Capítulo 5 Esposa contratada

Ponto de vista de Dayna

O fórum cheirava a papel velho e cera de chão quando o Sr. Booth me guiou até o que eu presumi ser o balcão de registro.

“Que dia especial!” A voz alegre da atendente me fez dar um leve pulo. “O casamento é uma coisa tão linda, não é?”

O calor subiu às minhas bochechas. Linda? Se ao menos ela soubesse que este casamento era puramente prático.

“Gostaria de tirar uma foto?”, a atendente continuou.

Senti a mão do Sr. Booth enrijecer um pouco sob a minha. Ele provavelmente achava desnecessário, só mais uma formalidade para aguentar.

“Na verdade”, falei depressa, “eu gostaria. Se... se o senhor achar tudo bem, Sr. Booth.”

Houve uma pausa. Eu desejava desesperadamente conseguir ver a expressão dele.

“Por quê?” A voz dele era neutra, não entregava nada.

Entrelacei os dedos, torcendo as mãos. “Eu não consigo me ver agora. Mas quando meus olhos melhorarem, eu gostaria de olhar para trás e lembrar como eu era no dia do meu casamento. Mesmo que isso não seja um casamento de verdade, ainda é importante pra mim.”

Outra pausa. Então:

“Tudo bem.”

O fotógrafo nos posicionou, e senti a mão do Sr. Booth pousar de leve na minha lombar. O toque me provocou um arrepio inesperado.

“Tente abrir os olhos pra foto”, ele disse baixinho.

Pisquei, forçando meus olhos em recuperação a se abrirem apesar do desconforto. A luz invadiu — borrada e sem foco, mas ali. Por um instante, achei que conseguia distinguir a sombra do rosto do Sr. Booth ao meu lado, e meu coração deu uma viradinha estranha.

A câmera disparou.

“Lindo!”, exclamou a atendente. “A certidão vai ficar pronta em só um instante.”

Depois que assinamos os papéis — o Sr. Booth guiando minha mão até o lugar certo em cada formulário — ele pressionou algo frio e retangular na minha palma.

“Um presente de casamento”, ele disse, simples.

Passei os dedos pela superfície lisa de vidro, reconhecendo o formato na hora. “Um celular?”

“Seu antigo foi danificado ontem à noite. Um carro passou por cima depois que você deixou cair.”

A culpa se retorceu no meu estômago. Claro que foi. Eu tinha sido tão descuidada, cambaleando pela rua daquele jeito.

“É o iPhone mais recente”, ele continuou. “Eu já transferi seu chip e me coloquei como seu contato de emergência. Se precisar de algo urgente, é só usar comando de voz pra ligar.”

Apertei o telefone contra o peito, tomada pela emoção. “Sr. Booth, o senhor é mesmo... o senhor é bom demais comigo. Eu prometo que não vou atrapalhar. Eu vou—”

“Eu preciso voltar ao escritório”, ele interrompeu, embora não fosse com grosseria. “Há assuntos urgentes que exigem minha atenção. Vou pedir para o Parker levá-la até meu apartamento.”

As palavras fizeram meu coração disparar. “Seu apartamento? Mas eu não poderia—”

“Então você tem um lugar para ficar?”

Verdade. Balancei a cabeça, negando.

“Agora somos casados”, ele continuou. “É perfeitamente razoável que uma esposa more no apartamento do marido.”

Meu rosto queimou. “Então vai ser seu apartamento”, eu disse devagar. “Vá cuidar das coisas no escritório. Eu vou ficar bem sozinha, sério.”

“Você não vai ficar sozinha.” A voz dele trazia aquela ponta de comando que eu começava a reconhecer. “Eu providenciei para que uma governanta fique no apartamento e ajude você com o que precisar.”

Ele tinha contratado alguém para cuidar de mim. A consideração me fez os olhos arderem com lágrimas que eu não deixei cair.

“Agora vá”, continuou o Sr. Booth. “Eu a vejo hoje à noite.”

E ele se foi.

Parker me ajudou a entrar no carro. Mordi o lábio, juntando coragem. “Parker, você poderia me fazer um favor? Poderia dizer uma coisa ao Sr. Booth por mim?”

“Claro.”

“Diga a ele que, assim que meus olhos estiverem curados e eu puder enxergar de novo, eu aceito o divórcio. Eu não vou me agarrar a ele nem causar problema. Eu prometo.”

O carro deu uma leve guinada. “Srta. Melgar—”

“Eu sei que esse casamento é só para ele poder pagar minhas despesas médicas sem ficar estranho”, disparei. “Eu entendo isso. E sou grata, de verdade. Mas eu não quero que ele pense que eu sou uma daquelas mulheres que tentam prender um homem bem-sucedido.”

Parker fez um som estranho, quase como uma risada contida. “Você é uma figura, sabia? A maioria das mulheres pularia na chance de—” Ele parou de repente.

“Pular na chance de quê?”

“De... de casar com dinheiro. Sabe, tipo essas interesseiras que vão atrás de caras ricos.”

Algo no tom dele me fez hesitar. “O Sr. Booth é rico?”

O silêncio se estendeu tempo demais.

“Parker?”

“Não, não”, ele disse depressa. “Eu só estava, sabe, falando hipoteticamente. Dando um exemplo.”

“Ah.” Eu me recostei, aliviada. Claro que o Sr. Booth não era super-rico. Gente rica não se casava com desconhecidas cegas por obrigação. Provavelmente tinham advogados, contratos pré-nupciais e um monte de coisas complicadas para proteger o dinheiro.

Lakeside Heights acabou sendo um prédio de apartamentos de altura mediana, com o que parecia ser uma fonte agradável no saguão. Parker me conduziu até o elevador e subimos até o que ele disse ser o décimo quinto andar.

— Sra. Bertish? — ele chamou quando entramos no apartamento.

— Aqui! — respondeu uma voz calorosa, maternal. — Você deve ser a Dayna. Eu sou Suzanne Bertish, mas, por favor, pode me chamar só de Suzanne.

A mão dela apertou a minha — macia, com a leve aspereza de alguém que trabalhava com as próprias mãos. Gostei dela na mesma hora.

— O apartamento tem três quartos — explicou Suzanne, enquanto me conduzia para dentro. — A suíte principal fica no fim do corredor. E há dois quartos de hóspedes, um de cada lado.

— Eu fico em um dos quartos de hóspedes — falei depressa. — Não quero atrapalhar o espaço do Sr. Booth.

— Tem certeza, querida? Como esposa dele…

— Tenho certeza. — A ideia de dormir no quarto do Sr. Booth fez meu rosto queimar. — Sério.

Suzanne me ajudou a tirar o vestido azul-claro e vestir uma camisola macia de algodão. Ela me guiou até a cama do que disse ser o quarto de hóspedes do lado leste.

— Descanse agora — disse com gentileza. — Você teve um dia e tanto.

Eu mal tinha me ajeitado nos travesseiros quando meu celular novo tocou. O barulho repentino me fez dar um pulo.

— Alô?

— Até que enfim! Você tem noção de quantas vezes eu tentei te ligar? — A voz de Taissa vinha afiada de raiva. — Fugir no meio da noite como se fosse algum tipo de criminosa… o que você tinha na cabeça?

— Meu celular quebrou…

— Não me venha com desculpas! Seu pai resolveu tudo enquanto você estava por aí passeando. Seu noivo veio visitar hoje de manhã.

— Noivo?

— Nathan — continuou Taissa, com a voz escorrendo uma doçura falsa. — Ele está muito ansioso para te conhecer. Um homem tão generoso, disposto a ignorar as suas… dificuldades. Você devia agradecer por alguém ainda querer você.

Ao fundo, ouvi a voz oleosa de Nathan.

— É a minha noivinha? Diz pra ela que eu mal posso esperar pra cuidar dela.

O jeito como ele disse “cuidar” fez minha pele arrepiar.

— Eu não vou casar com ele — falei, com a voz tremendo, mas firme. — E eu não vou voltar.

— Sua ingratazinha…

— Eu já sou casada. — As palavras saíram mais fortes do que eu me sentia. — Foi hoje. Então seus planos com o Nathan? Não vão dar certo.

Desliguei antes que ela pudesse responder, com as mãos tremendo tanto que quase deixei o celular cair.

Aí as lágrimas vieram — quentes e amargas. Enterrei o rosto no travesseiro, tentando abafar os soluços. Doía tudo: meus olhos, meu coração, o lugar onde deveria existir o amor de uma família.

O celular tocou de novo, e eu desliguei na mesma hora. Mas não me senti aliviada. E se ela continuasse ligando?

— Suzanne! — chamei, com a voz falhando. — Suzanne, por favor!

Ela apareceu na porta.

— O que foi, querida?

— Meu celular. Tem alguns números que eu preciso bloquear. Meus pais e meu irmão Aaron. Você pode me ajudar? Por favor?

— Claro. — Ela pegou o aparelho com cuidado. — Você estava chorando? Seus olhos…

— É só a cirurgia — menti, forçando uma alegria na voz. — O médico disse que iam ficar doloridos por um tempo.

Ela não insistiu.

— Vou bloquear esses números para você. Descanse agora.

Depois que ela saiu, fiquei ali no silêncio, tentando acalmar meu coração disparado.

O celular tocou de novo. Taissa tinha mandado o Nathan me ligar? Mas… e se fosse o Sr. Booth?

— Alô? — tentei soar dura, pronta para dizer a Taissa que me deixasse em paz.

— Dayna?

A voz familiar da minha melhor amiga quase me fez chorar de novo — mas dessa vez de alívio.

— Katie! Ainda bem que eu ouvi a sua voz.

— Onde você se meteu? Eu devo ter ligado umas doze vezes. Só caía direto na caixa postal.

— É uma história longa — falei, enxugando os olhos. — Mas eu estou bem agora. E você, como está?

— Preocupada com você, principalmente. Escuta, eu fui na secretaria explicar por que você não foi à orientação — disse Katie. — Eles disseram que entendem a emergência médica, mas tem um problema com a sua bolsa.

Meu estômago afundou.

— Que tipo de problema?

— Eles precisam de documentação oficial para adiar a sua matrícula. E tem que ser entregue por um membro da família. Tem que ser até o fim de hoje, senão vão ter que passar a bolsa para outra pessoa.

— Um membro da família? — Minha mente correu. Não tinha como eu pedir ajuda ao Maxtime ou à Taissa. Eles provavelmente recusariam só por despeito. Quem eu posso… Espera! — Um marido serve?

Silêncio.

— Katie?

— Um marido? — ela perguntou com cuidado. — Desde quando você é casada?

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