Capítulo 1
Elara
A lua pairava cheia e pesada no céu noturno, derramando luz prateada sobre o jardim como uma bênção que eu não merecia. Vinte e um anos hoje. Vinte e um anos de treinamento, disciplina e uma crença inabalável de que eu estava destinada à grandeza. Vinte e um anos que culminaram neste quadro patético: eu, sozinha ao luar, encarando um bolo de chocolate torto que parecia ter sido montado por uma criança bêbada.
Eu mesma tinha feito. Óbvio. Não tinha mais ninguém para incomodar.
A ironia não me escapava. Três anos atrás, este jardim estava lotado, de um muro ao outro, de convidados para a comemoração do meu décimo oitavo aniversário. Todas as grandes alcateias tinham enviado representantes. Alfas se enfileiravam para prestar respeito, os olhos brilhando com a certeza de que estavam testemunhando o nascimento de algo extraordinário. Até o próprio Rei Alfa Aldric presidira a cerimônia, sua forma de lobo prateado e imensa irradiando poder enquanto me dava as boas-vindas à vida adulta.
E então... nada. Nenhuma mudança. Nenhuma transformação. Nenhuma loba surgindo para reivindicar seu lugar de direito no mundo.
A decepção no ambiente fora palpável, espessa o bastante para sufocar. Eu ainda conseguia ouvir os sussurros enquanto os convidados se dispersavam, as vozes atravessando os gramados impecáveis com uma clareza cruel. “Talvez ela só seja tardia.” “Bom, nem todo mundo pode ser prodígio.” “Quem sabe a linhagem Nightshade não seja tão forte quanto a gente pensava.”
Meu décimo nono aniversário fora menor. Mais silencioso. Menos convidados, mais olhares incisivos. Os comentários passaram de desapontados a compassivos. “Coitadinha.” “Que pena.” “Pelo menos ela ainda tem o status da família.”
Aos vinte, era só meus pais e um punhado de anciãos da alcateia que se sentiam obrigados a aparecer. Minha mãe — a guerreira feroz que lutara nas Guerras Primordiais, cuja forma de loba podia rasgar linhas inimigas como papel — chegou a dizer as palavras que eu nunca imaginei ouvir da boca dela: “Talvez ela não tenha nascido para mudar. Alguns lobos nascem sem o dom.”
Meu pai, um Beta cuja mente estratégica guiara nossa alcateia por incontáveis conflitos, foi ainda mais brutal na avaliação. “Três anos, Elara. Três luas cheias, e nada. Talvez a gente precise considerar a possibilidade de que houve algum... engano.”
A implicação pairou entre nós como gás venenoso. Não era a filha deles. Não podia ser. A grande linhagem Nightshade, maculada por uma criança que não conseguia nem dar conta do aspecto mais básico da nossa natureza.
E agora, vinte e um. Completamente sozinha, exceto por um bolo torto e minha autoestima em rápida deterioração.
A estátua da Deusa da Lua se erguia atrás de mim, seus traços de pedra serenos e imutáveis. Ela velara pela nossa alcateia por gerações, sua bênção supostamente correndo pela nossa linhagem como prata líquida. Agora, eu queria perguntar a ela que diabos ela tinha na cabeça.
Fechei os olhos, inclinando o rosto para a lua.
“Deusa da Lua”, sussurrei, ainda com os olhos bem fechados, como uma criança fazendo um pedido de aniversário. “Eu sei que você me deu tudo. Pais fortes. Uma linhagem prestigiosa. A disciplina e o treinamento que me fizeram a melhor lutadora da minha faixa etária — pelo menos até todo mundo conseguir mudar e eu não. Eu nunca enfrentei adversidade de verdade enquanto crescia. Eu era a criança de ouro, o prodígio prometido, o futuro da alcateia.”
Apertei os olhos com mais força, como se isso pudesse tornar minha prece mais convincente. “Mas não conseguir mudar... não é só vergonhoso. É existencial. É como ser um tigre sem dentes. Um dragão sem fogo. Então, por favor, eu estou implorando — me dê um sinal. Qualquer coisa. Só me mostre que eu não sou completamente—”
Uma luz ofuscante explodiu por trás das minhas pálpebras.
Meu fôlego travou. Puta merda. Isso estava mesmo acontecendo?
A Deusa da Lua realmente tinha—
“Que porra é essa?”
As palavras escaparam da minha boca quando ergui a mão para proteger os olhos do clarão repentino. Mas isso não era intervenção divina. Era uma maldita lanterna, forte pra caramba, apontada direto na minha cara.
“Ainda fazendo pedidos no seu aniversário, Elara Nightshade?”
A voz era familiar, pingando uma doçura falsa que mal escondia o veneno por baixo. Baixei a mão, semicerrando os olhos contra a luz, enquanto uma figura surgia das sombras na borda do jardim. Cabelo loiro captando o luar, arrumado em ondas perfeitas que provavelmente levavam uma hora para ficar assim. Roupas de grife que gritavam dinheiro e status. E aquele sorriso — aquele sorriso de merda que um dia fora genuíno, mas agora não passava de uma arma.
Cassidy Thornwood. Ex-melhor amiga. Dor de cabeça atual.
Ela era filha de um Ômega quando nos conhecemos, ainda crianças, e eu nunca liguei para a diferença de status. Éramos inseparáveis: treinávamos juntas, fofocávamos sobre a política da matilha, planejávamos nosso futuro com a certeza ingênua da juventude. Mas isso foi antes. Antes de eu falhar na transformação. Antes de ela se transformar numa loba tão bonita e poderosa que todo mundo imediatamente esqueceu que um dia ela fora considerada inferior. Antes de ela decidir que a nossa amizade era um peso que ela já não podia se dar ao luxo de carregar.
A traição doeu mais do que qualquer outra. Pelo menos a decepção dos meus pais fazia sentido. Mas a Cassidy? Ela me conhecia. Me conhecia de verdade. E, mesmo assim, escolheu se juntar ao coro de deboche.
— Apaga essa porra dessa luz, Cassidy — eu disse, com a voz baixa e perigosa. — É o meu aniversário. O mínimo que você podia fazer é não me cegar numa noite que já está se encaminhando para ser espetacularmente de merda.
Ela riu, mas abaixou a lanterna. Não por bondade — eu via nos olhos dela. Ela queria ver meu rosto com clareza quando desferisse o golpe que tinha vindo dar.
— Ah, não seja tão dramática — disse ela, aproximando-se da mesa onde estava a minha triste desculpa de bolo. Ela o avaliou com um divertimento mal disfarçado. — Na verdade, eu acho que o universo foi incrivelmente justo com você, considerando tudo. Você ganhou a família prestigiosa, a atenção pessoal do Rei Alfa desde criança, o melhor treinamento que o dinheiro podia comprar. Uma pequena... deficiência... parece uma troca razoável, não acha?
Minhas mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo. Três anos atrás, eu teria assumido minha forma de loba e mostrado exatamente o que eu achava da avaliação dela. Agora, tudo o que eu tinha eram palavras e as habilidades de luta que eu aperfeiçoei para compensar a minha metade ausente.
— Cuidado com a boca — eu disse, baixinho. — Aniversário ou não, eu ainda sou perfeitamente capaz de te arrebentar de um lado ao outro deste jardim.
— Calma, calma. — O sorriso de Cassidy se alargou, mas havia outra coisa na expressão dela agora. Algo que parecia quase... expectativa? — Mas eu não vim aqui para brigar com você, Elara. Sinceramente, eu tenho coisas melhores para fazer do que te ver apagar velas naquele desastre de bolo e fazer desejos que nunca vão se realizar.
Ela fez uma pausa, deixando as palavras afundarem como facas.
— Quer dizer, eu até poderia ficar e assistir. O resultado já é bem previsível a essa altura. Mas, por mais divertido que isso possa ser, eu estou aqui a serviço.
Alguma coisa no tom dela fez meu estômago despencar. A serviço. Isso significava assunto de matilha. Isso significava—
— O Rei Alfa precisa de você — Cassidy continuou, examinando as unhas perfeitamente feitas com uma casualidade ensaiada. — Ele está esperando no palácio. Agora.
Minha mente disparou, passando por possibilidades. O Rei Alfa Aldric não me convocava pessoalmente havia quase dois anos, não desde que ficou claro que eu não seria o prodígio que todos esperavam. Quando ele olhava para mim agora, era com a mesma polidez distante que reservava a qualquer outro membro da matilha — sem calor, sem reconhecimento da criança que ele um dia elogiara com tanta generosidade.
— O Rei Alfa? — repeti, odiando como minha voz soou incerta. — O que ele quer?
O sorriso de Cassidy ficou afiado como lâmina.
— Ah, eu não vou estragar a surpresa. Mas... — Ela olhou para o bolo e depois voltou a me encarar. — É melhor você comer um pedaço antes de ir. Confia em mim. Quando você ouvir o que ele tem a dizer, não vai ter muito apetite.
As palavras acertaram como um golpe físico. O que quer que estivesse me esperando no palácio, não era coisa boa. Eu via isso em cada linha do corpo de Cassidy, no jeito como ela parecia vibrar de alegria contida. Isso ia doer. Isso ia mudar tudo.
Mas eu seria amaldiçoada se deixasse ela ver meu medo.
— A única coisa que conseguiria acabar com o meu apetite — eu disse, forçando a voz a algo parecido com confiança — seria ter que olhar para a sua cara enquanto eu como. Então acho que vou passar o bolo por enquanto.
Passei por ela, indo em direção ao portão do jardim com passos longos e deliberados. Eu sentia os olhos dela nas minhas costas, percebia ela abrindo a boca para dizer mais alguma coisa — provavelmente alguma merda falsa de simpatia —, mas não dei a chance. O que quer que estivesse me esperando no palácio, eu encararia sem os comentários piedosos dela.
