Capítulo 8 Erro de julgamento e equiparação
Ponto de vista de Dayna
Com a ajuda de Suzanne, troquei de roupa, vesti uma camisola limpa e voltei para a sala de jantar. Meus olhos ainda não tinham se recuperado totalmente, mas eu já conseguia distinguir formas e sombras borradas — o suficiente para ver a silhueta alta do Sr. Booth ainda sentado à mesa.
Ouvi o tilintar dos talheres — ele ainda estava comendo, como se nada tivesse acontecido. Como se eu não tivesse acabado de me humilhar completamente.
— Sr. Booth, eu... — Minha voz saiu baixa, insegura. — Sinto muito pelo que aconteceu mais cedo. Se eu estraguei seus móveis ou causei algum transtorno...
— Dayna. — A voz dele cortou meu pedido de desculpas, afiada e fria. — Eu mandei você parar de se desculpar.
Mordi o lábio, ficando em silêncio. Por que ele parecia tão irritado? Era por causa do meu incidente vergonhoso?
Se ele estava incomodado com a minha presença aqui, com o incômodo que eu tinha causado... eu precisava saber qual era a minha posição. Engoli em seco, juntando coragem.
— Sr. Booth — comecei com cuidado —, o senhor... quer dizer, esta noite, o senhor pretende dormir aqui?
— Eu não durmo na minha própria casa; onde eu dormiria? — O tom dele era glacial.
Claro. Que pergunta idiota.
Mordi o lábio com mais força, sentindo gosto de metal. — Eu não quis dizer... Eu só pensei que talvez o senhor tivesse outro lugar, ou...
Ouvi a cadeira dele raspar no chão. A forma borrada se levantou da mesa. Sem dizer mais nada, ele foi embora. Uma porta abriu e fechou — o quarto principal, imaginei.
Fiquei sentada, imóvel, no silêncio repentino. O que eu tinha feito de errado? Ele tinha sido tão gentil mais cedo, e agora mal parecia aguentar ficar no mesmo cômodo que eu.
— Eu... — Virei o rosto na direção em que eu achava que Suzanne estava. — Eu o aborreci de alguma forma?
— Ah, querida. — A mão de Suzanne deu um tapinha de leve no meu ombro. — Não acho que tenha sido você. O Sr. Booth teve um dia longo. Você sabe como esse pessoal corporativo é.
Pessoal corporativo. Certo. O Sr. Booth trabalhava para alguma empresa grande, não era? Talvez tivesse tido um dia ruim no escritório, e minhas perguntas sem jeito tivessem sido a gota d’água.
Mas havia outro pensamento me incomodando. Baixei a voz, inclinando-me mais para perto de Suzanne.
— Suzanne, posso te perguntar uma coisa? E por favor, seja sincera comigo.
— Claro, querida.
— O Sr. Booth... quer dizer, ele... — Como dizer isso com delicadeza? — Ele talvez não seja muito bonito? É por isso que ele parece tão... desconfortável perto de mim? Talvez ele tenha vergonha da própria aparência?
A pergunta ficou no ar por um instante, até Suzanne cair na gargalhada. — Meu Deus do céu — ela ofegou entre risadinhas. — Não, querida. Não, esse definitivamente não é o problema.
— Tem certeza? — insisti, sem me convencer. — Porque ele parece muito... distante. Como se não quisesse que eu o enxergasse com clareza.
— Confie em mim, Dayna. — A voz de Suzanne vinha quente de divertimento. — Quando seus olhos estiverem totalmente curados, você vai entender. A aparência do Sr. Booth definitivamente não é algo que alguém chamaria de problema.
Depois do jantar, eu me deitei no meu quarto, com os pensamentos rodopiando no escuro.
Menos de uma semana atrás, eu estava vivendo naquele apartamento caindo aos pedaços; agora eu estava num apartamento de luxo em Lakeside Heights, casada com um homem cujo primeiro nome eu nem sabia, me recuperando de uma cirurgia nos olhos que custou mais do que toda a minha bolsa de estudos.
Minha mão foi até o abdômen, onde as cólicas que normalmente acompanhavam minha menstruação estavam notavelmente ausentes. Nenhuma dor este mês.
Alimentação adequada. Menos estresse. Coisas que eu nunca tinha associado à minha vida antes.
Pensei no futuro. Eu voltaria para a Hudson Business School, me dedicaria aos estudos. Eu trabalharia mais do que todo mundo, tiraria notas excelentes e encontraria um bom emprego depois da formatura.
Então eu pagaria o Sr. Booth. Cada centavo que ele gastou comigo. Eu manteria registros cuidadosos e calcularia juros, se fosse necessário. Eu não ficaria devendo a ninguém.
Minha mente foi até o próprio Sr. Booth, tentando montar uma imagem a partir das impressões borradas que eu tinha reunido.
Ele era alto — eu tinha percebido isso na primeira vez que o vi. A silhueta sugeria ombros largos, uma presença imponente. Quando ele falava, a voz vinha de bem acima da minha altura.
O rosto dele continuava um mistério, mas eu tentei imaginá-lo. Provavelmente um maxilar quadrado, talvez uma sobrancelha pesada que o fazia parecer severo e inacessível. Lábios grossos comprimidos numa careta constante — isso explicaria a frieza na voz.
Nada bonito, decidi, sonolenta. Provavelmente bem comum, na verdade. O desconforto dele em me deixar enxergá-lo com clareza, a distância, e o jeito como ele desapareceu depressa no quarto — agora tudo fazia sentido.
Coitado do Sr. Booth, pensei enquanto o sono começava a me vencer. Ele tem sido tão gentil comigo, e provavelmente acha que eu vou me decepcionar quando finalmente conseguir vê-lo direito.
Eu faria questão de mostrar que isso não importava. Que eu era grata de qualquer jeito, independentemente da aparência dele.
A luz da manhã atravessou as cortinas, acordando-me com suavidade. Espreguicei-me sob as cobertas, saboreando o prazer simples de acordar sem medo.
Um sorrisinho puxou meus lábios ao me lembrar dos pensamentos da noite anterior.
Mesmo que o Sr. Booth pareça um sapo, eu ainda vou ser grata. Ele me salvou de uma vida de miséria. Que diferença faz se ele não é atraente nos padrões?
Ponto de vista de Martha
O sol da manhã entrava pelas janelas da minha sala de estar na propriedade dos Booth, enquanto eu me acomodava na minha poltrona favorita com o meu chá. Meu telefone tocou pontualmente às nove — Bradley.
— Vovó. — A voz dele veio seca. — Queria te atualizar sobre o incidente dos escombros.
— Você descobriu quem foi o responsável? — perguntei, sem me dar ao trabalho de trocar gentilezas.
— Renata Sullivan. — O nome gotejava desprezo. — Ela pagou a equipe da obra para “acidentalmente” derrubar materiais num horário específico. Eles confessaram tudo.
Senti um arrepio me atravessar apesar do sol quente. Aquela garota calculista morando na casa da Bonnie.
— Eu já comecei a pressionar os Sullivan — Bradley continuou. — Retirei todos os investimentos da Booth Tech das empresas deles.
— Bradley. — Mantive a voz suave, mas firme. — Os Sullivan são velhos amigos. Bonnie e eu nos conhecemos há décadas. Não seja duro demais.
— Duro demais? — o riso dele foi amargo. — Ela tentou te matar.
— A Renata tentou me matar. Não os Sullivan.
— É a mesma coisa.
— Não é, e você sabe disso. — Suspirei. — Jonas e Bonnie são pessoas decentes. Steven é um bom rapaz. Eles não têm culpa do que aquela garota se tornou.
— Tá bom. — Mas eu ouvia a teimosia no tom dele. — Eu tenho meus próprios arranjos.
O que significava que ele faria exatamente o que quisesse.
Nos despedimos, e eu mal tinha terminado meu chá quando meu mordomo apareceu à porta.
— Sra. Booth? Steven Sullivan está aqui para vê-la. Ele disse que é urgente.
Ah. Então os “arranjos” do Bradley já estavam surtindo efeito.
— Mande-o entrar.
Steven entrou com um ar exausto; sua aparência, normalmente impecável, estava amarrotada.
— Sra. Booth, eu soube do que aconteceu com a senhora. A senhora está bem?
Dei um gole no chá.
— Ainda estou aqui. Mas não é por isso que você veio, certo?
O tom dele mudou.
— Na verdade, não. Bradley retirou todos os investimentos das nossas empresas. As ações estão despencando. O que está acontecendo?
Eu o observei com atenção.
— Diga-me, Steven, como está sua mãe? Ouvi dizer que ela não tem passado bem.
Ele piscou, surpreso com a mudança de assunto.
— Ela... ela está descansando. Como sempre.
— Bom saber. — Fiz uma pausa calculada. — O problema, Steven, não é com a sua família. É com alguém dentro da sua casa.
— Eu não entendo.
— Sua irmã. — Deixei a palavra pairar no ar. — Ou devo dizer a jovem que sua mãe chama de sua irmã.
O rosto dele empalideceu.
— Sra. Booth, eu...
— Todos no nosso círculo sabem a verdade — eu disse, com gentileza, mas sem ceder. — Você perdeu sua irmã de verdade há muitos anos. E a garota que mora na sua casa agora, por acaso, se parece o bastante para que sua mãe, devastada pelo luto, tenha se convencido do contrário. Como irmão dela, você não acha que deveria investigar o que ela anda fazendo?
A mandíbula de Steven se contraiu.
— A senhora quer dizer...
— Exatamente. — Adocei o tom. — Lide com a Renata como deve ser, e eu falo com o Bradley sobre restabelecer nossas relações comerciais. Pela Bonnie.
Depois que Steven foi embora, peguei-me pensando nos traços dele — o formato dos olhos e a estrutura óssea elegante que ele herdara da mãe.
E então caiu a ficha.
Dayna.
Eu só a tinha visto de relance, mas me lembrava daqueles mesmos olhos verde-esmeralda e daquele maxilar delicado. Quanto mais eu pensava, mais eu tinha certeza.
Dayna era quase idêntica à Bonnie na juventude. Se ela realmente fosse a verdadeira filha dos Sullivan... bem, isso faria dela e do Bradley um par ainda mais perfeito, não faria?
Peguei o telefone.
— Sim, sou eu. Escute, eu preciso que você investigue uma coisa pra mim...
