Capítulo 3

De volta ao estúdio, seguro a barra para subir na ponta. Antes eu conseguia me manter assim por cinco minutos seguidos, sem tremer. Agora estou tremendo só de tentar subir. No segundo em que passo o peso para os dedos dos pés, minha panturrilha trava com força, eu cambaleio para o lado, torcendo o tornozelo.

As alunas mais novas, ali do canto, trocam um olhar.

“Ela está tão acabada…”

“Tipo, será que ela não pode simplesmente deixar o estúdio para quem realmente precisa?”

Abaixo o pé e me reposiciono na barra.

De novo.

Subo na ponta, desabo.

De novo.

Subo, seguro por três segundos, desabo de novo.

Na última vez, nem consigo me aparar — caio direto de joelhos no chão.

Desabo de bruços, e a dor surda nos meus joelhos parece penetrar direto nos ossos. O suor escorre para os meus olhos, ardendo tanto que eu não consigo abri-los. As lágrimas se misturam, e já não sei o que é o quê. Quero soluçar, mas sinto a garganta travada — não tenho nem força para chorar. Só fico ali deitada no chão frio, como um pedaço de lixo que alguém jogou fora.

Esse mesmo chão já sustentou meus 32 fouettés, já sustentou o rugido da plateia, já sustentou a srta. Wendy dizendo: “Doris é a melhor aluna que eu já ensinei.”

Agora ele só sustenta meu suor e minhas lágrimas, e este corpo que não consegue nem ficar de pé.

O que foi que eu fiz de errado?

De volta ao dormitório, abro o caderno ao lado da cama. Está abarrotado com todos os números do último mês:

Semana 1: 1800 cal consumidas, 3500 cal gastas, +2 libras

Semana 2: 1500 cal consumidas, 4000 cal gastas, +1,5 libra

Semana 3: 1200 cal consumidas, 4500 cal gastas, +2 libras

Semana 4:

Arremesso a caneta do outro lado do quarto.

Nada dessa matemática fecha. Quanto maior o déficit calórico, mais rápido eu ganho peso. Isso não é possível. Fico encarando os números, e um pensamento estala na minha cabeça.

Isso está errado.

Alguém está mexendo comigo.

Quem? Quem se beneficia com isso?

O rosto de Cara surge na minha cabeça.

Não. Não pode ser. Ela é minha melhor amiga.

Mas então eu me lembro daquela piscadela na pista.

O refeitório. Carrego minha bandeja procurando um lugar para sentar, e todo mundo evita meu olhar como se eu tivesse peste. No segundo em que me sento, as duas garotas à minha frente pegam as bandejas e saem correndo. O cara à minha esquerda joga a mochila na cadeira ao lado da minha, reservando o lugar. Todas as mesas ao meu redor estão lotadas. Só a minha está vazia. Encaro meu brócolis no vapor e mastigo.

Uma bandeja bate com força à minha frente.

Cara se senta, sorrindo, com macarrão e sopa cremosa. Ela empurra um brownie na minha direção. “Você está se esforçando demais. Come uma coisa doce.”

Ela sabe que estou fazendo dieta. Sabe que eu como menos de 1000 calorias por dia.

“Estou tentando perder peso.”

Cara franze a testa, toda falsa e cheia de preocupação suave: “Desse jeito você vai acabar se destruindo. Não se force tanto, sua saúde é o mais importante.” O tom dela é perfeito, preocupado na medida exata, como se tivesse ensaiado na frente do espelho.

Não ergo os olhos.

Pelo canto da visão, vejo ela dar uma mordida no brownie, com o canto da boca se erguendo. Isso não é preocupação. É presunção. Como se tudo estivesse exatamente onde ela queria.

À noite, de volta ao estúdio. Estou sozinha na barra, fazendo pliés — o movimento mais simples, até as iniciantes de oito anos conseguem acertar. Mas minhas coxas estão tremendo, meus joelhos falham, e eu preciso me agarrar à barra só para agachar. Olho para meu rosto no espelho. Não é o rosto daquela garota prodígio de três meses atrás. Está irreconhecível, consumido por meses de tortura.

De repente, uma ferroada aguda no meu pulso.

No instante em que Cara passou por mim agora há pouco, foi como se algo queimasse direto até o meu osso. Olho para baixo. Linhas fracas e brilhantes estão surgindo na minha pele — como a marca de uma corrente, enrolada no meu pulso.

Três segundos depois, desaparece.

Ergo os olhos para o fim do corredor. As costas de Cara acabam de virar a esquina. Ela está olhando para o próprio pulso, murmurando alguma coisa. Não ao celular. Para si mesma.

Fecho a mão trêmula.

O que foi que ela fez comigo?

Na hora do almoço, o campus se aquieta. A maioria dos alunos está espremida no refeitório ou de volta à sala descansando. Minha cabeça está girando, eu não quero ninguém me encarando, então vou para a silenciosa sala de equipamentos para organizar meus pensamentos.

A porta de madeira está entreaberta, só uma fresta. Ouço uma voz familiar lá dentro.

Cara.

Eu congelo, encosto as costas na parede e prendo a respiração.

Mais adiante no corredor, ela entra na passagem estreita atrás da sala de equipamentos — que leva a um velho depósito abandonado que ninguém usa. Eu paro na esquina, com as costas coladas à parede.

A voz dela atravessa, baixa, mas cada palavra chega cristalina pela porta.

“Eu te falei, Doris não vai aguentar por muito mais tempo. Ela está tão gorda agora, parece uma porca, se mata de tanto fazer dieta e ainda assim continua ganhando peso, hahahaha.”

“Ela nunca vai descobrir. Não tem como ela perder esse peso.”

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