Capítulo 4

Elara

A caminhada de volta aos meus aposentos pareceu um afogamento em câmera lenta. Minhas pernas se moviam mecanicamente, um pé à frente do outro, mas por dentro eu estava gritando. Não só porque meus sonhos de me tornar uma guerreira tinham sido arrancados de mim e substituídos por um vestido de noiva. Não só porque estavam me despachando para me casar com algum monstro sugador de sangue que provavelmente me via como nada além de uma refeição quente com pedigree.

Não. O verdadeiro terror vinha daquele último detalhe que Aldric largara com tanta casualidade, como se estivesse comentando o tempo: A noiva anterior aguentou dez anos antes de se matar.

Dez anos.

Uma década inteira sobrevivendo ao Reino Valerius, só para, no fim, decidir que a morte era preferível a acordar lá mais uma vez.

Minhas mãos tremiam quando alcancei a porta, atrapalhando-me com a maçaneta. Que diabos tinham feito com ela? Que tipo de monstro conseguia, lenta e sistematicamente, quebrar o espírito de uma lobisomem de um jeito tão completo que, depois de dez longos anos sobrevivendo, ela simplesmente desistiu? E por que — por que — todo mundo parecia achar que comigo seria diferente?

A porta enfim cedeu, e eu tropecei para dentro, meu santuário de repente parecendo mais uma cela. Amanhã. Eu tinha uma última noite naquele quarto, uma última noite sendo eu mesma antes de me tornar... o quê? Propriedade? Uma moeda de troca política? Um brinquedo de vampiro?

Eu me movi para bater a porta, para trancar o mundo lá fora e qualquer novo inferno que me esperasse, mas meus pais se materializaram na entrada antes que eu conseguisse. Claro que sim. Porque privacidade aparentemente era mais um luxo que eu tinha perdido esta noite, junto com meu futuro e minha dignidade.

— Elara.

A voz da minha mãe falhou ao dizer meu nome quando ela entrou no quarto, os braços se estendendo para mim com um desespero que eu nunca tinha visto nela. Ela sempre fora a forte, a guerreira lendária que lutara em campanhas com as quais eu só podia sonhar. Vê-la assim — vulnerável, quase suplicante — de algum jeito tornava tudo pior.

Ela me puxou para um abraço que parecia mais uma tentativa de me manter inteira do que de me consolar.

— Não pense assim — sussurrou contra meu cabelo, os dedos cravando nos meus ombros. — A morte daquela garota foi um acidente. Uma tragédia. Mas você é diferente... você é a lutadora mais corajosa da nossa família. Não importa em que situação você se encontre, você vai sobreviver. Você sempre sobreviveu.

As palavras deveriam ter sido reconfortantes. Deveriam ter me enchido de determinação, ou esperança, ou qualquer emoção que ela tentava despertar. Em vez disso, soaram ocas. Frases feitas vazias embrulhadas em desespero materno.

Eu a empurrei para longe, com mais força do que pretendia, e ela cambaleou um passo para trás. A mágoa que atravessou o rosto dela quase me fez me arrepender. Quase.

— Corajosa? — a palavra saiu afiada, cortante. — Sério, mãe? Você vai ficar aí e me chamar de corajosa?

Soltei uma risada amarga que tinha gosto de ácido na língua.

— Você tem mais experiência de combate do que o nosso rei. Você já viu guerreiros de verdade em ação. Então me diga — e eu quero que você olhe nos meus olhos quando responder — você ainda associa mesmo, de verdade, essas palavras a mim? Corajosa? Lutadora? Guerreira?

Por um instante — um instante tremeluzente e devastador — eu vi a verdade nos olhos dela. A hesitação. A dúvida. A pena que ela tentava desesperadamente mascarar, mas não conseguia esconder por completo.

Aquela pausa minúscula foi toda a resposta de que eu precisava.

— Porra! — a palavra explodiu de mim, crua e selvagem. — Como eu pensei.

Eu me abracei, de repente gelada apesar do calor do quarto.

— Sabe de uma coisa? Talvez eu finalmente tenha entendido. Não conseguir me transformar... aquilo foi o começo da minha tragédia. Casar com um vampiro? É assim que ela termina. É tudo punição da Deusa da Lua, não é? Uma piada cósmica às minhas custas.

Encarei minha mãe de novo, e dessa vez nem me dei ao trabalho de esconder a escuridão nos meus próprios olhos.

— Então talvez eu facilite para todo mundo. Vou para aquele lugar maldito amanhã e, no primeiro dia, naquela propriedade escura, encharcada de sangue, eu vou simplesmente... terminar o que a última noiva começou.

— Elara, não...

O rosto da minha mãe se desfez, lágrimas escorrendo pelas bochechas de um jeito que eu nunca tinha testemunhado. Nem quando o próprio pai dela tinha morrido em batalha. Ela estendeu a mão para mim de novo, mas uma voz cortante atravessou o ar como uma lâmina.

— Elara.

O tom do meu pai poderia ter congelado o fogo do inferno.

— Já terminou seu chilique?

Eu me virei para ele, pronta para despejar cada grama de raiva, medo e desespero se revirando dentro de mim, mas ele não tinha terminado. Ele ficou ali como uma estátua talhada em pedra, a postura militarmente perfeita, a expressão esculpida em gelo. Aquele era o Comandante Nightshade, não o pai. O homem que me treinara em combate, que me exigira mais do que qualquer um dos meus instrutores, que uma vez me olhara com algo parecido com orgulho.

Aquele homem tinha sumido agora. No lugar dele, havia um estranho que me via como um problema a ser resolvido.

“Você vai se casar com um príncipe”, ele disse, cada palavra medida com precisão e mais fria do que a anterior. “Um casamento que vai determinar se a nossa alcateia vive em paz ou morre em guerra. Você diz que não consegue contribuir com esta alcateia como guerreira?” Os olhos dele perfuraram os meus com uma intensidade que me fez querer desviar o olhar, mas eu me obriguei a sustentar o dele. “Ótimo. Então esta é a sua chance de redenção. Sua oportunidade de salvar sua reputação e restaurar a honra do nome da nossa família.”

A hipocrisia de tudo aquilo me deu vontade de gritar. “Honra?” Cuspi a palavra como veneno. “Você quer falar de honra, pai? Você e o rei são exatamente iguais — os dois acham perfeitamente aceitável me sacrificar pela preciosa herança da família! Você nem tentou recusar essa proposta insana!” Minha voz subiu a cada palavra, meses de frustração reprimida finalmente se libertando. “E o nosso querido Rei Alfa — ele tem filhas também! Por que não manda uma delas? Elas não trariam paz com a mesma eficácia? Ou só vale quando é o filho dos outros sendo jogado aos lobos? Ou melhor dizendo, aos vampiros?”

Algo tremulou nos olhos do meu pai — culpa, talvez, ou arrependimento —, mas sumiu antes que eu pudesse ter certeza. O maxilar dele se retesou e, quando voltou a falar, a voz desceu para aquele tom perigosamente baixo que significava que ele estava realmente com raiva.

“Chega.” A palavra única carregava o peso de uma ordem. “Eu não vim aqui para debater com você. O que foi feito, foi feito. A única pergunta agora é se você vai aceitar a realidade e seguir em frente, ou se vai se afundar na autopiedade até arrastarem você para aquela carruagem amanhã.”

Ele deu um passo mais perto e, de repente, ele não era mais o Comandante Nightshade. Alguma coisa mudou na expressão dele, uma rachadura na armadura que me deixou ver o pai por baixo. Quando falou de novo, a voz ainda estava fria, mas havia uma corrente subterrânea de outra coisa. Algo que talvez fosse preocupação.

“Me diga uma coisa, Elara.” Ele sustentou meu olhar com uma intensidade que me prendeu no lugar. “Você realmente quer ficar aqui? Nesta alcateia? Pelo resto da sua vida?”

Abri a boca para responder, para dizer que é claro que queria, que este era o meu lar, mas ele me cortou antes que eu conseguisse formar as palavras.

“Você quer passar décadas sem conseguir se transformar?”, ele continuou, implacável. “Vendo todo mundo com quem você treinou superar você? Vendo os comandantes que um dia elogiaram seu potencial atravessarem a rua para evitar você? Sentindo o peso da decepção de todos, todos os dias?” Ele fez uma pausa, deixando cada pergunta cair como um golpe físico. “É essa a vida que você quer? De verdade?”

“Eu...” A negação ficou presa na minha garganta porque nós dois sabíamos a resposta. Eu já estava vivendo aquele pesadelo havia três anos, e ele estava me matando por dentro, aos poucos.

“Então vá embora.” As palavras foram duras, mas algo no tom dele amoleceu quase imperceptivelmente. “Você é a minha filha mais teimosa, Elara. A que nunca desiste, que luta mesmo quando as chances são impossíveis. Sim, a escolha que estou te dando é brutal. É injusta. Mas pelo menos é uma escolha. Pelo menos é uma chance — por menor que seja — de provar que você ainda é a guerreira que diz ser.”

Apesar de tudo, apesar da minha raiva, do meu medo e do meu desespero, havia algo nas palavras dele que ecoou em mim. Uma faísca minúscula de algo que poderia ser esperança, ou talvez só o mais tênue vislumbre de possibilidade num oceano de escuridão.

“Pai...”, comecei, mas ele já estava indo em direção à porta, seu momento de vulnerabilidade selado de novo atrás da máscara de comandante.

Ele parou no batente, de costas para mim, e quando falou outra vez a voz carregava um peso que eu não consegui interpretar direito. “O lobo de algumas pessoas é um presente da Deusa da Lua, entregue exatamente no prazo”, ele disse, baixo. “Mas alguns lobos... chegam tarde. E esses lobos — aqueles pelos quais você precisa lutar, aqueles que você precisa conquistar — muitas vezes são mais bonitos do que qualquer um jamais imaginou.”

E então ele se foi, a porta se fechando atrás dele com um clique suave que pareceu final demais.

Fiquei ali, no silêncio repentino, o choro contido da minha mãe sendo o único som, e senti alguma coisa mudar dentro de mim. O desespero esmagador não desapareceu — como poderia? —, mas abriu espaço para outra coisa.

Algo pequeno e frágil, mas teimosamente vivo.

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