Capítulo 2 Case com ela ou então

Ponto de vista de Bradley

— Muito obrigada — disse a garota enquanto ele a ajudava a entrar no carro, com a voz suave e sincera. Quando ela sorriu para ele, tive meu primeiro olhar de verdade para o rosto dela.

Mesmo com aqueles óculos escuros escondendo seus olhos, ela era impressionante. Traços delicados, pele de porcelana, apesar do que claramente tinham sido anos de negligência.

Entrei no banco de trás ao lado dela, mantendo uma distância apropriada. Ela tinha um cheiro fraco de sabonete barato e xampu de promoção.

— Obrigada de novo, Sr. Booth — disse ela, se encolhendo contra a porta do outro lado, as mãos agarradas àquela mochila patética como se fosse um escudo.

Não respondi.

Mesmo assim, ela continuou, preenchendo o silêncio. — Martha mencionou que o neto dela trabalhava numa grande empresa. Você é executivo lá? Como devo chamar você?

Já tentando se aproximar?

— Sr. Booth está bom — respondi secamente.

— Ah — ela respondeu em voz baixa.

Olhei para Parker pelo retrovisor. — Hospital. Agora.

— Sim, senhor.

A garota — Dayna — ficou rígida contra o banco de couro. Mal se movia, mal respirava, como se tivesse medo de que qualquer movimento pudesse quebrar alguma coisa.

— Você pode relaxar — falei, mais ríspido do que pretendia.

Ela se encolheu. — Desculpe, eu só... — Mordeu o lábio. — Eu não sei para onde estamos indo. Você disse hospital, mas... tem certeza de que é para lá que estamos indo? Porque eu ouvi você ao telefone dizendo que eu não suspeitava de nada, e eu... — Ela parou abruptamente, como se tivesse percebido que tinha falado demais.

Então ela estava ouvindo. Garota esperta. Ou garota paranoica.

— É o hospital — repeti, sem expressão. — Sequestrar uma garota cega não é exatamente o meu estilo.

Ela soltou o ar e recostou-se, mas a tensão não deixou completamente seus ombros. Em poucos minutos, o cansaço deve tê-la vencido. A cabeça dela começou a pender e, antes que eu percebesse, ela tinha desabado de lado sobre o meu ombro.

Fiquei tenso. O cheiro do xampu dela estava mais forte agora, e eu podia sentir o subir e descer da respiração dela. Ela não pesava quase nada.

Empurrei-a para longe com firmeza, ajeitando-a contra a janela. Ela murmurou alguma coisa dormindo, mas não acordou.

Os olhos de Parker encontraram os meus pelo espelho. Lancei a ele um olhar que dizia nem pense em fazer algum comentário.

Minha mente voltou para esta manhã, quando toda essa confusão começou.

— Bradley! — A voz de Martha carregava aquele tom preocupado que surgia quando algo realmente a incomodava. — Aquela garota... a que me salvou... saiu do hospital!

Eu estava no meio de uma reunião do conselho. — Vovó, tenho certeza de que a equipe do hospital...

“Ninguém sabe para onde ela foi! Ela precisa fazer uma cirurgia nos olhos, e simplesmente foi embora!” Havia um desespero genuíno na voz dela. “Você precisa encontrá-la. Traga-a de volta.”

Apertei a ponte do nariz. “Vovó, tenho certeza de que ela tem família que—”

“Encontre-a, Bradley. Hoje. Ou eu mesma vou.” A voz dela tinha aquela qualidade gentil, mas firme, que significava que ela não mudaria de ideia. “Você realmente quer que sua velha avó saia correndo pelas ruas?”

Então pedi licença da reunião, liguei para Parker e mandei que ele fizesse uma checagem completa do histórico dela.

O relatório chegou em menos de uma hora, e acendeu todos os alarmes que eu já tinha.

Dayna Melgar. Vinte e um anos. Caloura da Hudson Business School. Especialização em marketing, bolsa integral. Pais: Maxtime e Taissa. Um irmão: Aaron, dezesseis anos. Situação financeira da família: instável. Múltiplos cartões de crédito em cobrança. Pai recentemente desempregado. Histórico de...

Parei de ler em “histórico de ocorrências de violência doméstica”.

Alguma coisa não fechava. A checagem mostrava que Martha tinha dado dez mil dólares aos Melgar para a cirurgia de Dayna. O dinheiro foi direto para a conta dos pais dela e sumiu — móveis novos, depósito da escola de Aaron, pagamentos de cartão de crédito. Tudo, menos o tratamento médico dela.

Aquilo era um infortúnio real ou ela tinha armado tudo? Deixado os pais gananciosos embolsarem o dinheiro, bancado a vítima trágica e esperado a culpa da minha família nos arrastar ainda mais para dentro?

Então mandei Parker preparar o carro e ir para a casa dela — eu precisava ver que tipo de jogo essa garota estava jogando.

Quando chegamos ao prédio do apartamento dela, a noite já tinha caído. No instante em que paramos, eu a vi sair pela entrada — descendo os degraus aos tropeços com uma bengala que claramente não sabia usar direito, de óculos escuros, agarrada àquela mochila patética como se ali estivesse tudo o que possuía.

O que, percebi, provavelmente era verdade.

Ela caiu. Duas vezes. Na segunda, foi parar no meio da rua, com os carros desviando dela e buzinas soando por todos os lados.

Garota idiota. Se está fingindo, levou o método de atuação a um nível perigosamente extremo.

Mas mesmo assim saí do carro. Porque Martha jamais me perdoaria se alguma coisa acontecesse com a salvadora dela.

Agora, vendo-a dormir encostada na janela do carro, apesar de anos lendo as pessoas, eu ainda não conseguia decidir se ela era sincera ou se estava me manipulando.

Paramos no Hospital St. Catherine — meu hospital, tecnicamente, já que a Fundação Booth era acionista majoritária. Eu tinha mandado uma mensagem antes para que Jamie Bhatt estivesse esperando.

Parker abriu a porta, e eu sacudi o ombro de Dayna de leve. “Chegamos.”

Ela acordou com um suspiro curto, desorientada. “Onde—”

“No hospital. Vamos.”

Ela hesitou, claramente pesando se confiava em mim ou se saía correndo. Por fim, deixou Parker ajudá-la a descer, mas notei que ela se posicionou de um jeito que ele ficasse entre nós.

Jamie estava esperando na entrada privativa, com o sorriso fácil de sempre no rosto. Mas, quando viu Dayna, algo mudou na expressão dele — preocupação profissional misturada com curiosidade.

“Jamie, esta é a Dayna. Ela precisa de uma avaliação oftalmológica completa. Atendimento prioritário.”

“Claro.” Os olhos de Jamie foram de um para o outro. “E devo lançar isso na... conta de sempre?”

“Sim.”

O sorriso de Jamie se abriu mais. “Ora, ora, Bradley. Primeira vez que vejo você escoltando alguém pessoalmente até o hospital. Ela deve ser especial.”

“Cala a porra da boca.”

“Ahã.” Aquele olhar de quem sabia de tudo era irritante. “Vou cuidar muito bem dela.”

Agarrei o braço dele quando ele se virou para sair. “Jamie. Nem uma palavra disso para ninguém. Principalmente não como da última vez.”

A expressão dele ficou séria. “Você diz quando a Marisa apareceu no seu escritório depois daquele baile beneficente porque eu comentei que você tinha patrocinado a cirurgia de alguém?”

“Exatamente isso. Mantém isso em sigilo.”

“Entendido. Sigilo médico e tudo mais.” Ele piscou.

Ele conduziu Dayna em direção às salas de exame, e eu os observei se afastarem antes de tirar o celular do bolso e ligar para a minha avó pela segunda vez esta noite.

Martha atendeu no primeiro toque. “Como ela está?”

“Está pior do que eu pensei.” Encontrei um recanto silencioso e me encostei na parede, atualizando-a sobre a situação familiar complicada de Dayna.

“Coitadinha dessa menina.” A voz dela estava cheia de calor maternal. “Salvar uma desconhecida e depois ser tratada tão mal pela própria família...”

“Ou,” eu disse com cuidado, “ela viu uma oportunidade e aproveitou. Uma senhora idosa vulnerável, uma chance de ganhar simpatia—”

“Bradley, não seja tão cínico.” O tom de Martha foi uma repreensão gentil. “Aquela menina me empurrou para fora do caminho sem hesitar. Ela nem sabia quem eu era.”

“Ela podia estar trabalhando com alguém. Muita gente tem procurado maneiras de—”

“Besteira. Eu vi o rosto dela quando aconteceu. Pura bondade. E agora ela está cega e sem teto por minha causa.” Uma pausa. “Então você vai se casar com ela.”

Quase deixei o celular cair. “Desculpa, o quê?”

“Você ouviu. Case com ela.”

“Vó, você não pode simplesmente — casamento não é um programa de caridade—”

— Por que não? — O tom dela era irritantemente razoável. — Ela precisa de proteção, segurança, um lar. Você precisa de uma esposa. Eu preciso ver você assentado antes de partir. É perfeito.

— Isso é insano.

— É mesmo? — Agora ela parecia quase divertida. — Você tem trinta e dois anos, Bradley. Toda socialite de Bayville está se atirando em cima de você por causa do seu dinheiro. Pelo menos essa garota salvou a minha vida primeiro. Isso é mais do que esses abutres já fizeram.

— Eu não vou me casar com uma desconhecida só porque...

— Então não pense nisso como casamento. Pense nisso como... gratidão prolongada. Um acordo de negócios. Você é bom nisso. — A voz dela suavizou. — Aquela garota não pediu nada, não esperava nada e perdeu tudo. O mínimo que podemos fazer é dar a ela uma chance de ter uma vida de verdade.

— Eu não posso obrigar alguém a se casar comigo, Martha. Talvez ela nem...

— Então convença-a. — O tom de Martha ficou perigoso. — Porque, se você não fizer isso, eu vou a esse hospital agora mesmo e proponho esse arranjo pessoalmente. E você sabe como eu fico quando coloco uma missão na cabeça.

Fechei os olhos. Sim, eu sabia exatamente como ela ficava. Da última vez que ela “tomou as rédeas da situação”, ameaçou parar de tomar o remédio para o coração até que eu demitisse um diretor financeiro que ela suspeitava estar desviando dinheiro. Ela estava certa sobre o desvio, mas os três dias de pânico enquanto eu investigava tiraram anos da minha vida.

Ela era a única que conseguia me manipular desse jeito. A única cujas ameaças eu não podia ignorar.

Porque ela esteve lá. Depois que meus pais morreram — o acidente de carro que não foi um acidente, os rivais de negócios que o armaram e o garoto de vinte anos subitamente lançado no comando de um império da tecnologia — Martha foi meu alicerce. Sob a orientação dela, transformei a Booth Tech na principal corporação de tecnologia dos Estados Unidos e construí uma fortuna que me colocou entre os indivíduos mais ricos do mundo.

Ela fez de mim o homem que sou hoje. Eu devia isso a ela.

— Eu vou... falar com ela — cedi. — Mas e se ela disser não?

— Ela não vai. Tenho fé em você. — O tom de Martha se iluminou.

— Vou ver o que posso fazer.

— Não é bom o bastante. Case-se com ela, ou então. Não vou permitir que aquela doce menina sofra nem mais um dia.

Abri a boca para argumentar, mas a ligação caiu.

Eu ainda estava ali, encarando meu celular, quando Jamie apareceu correndo na esquina do corredor.

— Bradley! Temos um problema. Marisa está aqui e se trancou na sala de exames com a sua... com a Dayna. Ela está furiosa.

Meu maxilar se contraiu.

— Você falou demais de novo?

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