Capítulo 4 Luana
FÊNIX / LUANA
O trajeto de volta para casa foi silencioso, preenchido apenas pelo ronco abafado do motor do carro e pelo turbilhão de pensamentos que explodiam na minha mente. Saí do veículo assim que parou em frente ao portão, sentindo o peito ainda descompassado. Devo admitir, por mais que o meu orgulho tentasse disfarçar, que aquele monumento de homem emana uma tentação perigosa demais para a minha sanidade. Saí dos meus devaneios quando os seguranças estacionaram de vez.
— Obrigada, meninos. Tenham uma boa noite. — Falei educadamente.
Eles, que nunca foram de conversa fiada ou amizades fáceis, apenas acenaram com a cabeça em sinal de respeito e arrancaram com o veículo na escuridão da rua. Destranquei a porta de casa e entrei na ponta dos pés, tentando não fazer barulho, mas dei de cara com a minha mãe, Dona Laura. Pela expressão severa e o cenho profundamente franzido, ela estava acordada me esperando e muito brava.
— Isso é horas de chegar, Dona Luana? E tire logo essa máscara do rosto! — Exigiu minha mãe, com a voz carregada de reprovação. — Já disse mil vezes que não suporto que você entre com esse pedaço de pano maldito dentro de casa, parecendo uma criminosa.
— Calma, mãezinha, por favor... Já vou tirar, está satisfeita? Agora venha aqui e me dê um beijo. — Tentei amenizar o clima pesado.
— Vá tomar um banho imediatamente e tire essa roupa imunda do corpo! Você sabe muito bem o quanto eu detesto esse seu trabalho de dançarina.
Sem me dar tempo para uma réplica, ela virou as costas e se afastou. Minha mãe é uma mulher profundamente sofrida, marcada pelas cicatrizes que a vida cruel lhe deixou. Meu pai nos abandonou quando ela ainda estava grávida de mim — eu sequer sei o rosto dele, não faço a menor ideia de quem seja, e sinceramente, criei um vazio completo em relação a isso. Desde então, vivo exclusivamente por ela, para garantir que ela tenha o mínimo de dignidade. Já tentei procurar emprego em diversos estabelecimentos comerciais comuns, mas a história é sempre a mesma: os gerentes e patrões canalhas só querem se aproveitar da minha fragilidade, exigindo favores sexuais em troca de um salário mínimo. Me dá um embrulho no estômago e um nojo profundo só de lembrar daquelas propostas nojentas. O único homem que estendeu a mão para mim sem cobrar nada além do meu esforço profissional foi o Luan, que aceitou todas as minhas condições, inclusive o uso obrigatório da máscara para preservar minha identidade. Ou era aceitar isso, ou passar fome nas ruas.
Apesar de tudo, minha mãe nunca conseguiu se conformar com esse meio. Eu continuo lá unicamente por falta de opção, até conseguir algo honesto e limpo. A máscara serve justamente para isso: para que ninguém da rua saiba quem eu sou de verdade e para evitar dar ainda mais desgostos à minha mãe. Contudo, notei que atualmente ela anda excessivamente cansada, pálida e nervosa. Preciso descobrir o que está acontecendo com a saúde dela. Fui tirada dessas reflexões quando sua voz fraca ecoou da cozinha.
— Venha, minha filha, a sopa vai esfriar na mesa. — Chamou ela.
— Já estou indo, mãe. — Respondi prontamente.
Desci para a sala de jantar e, ao me aproximar da mesa, notei que ela cambaleou. Corri em disparada, segurando-a pelos braços bem a tempo de evitar que caísse no chão, e a ajudei a se sentar na cadeira.
— O que houve, mãe? Por que a senhora está pálida desse jeito? — Perguntei com o coração disparado de pavor.
— Nada, filha, não é absolutamente nada... Acho que a pressão arterial caiu um pouco, só isso, fique tranquila.
— Tem certeza absoluta, mãe? Eu acho prudente levá-la ao pronto-socorro agora mesmo para fazermos exames.
— Não, filha, de jeito nenhum! Eu não quero ir a hospital nenhum, já estou até me sentindo melhor, foi só uma fraqueza passageira.
— Tem certeza mesmo?
— Sim, filhinha, fique calma. Agora me conte, como foi o seu turno hoje naquele lugar?
— Como todos os dias da minha vida, mãe. Monótono e cansativo. Mas hoje, em especial, conheci um homem... um verdadeiro babaca arrogante que chamou minha atenção de um jeito irritante. Ele é lindo, confesso, mas extremamente arrogante, prepotente e bruto.
— Hum... será que foi amor à primeira vista? — Brincou ela, esboçando um sorriso fraco.
— Claro que não, mãe! Nem conheço o sujeito e sinceramente espero nunca mais cruzar com ele na vida. Agora vamos descansar, porque amanhã é outro dia de luta pela sobrevivência.
