palavras escaparam antes que ela pudesse impedir. O estômago revirou. Ela esperou a raiva dele, o desprezo cortante.
Em vez disso — silêncio. Depois, um som que ela não esperava nem um pouco.
Uma risada.
Foi breve, áspera, como pedra batendo em pedra, mas real.
Ela lutou contra o impulso, mas ainda assim ergueu a cabeça num solavanco. Ele a aguardava; o olhar atento dele encontrou uma curvatura fina nos lábios que passava longe de uma crueldade genuína.
“Não é”, ele disse por fim. O olhar se aguçou. “Isso é óbvio.”
O peito de Elara se apertou. Ela forçou os olhos de volta para baixo, varrendo mais rápido, embora o pulso a traísse.
Edward se inclinou um pouco para a frente na cadeira. O cheiro a roçou de novo — quente, terroso, entremeado de algo selvagem. As narinas dele se dilataram antes que ele conseguisse impedir.
Era fraco, mas estava ali. Um sussurro de pelo e floresta, grudado à pele dela. Ele tinha notado a semana inteira, mais forte quando ela estava perto, ausente quando ela saía do cômodo. Humanos jamais perceberiam, mas ele não era totalmente humano. Seus sentidos se aguçavam de maneiras que já o tinham salvado uma vez e agora o amaldiçoavam.
E ele não conseguia ignorar.
“Elara”, ele disse, experimentando o nome dela na língua pela primeira vez.
Ela paralisou. Sempre era menina, ou criada, ou nada. Ouvir o próprio nome na voz dele a sobressaltou ainda mais.
“Sim, senhor?”, respondeu, com a voz cuidadosamente neutra.
Os olhos dele demoraram no rosto dela tempo demais. Reparou no traço do maxilar, na firmeza da boca, no lampejo nos olhos que ela tentava esconder. Deixou o olhar descer, não em desejo, mas em avaliação, como se cada detalhe do corpo dela pudesse explicar o cheiro que o assombrava.
“Você trabalha como alguém que está fugindo”, ele disse.
Os dedos dela se apertaram no cabo da vassoura. “Fugindo, senhor?”
“Fugindo de alguma coisa”, ele esclareceu. Inclinou a cabeça, estudando-a. “Ou talvez se escondendo.”
A loba dentro dela rosnou. Elara obrigou a respiração a se manter estável. “Eu só estou trabalhando, senhor.”
“Hm.” O som dele foi cético, desdenhoso — e, ainda assim, seus olhos não a deixavam.
À tarde, a provocação ficou mais afiada.
Ela levou o chá dele, a porcelana tilintando de leve contra o pires.
“Você está tremendo”, ele observou.
“Está quente, senhor”, ela respondeu.
“Está mesmo?” O olhar dele não vacilou. “Ou você está com medo?”
Ela sustentou os olhos dele então, só por um instante. “Se eu estivesse com medo, senhor, eu não continuaria aqui.”
Os lábios dele se curvaram de novo naquela quase-sorriso que ela começava a temer. “Ousada.”
A garganta dela apertou. “Sincera.”
Edward se inclinou para mais perto, perto o bastante para que o leve cheiro dela o atingisse como calor. Ele não devia, mas inspirou — em silêncio, com cuidado. A floresta, o selvagem, o animal escondido sob a pele dela.
Aquilo despertou algo nele. Não apenas suspeita. Não apenas o lobo interior. Algo mais quente. Algo perigoso.
Ela recuou depressa, quase derramando o chá. Os olhos dele se estreitaram.
“Você é diferente”, ele disse, baixinho.
O pulso de Elara martelou na garganta. “Diferente, senhor?”
“Sim.” O olhar dele não vacilou. “Não consigo definir. Ainda.”
Ela se forçou a baixar a cabeça. “Então talvez o senhor esteja imaginando, senhor.”
A risada dele foi baixa, sem humor. “Eu não imagino coisas, Elara. Não quando estão bem na minha frente.”
As palavras pousaram pesadas entre os dois, carregadas de mais do que suspeita. Algo não dito. Algo que ambos sentiam e nenhum dos dois ousava nomear.
Naquela noite, enquanto Elara lavava as mãos na bacia, as visões voltaram.
Ela agarrou a borda da porcelana, os nós dos dedos brancos, enquanto olhos prateados cintilavam na mente dela. Não os de Edward — de outra pessoa. Olhos que ela não conhecia. Uma figura sombreada no corredor. Uma voz sussurrando: Ele vai ver você. Ele vai ver tudo.
Ela arfou, a água escorrendo pelos pulsos. O reflexo dela tremulou na bacia, o rosto fragmentado pelas ondulações.
Ela pressionou as palmas contra a bacia, sussurrando: “Não, agora não.”
Mas, no fundo do peito, a loba pressionou com mais força. E, em algum lugar da casa, ela podia jurar que a voz de Edward ecoou, baixa e certa:
“Você é diferente.”
