Capítulo 4 Case comigo

Ponto de vista de Bradley

A marca vermelha na bochecha de Dayna já começava a inchar. Ela fez uma careta de dor, mas não soltou um som.

— Jamie. — Minha voz saiu baixa, mas o fio cortante nela fez o médico se sobressaltar.

— S-sim, sr. Booth?

— Pegue alguma coisa para tratar o inchaço no rosto dela.

Ele correu até o carrinho de medicamentos, puxando materiais com as mãos trêmulas. Quando se aproximou de Dayna com antisséptico e bolsas de gelo, cheguei mais perto e baixei a voz para que só ele ouvisse.

— Já é a segunda vez que você falha nos seus deveres. — Mantive o tom agradável. — Não quero que aconteça de novo.

A cor sumiu do rosto dele.

— Sim, eu entendo.

Observei enquanto ele limpava com cuidado a área ao redor do ferimento de Dayna; as mãos agora estavam firmes, apesar do medo. Ela ficou perfeitamente imóvel.

— Pronto, srta. Melgar — disse Jamie, em voz baixa. — O inchaço deve diminuir em algumas horas. Vou deixá-la descansar.

Ele praticamente fugiu do quarto.

Dayna se recostou nos travesseiros, com as mãos dobradas com cuidado sobre o estômago. Sob a luz dura dos fluorescentes, ela parecia absurdamente pequena e frágil.

— Sr. Booth? — A voz dela mal passava de um sussurro. — Desculpe. Eu... eu causei problemas para o senhor?

A pergunta me pegou de surpresa. Depois de tudo o que tinha acontecido, ela estava preocupada em me incomodar?

Puxei a cadeira ao lado da cama e me sentei.

— Não foi problema. Você deve descansar e se concentrar no seu tratamento.

Ela virou a cabeça na direção da minha voz, e notei que a testa se franziu de leve.

Ela é mesmo tão inocente assim? Eu já tinha visto mulheres como Marisa — bonitas, calculistas, dispostas a tudo para subir na escala social. Dayna tinha salvado minha avó, sim. Mas aquilo tinha sido bondade genuína, ou ela tinha percebido uma oportunidade?

Ainda assim, independentemente dos motivos dela, ela era a salvadora de Martha. Eu não deixaria ninguém machucá-la enquanto estivesse sob a minha proteção.

Mesmo que acabasse não sendo diferente das outras, lidar com ela seria responsabilidade minha. De mais ninguém.

Eu ainda pensava em como abordar o assunto do casamento quando Dayna falou de novo.

— Sr. Booth, eu... eu estive pensando. — Ela mordeu o lábio inferior. — Meus olhos... vou deixá-los assim.

Inclinei-me para a frente.

— Por quê?

— O dr. Bhatt disse que a cirurgia custaria pelo menos trezentos mil. — A voz dela tremeu um pouco. — Eu não tenho como pagar. E eu preciso começar a faculdade. Não posso continuar faltando às aulas, e certamente não posso pedir mais ajuda quando eu já...

— E como, exatamente, você pretende assistir às aulas no seu estado atual? — As palavras saíram mais duras do que eu pretendia.

Ela se encolheu.

— Eu posso tentar. As pessoas fazem isso, estudantes cegos...

— Eu vou cobrir todas as suas despesas médicas. — Interrompi. — Você não consegue aprender direito se não consegue enxergar. Faça a cirurgia, recupere a visão e depois se preocupe com a sua educação.

— Mas é muito dinheiro. — As mãos dela se retorceram no cobertor. — Mesmo que eu trabalhasse em três empregos, nunca conseguiria pagar de volta. Eu não posso...

— Então case comigo.

As palavras ficaram suspensas no ar entre nós.

A boca de Dayna se abriu.

— O quê?

— Case comigo — repeti, mantendo o tom profissional. — Como minha esposa, suas despesas médicas viram um assunto da casa. É perfeitamente razoável.

— Eu... eu não... — Ela lutou para formar palavras, as bochechas ficando cor-de-rosa. — Sr. Booth, eu não posso...

— Pense nisso como um acordo prático — eu disse. — Você precisa de cuidados médicos. Minha avó quer ver você bem. Isso resolve os dois problemas.

Ela ficou em silêncio por um longo momento, o rosto mostrando emoções conflitantes. Por fim, falou, com uma voz pequena, mas determinada.

— Tudo bem. Eu aceito sua proposta.

Um alívio passou por mim — embora eu não soubesse dizer por que eu me sentia aliviado.

— Mas — continuou depressa — eu quero que o senhor saiba que isso ainda é um empréstimo. Tudo. Quando meus olhos estiverem melhor e eu puder trabalhar, vou devolver cada centavo. Eu não vou ser um peso.

O canto da minha boca se contraiu. Ela estava aceitando um casamento e, ainda assim, preocupada em ser um peso. Ou era a pessoa mais genuína que eu já tinha conhecido, ou a melhor atriz.

— Descanse — eu disse, levantando-me.

Providenciei para que uma enfermeira acomodasse Dayna em um quarto privativo. Quando tive certeza de que ela estava bem assistida, encontrei Jamie em seu escritório, curvado sobre o computador.

— Amanhã de manhã — eu disse, sem rodeios. — Quero o melhor oftalmologista disponível para a cirurgia da Dayna. Não economize.

— Sim, sr. Booth. Vou providenciar tudo.

Na manhã seguinte, me vi caminhando até o quarto de Dayna mais cedo do que o necessário. O hospital estava quieto, a maior parte da equipe apenas começando o turno.

Empurrei a porta e a encontrei já acordada, sentada na cama.

— Sr. Booth — ela disse de imediato, antes mesmo de eu dar dois passos dentro do quarto.

Parei.

— Como você soube que era eu?

Um sorrisinho brincou em seus lábios.

— Pelo seu jeito de andar. E esse cheiro de sândalo que o senhor usa. É... marcante.

Havia algo naquela observação que me deixou inquieto. Ela tinha memorizado o som dos meus passos, o aroma da minha colônia. Detalhes tão pequenos, percebidos e arquivados apesar da cegueira.

— Um especialista internacional em olhos vai realizar sua cirurgia esta manhã — eu disse, empurrando o pensamento para longe. — Ele é um dos melhores do mundo.

Lágrimas se acumularam em seus olhos sem visão.

— Sério? O senhor acha... eu vou conseguir enxergar de novo?

— Não imediatamente. A cirurgia vai reparar os danos, mas a recuperação total da visão leva tempo.

Ela assentiu, enxugando as lágrimas com o dorso da mão.

— Eu entendo. Obrigada. Eu não sei como algum dia eu vou—

— Vamos precisar assinar os termos de consentimento — interrompi, sem querer ouvir mais uma promessa de que ela me retribuiria.

Uma enfermeira apareceu com uma prancheta.

— Precisamos da assinatura de um parente direto para o procedimento.

— Eu assino — eu disse, firme.

A enfermeira hesitou.

— Senhor, a política do hospital exige—

— O sr. Booth tem minha autorização total — a voz de Jamie veio de trás de mim. Ele surgira na porta, parecendo consideravelmente mais profissional do que no dia anterior. — Dadas as circunstâncias, podemos abrir uma exceção.

Assinei os formulários com traços rápidos e eficientes.

Quatro horas depois, quando finalmente levaram Dayna para fora do centro cirúrgico, os olhos dela estavam cobertos por uma máscara médica branca. Quando a acomodaram de volta no quarto, observei suas mãos subirem, hesitantes, e levantarem com cuidado a borda da máscara, afastando-a do rosto.

— Eu consigo ver luz! — ela sussurrou, a voz cheia de encanto.

Foi a primeira vez que vi os olhos dela abertos — realmente abertos, não apenas o olhar vazio da cegueira. Mesmo com a visão ainda prejudicada, seus olhos eram impressionantes. Verde-esmeralda, embora naquele momento turvos e sem foco.

Me peguei imaginando como ficariam quando ela voltasse a enxergar com clareza. Devia ser lindo.

E o pensamento... não era desagradável.

— Tenho um presente para você — eu disse.

— Um presente? — Ela virou o rosto na minha direção, confusa.

— Nós vamos ao cartório. Para oficializar o nosso acordo.

O rosto dela corou.

— Já? Mas eu... eu não preparei nada. Eu não tenho nada para vestir, e—

Ela parecia um cervo assustado, só nervosismo e pânico genuíno. Tão diferente das respostas calculadas às quais eu estava acostumado das mulheres do círculo social de Bayville.

— Jamie — chamei. — Por favor, peça para uma enfermeira ajudar a srta. Melgar a se trocar e providencie roupas apropriadas.

Depois que eles saíram, Parker apareceu ao meu lado.

— Sr. Booth, o senhor tem certeza disso? De casar com ela de verdade?

— Os desejos da minha avó não são negociáveis — respondi. — Se uma certidão de casamento vai deixar ela em paz, então é isso que vou fazer.

O que eu não disse foi que, se Dayna se mostrar igual às outras, o pré-nupcial vai garantir que ela vá embora sem nada.

Mas, mesmo enquanto eu pensava isso, não pude negar uma certa curiosidade por essa garota. Por que uma mulher salvaria um estranho sem pensar nela mesma e insistiria em tratar centenas de milhares de dólares como um empréstimo?

— Sr. Booth? — a voz de Parker me puxou de volta. — Ela está pronta.

Virei-me.

Dayna estava na porta, usando um vestido simples, azul-claro, que de algum jeito a fazia parecer ao mesmo tempo mais jovem e mais elegante. Os olhos estavam escondidos atrás de óculos escuros, e as mãos se torciam nervosas à sua frente.

Por um instante, eu me esqueci de respirar.

— Eu... está bom assim? — perguntou ela, a voz baixa e insegura. — A enfermeira disse que era adequado, mas eu não consigo ver—

— Está bom. — Pigarreei. — Vamos.

Enquanto Parker a ajudava em direção ao elevador, me peguei observando seu perfil.

Um leve sorriso puxou meus lábios. Talvez esse casamento não fosse ser tão ruim assim.

No mínimo, eu teria alguém como ela por perto — uma garota ingênua que deixava todos os pensamentos estampados no rosto.

Só se ela não estivesse fingindo.

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