Capítulo 1 Garota cega em fuga
Ponto de vista de Dayna
Os gritos começaram antes mesmo de eu fechar a porta do apartamento.
— Dayna Melgar! Sua ingrata de merda! — a voz de Maxtime ribombou pela sala apertada. Meu pai nunca tinha sido um homem paciente, mas ultimamente o pavio dele tinha ficado ainda mais curto. — A gente está sangrando dinheiro pra te manter viva, e é assim que você retribui? Acha que é boa demais pra ajudar esta família agora?
Meus dedos se apertaram na alça da mochila. Três dias atrás, eu teria visto a veia pulsando na têmpora dele. Agora, havia apenas escuridão e a lâmina afiada da sua fúria.
— Eu consegui uma bolsa integral na Hudson Business School — eu disse, baixo. — Não vou precisar de um centavo de vocês.
A risada da minha mãe, Taissa, foi áspera.
— Uma bolsa? E como exatamente isso vai ajudar o Aaron com a mensalidade da escola particular? Estouramos três cartões de crédito e agora seu pai foi demitido. O aluguel vence no mês que vem!
A injustiça queimou no meu peito. Eu me lembro daquele dia com tanta clareza. O estalo do metal se partindo, a senhora idosa parada embaixo do andaime, e os entulhos da obra despencando sobre ela lá de cima. Eu não pensei. Só me mexi. Empurrei ela para fora do caminho. Aí veio a explosão de dor quando estilhaços de vidro e fragmentos de metal atingiram meu rosto, e depois... nada. Só escuridão.
— Aquela velha nos deu dez mil dólares e sumiu — Taissa cuspiu. — Isso é gratidão. Um cheque e adeus.
Minha garganta se fechou. Martha não tinha me abandonado. Ela tinha dado aquele dinheiro a eles especificamente para a minha cirurgia, acreditando de boa-fé que usariam para devolver minha visão. Em vez disso, embolsaram a grana e me tiraram do hospital no dia seguinte.
— Pra que desperdiçar dinheiro bom nos olhos de uma menina? — Maxtime tinha dito quando eu implorei para reconsiderarem. — A educação do Aaron é muito mais importante. Ele, sim, tem futuro.
Eu não sou sua filha? A pergunta me assombrava naquela época e me assombrava agora.
Antes que eu pudesse responder, a mão de Taissa acertou minha bochecha. Eu cambaleei, e a minha cegueira tornou impossível recuperar o equilíbrio.
O jantar foi pior. Eu me sentei na escuridão completa, tateando até encontrar meu prato enquanto eles paparicavam Aaron como se eu não existisse.
— Mãe, posso ganhar o PlayStation novo neste fim de semana? — a voz de Aaron estava viva e cheia de direito, a voz de alguém que nunca tinha ouvido um não.
— Claro, meu amor — Taissa cantarolou. — Você tem se esforçado tanto na escola. Merece um agrado.
Ele se esforçava? Eu trabalhei em três empregos de meio período durante o ensino médio. Eu estudava toda noite depois de fechar turno no restaurante. Eu consegui uma bolsa integral numa das melhores escolas de negócios do país. Mas o Aaron ganha um PlayStation por simplesmente existir.
Meus dedos finalmente acharam a borda do prato. Purê frio e algo que parecia frango passado. Eu não comia desde ontem de manhã; meu estômago era uma dor oca que eu tinha aprendido a ignorar. Mas o orgulho manteve meus movimentos lentos e deliberados enquanto eu levava pequenas porções à boca.
— Na verdade — disse Taissa, mudando o tom —, eu tenho pensado na situação da Dayna. Tem um homem... Nathan Mitchell. Ficou viúvo recentemente. Ele está procurando uma esposa.
Meu garfo parou no ar. Uma esposa? Mais uma empregada sem salário e um saco de pancadas pra quando ele perde no pôquer! Eu conhecia o Nathan dos meus turnos no restaurante no ano passado — sempre fedendo a uísque até ao meio-dia, as mãos tremendo enquanto segurava a cerveja, xingando alto por causa das perdas no jogo. Eu já tinha visto ele tropeçar pra fora mais de uma vez, deixando mal o suficiente pra cobrir a conta.
— Ele tem cinquenta e três anos — disse Maxtime. — Renda estável. Ele cuidaria de você.
— Ele é jogador e bêbado — eu disse, devagar.
— Mendigo não escolhe — Maxtime cortou. — Se você não tivesse bancado a heroína naquele dia, a gente não estaria nesse inferno. Salvou uma velha aleatória e acabou com seus olhos! Você faz ideia do quanto suas contas médicas custaram pra gente? Agora tem um cara que quer casar com você. Casa logo com ele e para de encher o saco!
Aaron soltou um risinho, ao mesmo tempo cruel e infantil.
— Não acredito que alguém ia querer casar com ela. Ela nem enxerga pra onde tá indo.
Eles riram todos.
Eu me levantei de repente.
— Com licença. Eu preciso limpar a cozinha.
Na pia, lavando a louça no escuro, a decisão se cristalizou: eu não posso casar com o Nathan. Eu não posso passar a vida em outra jaula.
Eu preciso ir embora. Esta noite.
Esperei até depois da meia-noite. Meu “quarto” — um depósito adaptado — mal tinha espaço para o meu saco de dormir. Juntei meus poucos pertences: mochila, roupas de brechó, carta da bolsa de estudos, documentos, óculos escuros baratos e a bengala branca frágil do hospital.
Fui na ponta dos pés até a porta da frente, evitando as tábuas do piso que eu sabia que rangiam. Quando meus dedos se fecharam em torno da maçaneta, me permiti respirar uma vez.
Então dei um passo rumo ao desconhecido.
O ar da noite estava fresco, trazendo um leve cheiro de chuva. Fiquei parada nos degraus do apartamento, paralisada por uma única pergunta: para onde eu vou?
Resolvo isso depois. Agora, é só andar.
Estendi a bengala e dei um passo hesitante. A ponta enroscou em alguma coisa, e eu tropecei. O segundo tropeço foi pior — a bengala prendeu numa saliência, e eu caí, batendo com força no chão.
“Não, não, não”, sussurrei, o pânico crescendo quando percebi que eu não estava mais na calçada. A superfície sob mim era diferente — mais lisa. E havia sons, sons assustadoramente próximos.
Buzinas. Várias buzinas, estridentes de raiva.
“Sai da rua, sua idiota!”, alguém gritou.
Meu Deus. Estou no meio da rua.
Tateei de quatro, tentando encontrar minha bengala, minha mochila. Veículos passavam rugindo, perto o bastante para que eu sentisse o deslocamento de ar. As buzinas eram ensurdecedoras. Eu não conseguia dizer em que direção estava a segurança.
Então um carro parou. Uma porta se abriu com um baque firme.
Passos comedidos se aproximaram. Uma sombra caiu sobre mim.
“Andando cega no meio do trânsito”, disse uma voz, fria como geada de inverno. “Essa é a sua solução?”
A voz era masculina, grave e ressonante, com o tipo de autoridade que exigia obediência. Mas por baixo daquele gelo havia algo que fez meu coração falhar uma batida.
Essa é a voz mais linda que eu já ouvi.
“Eu...” Minha voz saiu trêmula. “Quem é você?”
“Isso não importa. Você perdeu a visão salvando a minha avó, certo? Ainda não agradeci por isso.”
Sim, Martha mencionou que tinha um neto.
“Você não precisa me agradecer”, consegui dizer. “Qualquer um teria feito o mesmo.”
“Claro.” Havia algo quase parecido com aprovação naquele tom frio. “Para onde está planejando ir esta noite?”
“Eu... vou encontrar algum lugar...”
“Você não tem para onde ir.” Não era uma pergunta.
“Eu vou dar um jeito”, falei, tentando soar mais confiante do que me sentia.
“Não, não vai.” Os passos dele se aproximaram. “Você precisa de tratamento adequado para os olhos. Você salvou a minha avó, agora eu vou salvar você.”
“Não! Eu não posso aceitar mais ajuda sua! As contas médicas—”
“Foi isso que te disseram? Que as contas eram altas demais?” Algo perigoso entrou em sua voz. “O que mais te disseram?”
“Que... que a cirurgia talvez nem funcionasse. É cara demais para algo sem garantia.”
“Mentiram para você.” As palavras saíram secas. “Vou te levar a um especialista que possa realmente ajudar. Entre no carro.”
Fiquei sentada no asfalto gelado, dividida entre o medo e uma esperança desesperada. Não posso voltar para casa. Não consigo sobreviver nas ruas. Não posso encarar a faculdade cega. E aquele homem estava oferecendo exatamente o que eu precisava. Uma chance de voltar a enxergar.
Mas aceitar parecia perigoso. E se ele estiver mentindo? E se isso tudo for uma mentira elaborada para fazer uma garota vulnerável entrar no carro dele?
Eu já tinha ouvido as histórias — predadores que miravam pessoas com deficiência, especialmente mulheres. Como seria fácil inventar uma história convincente sobre conhecer a mulher que eu salvei?
“Como eu sei que você é mesmo o neto dela?”, perguntei de repente.
“Você não sabe. Mas não tem escolha. Agora entre no carro. Não vou pedir de novo.”
Ele estava certo. Eu não tinha escolha. Só podia escolher acreditar.
“Tá bom”, sussurrei. “Obrigada, senhor...” Minha voz sumiu.
“Senhor?” Havia um toque de divertimento naquela voz fria.
“Não sei como devo te chamar.”
Um muxoxo. “Parker, ajude-a com as coisas dela e coloque-a no carro.”
“Sim, Sr. Booth”, outra voz respondeu.
Então é a esse homem que estou confiando a minha vida. Sr. Booth.
Enquanto Parker recolhia meus pertences espalhados, ouvi o Sr. Booth falando baixinho ao telefone. “Está feito. Estou com ela... Não, ela não suspeita de nada. Estou levando-a para o hospital. Depois te conto os detalhes.”
Meu coração parou. Em que foi que eu me meti? Será que acabei de escapar de uma jaula só para entrar de livre e espontânea vontade em outra?
