Capítulo 6 Um Salto de Fé
Ponto de vista de Dayna
“Esta tarde”, eu disse, com a voz mal acima de um sussurro.
“Quem é esse cara?” A voz de Katie subiu uma oitava. “Há quanto tempo você conhece ele? Ele te trata bem? Ele é—”
“Katie, respira”, interrompi, embora meu próprio coração estivesse disparado. “Eu sei que parece loucura.”
“Loucura? ‘Loucura’ nem chega perto de descrever!” Eu a ouvia andando de um lado para o outro do outro lado da linha. “Me conta como isso aconteceu.”
Puxei o ar bem fundo e contei a ela tudo. Quando terminei, Katie voltou a ficar em silêncio.
“Então deixa eu ver se entendi”, ela disse por fim. “Você se casou com um cara cujo nome você nem sabe?”
O calor subiu para as minhas bochechas. Soava ainda mais absurdo quando ela dizia em voz alta. “Eu sei que o nome dele é Sr. Booth—”
“Sei. E qual é o primeiro nome dele?”
Mordi o lábio. “Eu... eu não sei.”
“Meu Deus.” A voz de Katie ficou entre o horror e a incredulidade. “Como ele é? Quantos anos ele tem? Você sabe ao menos alguma coisa sobre esse homem?”
Cada pergunta parecia uma pequena faca. Porque a verdade era que eu não sabia nada. Eu tinha me casado com um completo estranho. Um estranho gentil que estava pagando a minha cirurgia e me dando um lugar para ficar, mas ainda assim, um estranho.
“Ele parece jovem”, arrisquei, sem convicção. “E ele cheira bem. Tipo sândalo.”
“Ele cheira bem”, Katie repetiu, seca. “Ótimo. Essa com certeza é a qualificação mais importante para um marido.”
“Katie—”
“Desculpa.” Ela suspirou. “É que eu estou preocupada com você.”
“Eu sei.” Torci os dedos no tecido macio da minha camisola. “Mas ele está pagando a minha cirurgia, Katie.”
“Espera aí, de onde ele tirou trezentos mil?” A voz de Katie ficou mais afiada.
“Eu acho que ele é algum tipo de gerente”, eu disse. “E ele tem pessoas que trabalham para ele. O Parker o chama de ‘Sr. Booth’, então imagino que ele deva ter um cargo bom. Talvez ele tenha juntado ao longo dos anos?”
Outra pausa. Então a voz de Katie veio, mais suave dessa vez. “Querida, gerentes de departamento não têm simplesmente trezentos mil dólares sobrando por aí.”
Meu estômago se contraiu. “O que você está dizendo?”
“Estou dizendo que o seu ‘Sr. Booth’ pode ser mais importante do que você imagina.”
Deixei isso assentar. Será que ele poderia ser? Mas se ele fosse mesmo rico, por que se daria ao trabalho com alguém como eu? Por que se casaria com uma garota cega, sem nada a oferecer?
“Pelo menos ele está te ajudando”, Katie disse, e eu ouvi o alívio na voz dela. “E ele parece um cara rico.”
As palavras dela apertaram a minha garganta. Lembrei de alguns dias atrás, quando Katie tinha se oferecido para pedir ajuda aos pais dela com o meu problema nos olhos. Eu recusara na hora. Katie não entendia como meus pais eram — eles nunca gastariam o dinheiro com a minha cirurgia. O presente de Martha tinha provado isso.
“Eu não preciso me casar com alguém rico”, eu disse, baixo. “Eu só quero viver uma vida decente. Estudar, arrumar um emprego, ser independente. Só isso.”
“Eu sei.” A voz de Katie se aqueceu. “Mas, mesmo assim, eu quero te ver. Eu preciso conhecer esse seu marido misterioso e ter certeza de que ele está te tratando direito.”
“Por quê?”
“Porque no fundo você é uma romântica incurável, por isso. Você pode achar que está sendo prática, mas eu te conheço, Dayna. Se esse cara acabar tendo uma cara de sapo, você vai ficar miserável.”
“Katie—”
“Estou falando sério! Você sempre foi do tipo que cai por grandes gestos e contos de fadas. Nem tenta negar.”
“Mesmo que ele não seja... convencionalmente atraente”, eu disse com cuidado, “não ia importar. Eu ainda seria feliz.”
“Ah, é?”
“Ele tem sido tão bondoso comigo, Katie.” As palavras escaparam antes que eu conseguisse impedir. “Tão paciente e generoso. Ele não precisava fazer nada disso. Ele poderia simplesmente ter pagado a cirurgia e me deixado no hospital. Mas ele se casou comigo para não parecer estranho. Ele me deu um telefone, providenciou uma empregada e me deu um lugar para ficar. Mesmo que ele seja completamente comum, eu seria grata. Eu passaria a vida inteira com ele só para retribuir essa bondade.”
O silêncio que veio em seguida pareceu pesado de coisas não ditas.
“Você gosta mesmo dele, não gosta?” Katie disse por fim, com a voz suave.
Será que eu sabia? Eu mal o conhecia. Mas, quando pensava na presença firme dele ao meu lado...
— Eu o respeito — eu disse. — E sou grata.
— Certo. — Katie não pareceu totalmente convencida. — Mas com certeza vou arrumar tempo para ir dar uma olhada nele. Agora, sobre a sua bolsa de estudos: você precisa levar seu marido ao escritório de registros o mais rápido possível.
— Vou ligar para ele agora mesmo.
— Ótimo. E, Dayna? Fico muito feliz que você esteja bem. Você me assustou, sumindo daquele jeito.
— Desculpa. Eu devia ter dado um jeito de entrar em contato com você antes.
— Só me promete que vai tomar cuidado.
— Eu prometo.
Depois que nos despedimos, fiquei deitada ali por um momento, juntando coragem. Então ergui o telefone e falei com clareza:
— Ligar para contato de emergência.
A chamada tocou duas vezes antes de a voz familiar dele atender.
— Aconteceu alguma coisa?
Só de ouvi-lo, senti meus ombros relaxarem um pouco.
— Sr. Booth, eu... desculpe incomodá-lo no trabalho. Eu sei que o senhor disse que tinha coisas importantes para resolver...
— O que você precisa?
Falei devagar.
— É sobre a faculdade. O escritório de registros da Hudson Business School está disposto a manter minha vaga e minha bolsa, mas eles precisam que um familiar vá até lá e assine alguns documentos de adiamento. Isso precisa ser feito até o fim do dia de hoje.
Fiz uma pausa, torcendo o cobertor entre os dedos.
— Eu estava pensando... já que somos casados agora... o senhor poderia... talvez pudesse ir até a faculdade e assinar os papéis? Como meu marido?
A resposta dele veio sem hesitação.
— Claro.
O alívio me inundou.
— Sério? Tem certeza? Eu sei que estou pedindo demais...
— Dayna. — A voz dele carregava de novo aquele tom de comando. — Eu disse que cuidaria de você. Isso inclui a sua educação.
— É que eu tenho me esforçado tanto para manter a minha bolsa. — As palavras saíram trêmulas. — A educação é a única forma de eu conseguir me sustentar sozinha. Eu não posso perder essa chance.
A linha ficou em silêncio. Então, suavemente:
— Você não vai.
A simplicidade daquela afirmação fez meus olhos arderem. Pisquei rápido, tentando conter as lágrimas.
— Vou cuidar disso — continuou o Sr. Booth. — Me passe os detalhes.
Despejei todas as informações que Katie tinha me dado. Ele ouviu sem interromper, e eu conseguia escutar o som de teclas ao fundo.
— Considere resolvido — disse ele, quando terminei.
— Obrigada. — Minha voz saiu vacilante. — Desculpe dar tanto trabalho. Primeiro a cirurgia, agora isso...
— Isso não é trabalho. — Ele pareceu quase... divertido? — Vá descansar agora. Eu cuido de tudo.
A ligação terminou, e eu me recostei nos travesseiros, com a mente girando. Ele ia à minha faculdade. Falar com o escritório de registros. Assinar papéis como meu marido.
O que será que pensariam quando o vissem? Será que desconfiariam? Será que questionariam por que ele se casou com uma estudante bolsista cega? E se achassem que eu estava tentando aplicar algum golpe?
Devo ter cochilado, porque, na vez seguinte em que me dei conta, Suzanne estava sacudindo meu ombro com delicadeza.
— Dayna, querida. O jantar está pronto.
Sentei devagar, com o corpo rígido de ficar deitada na mesma posição por tempo demais.
— Obrigada, Suzanne. O Sr. Booth já voltou...?
— O Sr. Booth teve alguns assuntos para resolver — disse Suzanne, ajudando-me a ficar de pé. — Ele volta mais tarde.
Suzanne me guiou até o que ela disse ser a sala de jantar. A cadeira era macia sob mim, e o cheiro da comida fez meu estômago roncar.
— Frango assado com legumes — explicou Suzanne, colocando os talheres nas minhas mãos. — E pão fresco. Você consegue comer sozinha ou quer ajuda?
— Eu consigo. Obrigada.
Ela me deixou sozinha, e eu comi devagar, tentando me concentrar na comida. Mas minha mente continuava vagando. O Sr. Booth foi mesmo à minha faculdade? Ele assinou os papéis? E se houvesse algum problema? E se o funcionário do registro fizesse perguntas demais?
Pousei o garfo, de repente sem apetite algum. Tudo aquilo era tão complicado. E eu só continuava piorando a confusão, continuava pedindo mais ajuda, continuava sendo um fardo...
O som de uma chave na fechadura me fez congelar.
— Deve ser o Sr. Booth — disse Suzanne baixinho, de algum lugar atrás de mim.
Meu coração começou a disparar.
