Capítulo 1

Eu costumava ser medalhista de ouro nacional no balé.

Agora sou a piada de cento e cinco quilos que a escola inteira fica encarando.

Eu me privo de comida até desmaiar, treino tanto que meus joelhos sangram e, mesmo assim, o peso continua se acumulando como se tivesse uma implicância pessoal comigo.

Até o dia em que ouço minha melhor amiga gargalhando na sala de equipamentos, a voz tremendo de tanto rir:

— Não importa o quanto ela tente, o peso dela sempre vai ser três quartos do do Bruce!

Bruce é o encostado de cento e vinte e sete quilos que dorme em metade das aulas. E eu? Eu estou grudada nele, amarrada por algum sistema doentio que eu não consigo quebrar.

Ela roubou minha passagem direta para a audição da Juilliard. Pagou caras para me empurrarem, me xingarem, me filmarem tropeçando nos meus próprios pés e jogarem os vídeos por todo o TikTok.

Ela me vê me debatendo como uma baleia encalhada na lama, mal segurando as risadinhas.

Mas ela esqueceu uma coisa: montanhas não fogem de riachos.

Elas esperam a água bater nelas com força. E se estilhaçar em um milhão de pedaços.

Adivinha? A aposta está valendo.


Três meses atrás, meu rosto estava no mural de honra do estúdio como medalhista de ouro nacional no balé. Três meses depois, eu sou a piada de cento e cinco quilos que a escola inteira não consegue parar de encarar.

Eu ganhei ouro na Competição Regional Juvenil de Balé, fui a protagonista da nossa apresentação de balé da escola por dois anos seguidos — a professora Wendy me chamou de “um prodígio do balé que aparece uma vez a cada década”.

Eu conseguia sustentar um relevé por mais tempo do que qualquer um, girar como uma moeda de prata perfeitamente lançada, pousar sem fazer barulho, impecável. Todo mundo dizia que eu seria a única da minha turma a conseguir a passagem direta para a audição da Juilliard.

Mas agora? Eu vou me arrastando pela pista externa, com uma blusa de compressão preta já desbotada, arfando com tanta força que meus pulmões queimam. Cada passo bate no asfalto como se eu fosse afundar a pista inteira.

O corpo que antes era leve como uma pluma agora está tão pesado que eu mal consigo suportar olhar no espelho.

A gordura na parte interna das minhas coxas assa toda vez que levanto a perna, o peso extra em volta da barriga puxando todo o meu centro de gravidade para baixo.

Eu cerro os dentes e acelero o ritmo, desesperada para sentir aquela leveza sem peso que eu tinha antes — mas a dor surda nos meus joelhos me lembra: a garota que conseguia cravar trinta e dois fouettés seguidos se foi.

— Ora, ora, se não é a nossa princesinha do balé.

Eu congelo. Aquela voz, afiada de maldade. Viro o olhar para a direita e vejo os dois:

Ryan, estrela do time de futebol americano da escola, um metro e oitenta e poucos de músculo sólido, como um muro de tijolos ambulante. Jake é a sombrinha dele, sempre sorrindo como se vivesse pela fofoca.

— Bailarina gordinha, fazendo um esforcinho extra hoje de manhã? — Jake inclina a cabeça, com uma preocupação falsa. — Com esse peso, você provavelmente ia atravessar o palco se tentasse fazer O Lago dos Cisnes, hein?

“Ai, não seja maldosa”, Ryan sorri de canto, erguendo as mãos. “Ela é a prodígio que vai passar na Juilliard — hahahahaha!”

Outras crianças que estavam treinando param e encaram. Algumas puxam o celular, outras riem por trás das mãos. Todos aqueles olhos queimando em mim, como mil agulhas minúsculas.

Bailarina gordinha. Bailarina enorme e gorda. Esses apelidos grudam em mim como chiclete, impossíveis de arrancar. Meu rosto arde, mas eu mordo o lábio e não digo uma palavra; só desvio para a esquerda. Eu os ignoro, cerro os dentes e continuo andando.

Na hora seguinte, alguma coisa bate com força nas minhas costas.

Eu perco o equilíbrio e caio com tudo na pista. Meus joelhos e as palmas das mãos raspam no asfalto áspero, e uma dor ardente explode por dentro de mim. O sangue se acumula no joelho ralado, escorrendo pela panturrilha.

“Ops, foi mal. Nem te vi aí.” Ryan paira sobre mim, com um sorriso maldoso no rosto.

Risos explodem ao meu redor. Mais crianças param, me filmando com os celulares, rindo baixinho; alguém até assobia e grita “Boa!” Ninguém se mexe para me ajudar.

Eu me apoio para ficar de pé, e a repuxada do joelho ralado me faz sibilar entre os dentes.

“Nossa, isso foi pesado…”

“Ela não era, tipo, muito boa? O que aconteceu com ela?”

“Ouvi dizer que ela ataca a comida e come que nem um porco. Agora é uma fracassada total.”

Os sussurros zumbem nos meus ouvidos como moscas. Eu mordo o lábio com tanta força que sinto gosto de sangue, me recusando a chorar.

“Parem! Que merda é essa, gente?”

Uma voz familiar corta a multidão. Cara vem correndo, o rosto perfeito dela retorcido de preocupação. Ela empurra Ryan para o lado e se abaixa para segurar meu braço.

“Doris, você tá bem?” A voz dela é suave, como se estivesse falando com uma criança pequena. “Ryan, você é um babaca! Pegando no pé de uma menina? Sério?”

Ryan só dá de ombros e vai embora como se nada tivesse acontecido. Jake vai junto, virando-se para fazer uma careta para mim.

Cara me ajuda a levantar com cuidado, pressionando um lenço de papel no meu joelho sangrando. Ela franze a testa para o corte, com um tom todo preocupado e doce. “Você se ralou toda. Deixa eu te levar até a enfermaria.”

Eu concordo com a cabeça, uma sensação quente borbulhando no meu peito. Não importa o que todo mundo faça, pelo menos eu ainda tenho a Cara.

Eu ia agradecer, quando algo chama minha atenção pelo canto do olho—

Cara olha para Ryan e Jake e pisca. Rápido, de um jeito que ninguém mais vê. O canto da boca dela se levanta, e há um lampejo de satisfação verdadeira, presunçosa, nos olhos.

Meu estômago despenca.

Antes que eu consiga entender o que aquilo significava, Cara volta o olhar para mim, o rosto de novo com aquela máscara perfeita e doce. “Vem, vamos te limpar.”

Eu me lembro do que a Srta. Wendy me disse em particular na semana passada: “Doris, eu estou preocupada com você. Se você não se aprumar em dois meses, vou ter que dar a vaga de audição deste ano para outra pessoa.”

Essa outra pessoa.

É a Cara.

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