Capítulo 2 O tapa
LOBÃO: — Pra que essa pressa toda? Tá na neurose por quê? Relaxa a porra do facho aí. Eu mesmo te dou o bonde pra tua goma. Deixo tu na tua casa, na moral, no sapatinho.
FÊNIX: — De maneira nenhuma. Eu sequer conheço o senhor. Fale logo qual é o seu propósito aqui para que possa sair e me deixar em paz!
LOBÃO: — Papo reto, novinha, sem caô. Já mandei a visão pra tu, sou cliente pesado aqui da casa. Curti pra caralho a tua dança, tu tem um rebolado bolado que me deixou doido, e brotei aqui no miolo pra bancar uma foda contigo. Quero pagar por uma noite inteira na tua cama. O dinheiro tá na mão, sem miséria, é só tu falar o preço da tua buceta.
Meu sangue gelou nas veias e, em seguida, ferveu como lava. O sujeito estava insinuando abertamente que eu sou uma prostituta? Que eu me vendo por dinheiro? Ah, mas isso não vai ficar assim de jeito nenhum. A indignação tomou conta de cada célula do meu corpo. Levantei-me rapidamente de onde eu estava encostada, marchei até ele com fúria nos olhos e, antes que ele pudesse prever o movimento, desferi um tapa estalado, ardido e com toda a minha força bem no meio do rosto dele. O som ecoou alto pelo camarim e o impacto claramente o pegou de surpresa, fazendo o rosto dele virar bruscamente para o lado.
LOBÃO: — Tá maluca, caralho?! Quem tu acha que é pra meter a mão na minha cara, sua puta?! Tem nego que já foi pra vala cheio de furo por muito menos que isso! Perdeu a noção do perigo, porra?!
FÊNIX: — Vagabunda não! O senhor é um troglodita desprezível que veio até aqui com o único intuito de me ofender. O simples fato de eu dançar neste estabelecimento e usar essas roupas não lhe dá o direito de deduzir que sou uma mulher sem pudor. Dê meia-volta e suma da minha frente, seu idiota arrogante. Eu jamais me deitaria com um homem da sua laia, independentemente de quanto dinheiro você tenha!
LOBÃO: — Porra, tu trampa na porra de um puteiro, rebola até o chão rasgando a raba com essa roupinha minúscula que mal esconde a tua buceta, e quer que eu pense o quê, caralho? Qual é a tua visão, então, caralho? Vai se fazer de santa agora?
FÊNIX: — Trabalhar neste local e usar os trajes que a função exige não me torna um objeto disponível para qualquer um, seu imbecil. Sou exclusivamente uma dançarina. Se o seu desejo é dormir com alguém pagando por isso, sugiro fortemente que procure outra mulher lá fora, porque eu definitivamente não presto esse tipo de serviço e não estou à venda.
Ele me encarou, os olhos faiscando de raiva contida, mas aos poucos sua postura puramente agressiva deu lugar a um sorriso cínico, sombrio e predatório de canto de boca.
LOBÃO: — Tá suave, aê. Dei um papo torto, fui na emoção da parada e atravessei o sinal. Vamo rebobinar essa porra, pode ser? Meu vulgo é Lobão. Fiquei hipnotizado na tua, pique mandrake, e por isso que eu brotei aqui na tua contenção. Tu é gostosa pra caralho e essa tua máscara aí só deixa o bagulho mais instigante e perigoso pro meu lado.
Ele falou com a voz extremamente rouca, me secando descaradamente com aqueles olhos escuros. E, que os céus me perdoem, mas eu tenho que admitir que aquele olhar negro e profundo é uma tentação absurda. Que homem estupidamente lindo, mas tão quebrado de caráter e tão grosseiro.
FÊNIX: — Você já acabou de me encarar da cabeça aos pés com essa atitude desrespeitosa? — perguntei, cruzando os braços defensivamente, tentando parecer entediada com o joguinho sujo dele.
Pisquei várias vezes, concentrando-me na frieza do rosto dele, que agora também estava com os braços grossos e totalmente tatuados cruzados sobre o peito largo e musculoso.
LOBÃO: — Na real? Não. Ainda não acabei não, gata. Tô só começando a mapear o terreno — ele respondeu, com a voz carregada de gírias e um desejo animalesco e desenfreado.
Eu respirei fundo, engolindo a minha raiva e o medo que ameaçava me dominar, e dei dois passos firmes, andando em direção a ele até ficar perigosamente perto de seu rosto.
FÊNIX: — Nem todas as pessoas no mundo estão à venda para homens arrogantes como você — eu sussurrei de forma fria, ríspida e cortante, inclinando-me bem perto de seu ouvido, sabendo perfeitamente que o meu perfume doce estava invadindo suas narinas. — Eu odeio este trabalho e o ambiente desta boate com a mesma intensidade que acabei de passar a odiar você. Passe bem, senhor Lobão.
Sem dar a ele a menor chance de responder ou de tentar me agarrar, peguei a minha bolsa em um solavanco rápido, virei as costas e saí correndo desesperadamente pelo corredor dos fundos. Meu coração martelava violentamente no peito e eu só queria chegar na minha casa, trancar todas as portas e me esconder do mundo.
