Capítulo 4

Ela está se gabando tanto que mal consegue manter a voz firme.

— É, ela ainda está engordando. Duzentos e treze quilos agora. Nem consegue mais subir na ponta sem cambalear. Você precisava ter visto ela na aula hoje, caiu de cara no chão igual a uma baleia-jubarte encalhada, hahahaha. Você não faz ideia do quanto eu tive que morder a língua pra não rir alto, hahahaha.

Meu sangue gela. De quem ela está falando? Ela está falando de... mim?

— Você acha que eu estou fazendo isso por diversão? — A voz de Cara baixa, gelada, nada parecida com a melhor amiga doce e gentil que eu conhecia. — Eu já consegui a vaga no bootcamp. A audição da Juilliard vai ser minha assim que tirarem a dela. Quando arrancarem dela a vaga da audição da Juilliard, eu vou ser a única opção que eles têm.

Quem quer que esteja do outro lado da linha diz alguma coisa, e ela solta uma risadinha.

— Relaxa, ela nunca vai perder esse peso. Aquele fracassado morto de fome do Bruce fica trancado na sala de música vinte e quatro horas por dia enchendo a cara, com cento e vinte e sete quilos e sem mudar nada — só vai ficar mais gordo. Não importa o quanto ela treine, o peso dela sempre vai ser três quartos do dele. Pra sempre!

Bruce? Aquele perdedor de cento e vinte e sete quilos de quem todo mundo zomba? O que ele tem a ver comigo?

— E sabe qual é a parte mais engraçada? — Cara está gargalhando tanto que mal consegue respirar. — Ela acorda às cinco da manhã todo dia pra correr, passa fome até desmaiar, treina até cair de joelhos, burra o bastante pra ainda manter um diário alimentar completo.

— Ela acha que esforço vai deixar ela magra? Quanto mais ela tenta, mais engorda — e aquela expressão desesperada, destruída, na cara dela? Eu posso ver isso todos os dias. Vale cada segundo! Meu Deus, eu queria poder gravar e assistir em looping.

Meu peito parece estar desabando. Esse tempo todo ela esteve rindo de mim.

— Quando o sistema conectou os dois, o peso dela deixou de estar sob o controle dela. — Cara praticamente ronrona de orgulho. — Passei três meses armando essa maldição só pra ver ela desmoronar e se queimar. Enquanto eu estiver viva, ela nunca vai escapar disso.

Minha cabeça está girando. Sistema. Conexão. Maldição. Eu entendo cada palavra, mas juntas elas me atingem como uma marreta no peito.

— Ah, e aquela postagem do fórum que você me mandou? Vai lá e republica. A edição ficou perfeita. Da próxima vez, consegue mais imagens dela caindo. Se puder, pega ela chorando; quanto mais humilhante, melhor. E fala pro Ryan continuar empurrando ela, continuar falando merda, sem pegar leve. Eu quero a escola inteira contra ela. Ninguém do lado dela.

Quem quer que esteja na linha diz alguma coisa, e Cara ri, aguda e cruel.

— Ela acha que é um prodígio? Vamos ver o quanto ela é genial quando virar uma vaca de cento e cinco quilos.

A ligação termina. Passos seguem em direção à porta. Eu me viro e saio correndo.

Era ela. Esse tempo todo, era ela. Minha melhor amiga.

Ryan me empurrando na pista — foi ela que mandou. Os vídeos e rumores espalhados pelo fórum — foi ela que postou. A vaga no bootcamp roubada — foi ela que armou tudo.

Eu pensei que, se treinasse o bastante, se passasse fome o bastante, conseguiria recuperar quem eu era antes. Mas meu peso nunca esteve sob meu controle. Cada quilômetro que corri, cada gota de suor, cada refeição que pulei — tudo isso foi por nada.

Porque os cento e vinte e sete quilos do Bruce não vão a lugar nenhum! E o meu peso sempre vai ser três quartos do dele! Cento e cinco quilos. Eu nunca vou escapar desse número.

O choque desaparece, substituído por uma fúria glacial. Raiva, traição, desespero — tudo isso desaba sobre mim com tanta força que eu mal consigo respirar. Fecho os punhos com tanta força que meus nós dos dedos ficam brancos. Toda aquela dor, todo aquele sofrimento, dia após dia — era só um espetáculo doentio que ela montou por diversão. O que eu faço agora? As lágrimas caem no chão, e eu mordo o punho para abafar os soluços.

Mas então outra sensação me atinge. Mais quente que a raiva, mais afiada que a dor. Quem diabos ela pensa que é para arruinar a minha vida inteira?

Eu nasci para ser uma montanha, não um riacho.

Não importa o que seja preciso, eu vou abrir caminho de volta ao topo com as unhas.

Eu me levanto e enxugo as lágrimas. Bruce. Aquele cara de cento e vinte e sete quilos. Eu vou encontrá-lo.

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