Capítulo 7 Você está sangrando

Ponto de vista de Bradley

A chave girou na fechadura, e eu empurrei a porta do apartamento que eu tinha comprado hoje de manhã. O cheiro de frango assado me atingiu na hora — quente, acolhedor, completamente estranho para a minha existência habitual.

— Esse deve ser o Sr. Booth — a voz de Suzanne veio da sala de jantar.

Entrei e deixei as sacolas de compras no chão, fechando a porta atrás de mim.

Então eu a vi.

Dayna estava sentada à mesa de jantar, garfo na mão, a cabeça inclinada como se escutasse minha aproximação. A camisola branca caía folgada no corpo pequeno dela, o decote revelando as clavículas. Mesmo com os óculos escuros escondendo os olhos, ela parecia...

Engoli em seco, a garganta de repente árida.

Se controla, eu disse a mim mesmo, áspero. É só uma garota de camisola. Você já viu muitas mulheres com bem menos.

— Sr. Booth! — A voz de Dayna me arrancou dos pensamentos; as mãos dela tremularam, nervosas, alisando a camisola. — O senhor voltou. Deu tudo certo? O pessoal do registro implicou com o senhor?

— Está resolvido — eu disse, indo até a mesa. Suzanne já tinha posto um lugar para mim. — Sua vaga e sua bolsa estão garantidas.

— Sério? — O rosto dela se iluminou de alívio. — Muito obrigada. Eu sei que o senhor tinha trabalho importante para fazer, e eu interrompi...

— Dayna. — Eu a cortei, puxando a cadeira. — Pare de pedir desculpas.

Ela mordeu o lábio, um gesto que eu começava a reconhecer como o sinal dela quando ficava nervosa.

— Eu só não quero te dar trabalho.

Trabalho. Você já me deu trabalho demais.

A ligação de hoje de manhã com Martha voltou inteira à minha cabeça. Eu mal tinha terminado de informar que ia me casar com Dayna quando ela disparou as exigências.

“Traga ela para casa”, Martha insistiu. “Para a propriedade dos Booth. Ela precisa de cuidados de verdade, Brad.”

“Ela está bem onde está.” Eu me atrapalhei procurando desculpas. “Eu ainda não contei a ela quem eu realmente sou.”

“Como assim você não contou?”

“Ela acha que eu sou gerente de alguma empresa. Se eu, de repente, levar ela para a propriedade, ela vai descobrir a verdade. Ela pode...” Eu fiz uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. “Ela pode se sentir sobrecarregada. Pressionada. Pode recusar a minha ajuda por completo.”

Não era exatamente mentira. Dayna realmente parecia desconfortável em aceitar ajuda. Mas o verdadeiro motivo de eu ter recusado a exigência de Martha pesava como uma pedra no meu peito.

E se isso tudo for atuação? E se ela souber exatamente quem eu sou, e essa rotina inocente for só parte do plano dela?

Martha ficou em silêncio por um longo momento. Então cedeu. “Tudo bem. Mas você não vai deixá-la em um prédio de apartamentos qualquer. Compre um lugar. More com ela. Cuide dela você mesmo.”

“Martha—”

“Eu estou falando sério, Bradley. Aquela garota salvou a minha vida. O mínimo que você pode fazer é garantir que ela seja cuidada direito. A menos que você queira que eu faça isso pessoalmente.”

A ameaça era clara.

Então eu concordei. Parker fez milagre, comprando este apartamento em Lakeside Heights em menos de uma hora. Perto da Hudson Business School para quando Dayna começasse as aulas. Perto do meu escritório também, embora eu jamais admitisse que isso contou na minha decisão.

Eu fui específico sobre as adaptações — tirar móveis demais que ela pudesse esbarrar, instalar proteção macia no banheiro e garantir que o layout fosse simples o suficiente para ela se orientar estando cega. Parker me olhou estranho quando eu fui despejando a lista, mas ele deu um jeito.

Quando ele ligou hoje à tarde para confirmar a chegada de Dayna, eu estava no meio de uma reunião do conselho.

— A Sra. Booth está se acomodando muito bem, senhor — Parker informou.

— Srta. Melgar — eu enfatizei. — Ela ainda não é uma Booth. Garanta que todos entendam isso.

— Sim, senhor. Mais alguma coisa?

— Sim — eu disse, baixando a voz. — Preciso que você investigue uma coisa. Aqueles escombros que quase atingiram Martha… descubra qual equipe de construção estava trabalhando naquele prédio e se alguém pagou para eles “acidentalmente” deixarem cair material.

— Vou verificar isso imediatamente.

Eu mal tinha voltado para a reunião quando meu telefone vibrou de novo. Uma ligação de Dayna, pedindo desculpas mil vezes por me incomodar, perguntando se eu poderia ajudar com a papelada da bolsa.

Os membros do conselho me observaram com uma curiosidade mal disfarçada enquanto eu pegava o paletó e saía no meio da apresentação. Eu nunca tinha feito aquilo antes. Não por ninguém.

O cartório acadêmico foi pior do que eu esperava. A mulher no balcão ficou desconfiada desde o início.

— Bradley Booth? O senhor é o marido da Srta. Melgar? Ela nunca mencionou estar casada quando se inscreveu.

— É recente — eu disse, seco. — Agora, sobre os papéis de adiamento—

— Temos recebido ligações dos pais dela — ela interrompeu, a expressão se endurecendo. — Bem agressivos. Eles dizem que vão “trazê-la de volta para casa” e mencionaram um acordo de casamento com um tal de Sr. Nathan Mitchell.

Minhas mãos se fecharam em punhos. “Dayna não vai a lugar nenhum com os pais dela. E com certeza não vai se casar com mais ninguém. Ela é minha esposa.”

Ela me estudou e então assentiu devagar. “Ótimo. Aquela pobre garota merece coisa melhor.”

Sim. Ela merecia coisa melhor. Melhor do que pais que tinham tentado mandá-la embora.

Mas eu era melhor do que os pais dela? Pelo menos eles eram honestos quanto às intenões mercenárias.

Saí de lá com tudo acertado, mas a conversa deixou um gosto amargo. No caminho de volta, passei por um supermercado vinte e quatro horas e acabei entrando.

Dayna ia precisar de coisas. Os suprimentos no apartamento recém-comprado ainda não estavam completos. Caminhei pelo corredor de higiene feminina me sentindo completamente fora do meu elemento, pegando tudo que parecia minimamente útil. Xampu, condicionador, sabonete líquido, loções, absorventes de todo tipo. Eu não sabia do que ela ia gostar, então peguei um de cada.

A caixa ergueu uma sobrancelha para o meu carrinho transbordando, e eu encarei até ela parar de olhar.

Todo esse trabalho por causa da Dayna.

Mas agora, sentado de frente para ela à mesa de jantar, vendo como ela estava tão comportada, me peguei pensando que não era trabalho nenhum.

A constatação me irritou. Quando foi que eu comecei a ir tão longe por uma mulher e fingir que não era nada? O que há de errado comigo?

Afastei o pensamento à força. “O frango está delicioso”, eu disse a Suzanne, que se iluminou com o elogio.

“Obrigada, sr. Booth. Quer mais legumes?”

Assenti, e ela colocou mais no meu prato. Dayna ficou em silêncio, comendo em pequenas mordidas, a postura perfeita apesar de não conseguir enxergar.

Eu me peguei observando-a — a curva graciosa do pescoço, o jeito como ela lidava com o prato com movimentos cuidadosos.

Então notei outra coisa. Uma pequena mancha escura estava se espalhando pelo tecido branco da camisola dela.

Meu cérebro travou quando percebi o que eu estava vendo.

Sangue.

Ela estava sangrando.

E, pelo lugar da mancha…

Ah.

O calor subiu ao meu rosto. Desviei o olhar depressa, a mente disparada. Eu devia dizer alguma coisa? Como é que se toca num assunto desses? Isso com certeza não foi abordado em nenhuma disciplina que eu já tivesse cursado.

“Dayna”, eu disse, e minha voz saiu áspera.

Ela ergueu o rosto, virando-o na minha direção. “Sim?”

Como diabos eu ia formular isso?

“Você… você precisa… tem…” Limpei a garganta. “É melhor você trocar a sua camisola.”

A testa dela se franziu, confusa. “Eu derramei alguma coisa?”

“Não. É só que… você…” Fiz um gesto inútil, e então me dei conta de que ela não podia ver o gesto. “Você está sangrando.”

A confusão no rosto dela se transformou em horror quando a compreensão chegou. As mãos voaram para o colo e, mesmo na luz fraca, eu vi o rosto dela ficar escarlate.

“Meu Deus”, ela sussurrou. “Eu não… me desculpa. Eu devia ter—” A voz falhou um pouco. “Eu já te dei tanto trabalho, e agora isso—”

“Dayna, está tudo bem—”

“Não está tudo bem! Seus móveis — a cadeira—”

“Suzanne”, eu disse, cortando as desculpas cada vez mais frenéticas de Dayna. “Você pode ajudar a srta. Melgar a se trocar? Eu comprei alguns itens mais cedo — deve ter o que ela precisa nas sacolas.”

“Claro, senhor.” Suzanne foi até o lado de Dayna, pegando o braço dela com delicadeza. “Vamos, querida. Vamos cuidar disso.”

Dayna se levantou trêmula, o rosto ainda em brasa de vergonha. “Me desculpa, sr. Booth. Eu não quis—”

“Pare de pedir desculpas”, eu disse, mais gentil do que pretendia. “Acontece.”

Ela assentiu, mas ainda parecia mortificada enquanto Suzanne a conduzia para longe.

Fiquei sozinho à mesa, ouvindo os passos delas se afastarem. Então meu celular tocou.

Parker.

“Senhor, tenho as informações que o senhor pediu.” A voz dele estava sombria. “A equipe de construção que trabalhava naquele prédio foi contratada por meio de um subempreiteiro. Eu rastreei os pagamentos. Vieram de uma conta ligada à Renata.”

Meu maxilar se contraiu. Renata. A filha adotiva da família Sullivan, uma das dinastias mais ricas de Bayville. Tinham acolhido ela anos atrás, supostamente porque ela se parecia com a filha desaparecida deles. “Continue.”

“Ao que parece, a Renata mandou eles ‘perderem o controle’ de alguns materiais num horário específico.”

A raiva, fria e cortante, me atravessou. Renata tinha tentado matar minha avó. E quase conseguiu.

“Aumente a pressão sobre a família Sullivan nas negociações atuais”, eu disse, numa calma mortal. “Quero que eles sintam. E, Parker?”

“Sim, senhor?”

“Continue investigando a srta. Melgar. Eu preciso saber se existe alguma ligação entre ela e a Renata.”

“Entendido, senhor.”

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