Capítulo 1 O Homem do Sonho
A fumaça queimava meus pulmões.
Mesmo dormindo, eu conseguia sentir o calor das chamas consumindo a floresta.
Árvores caíam.
Galhos estalavam.
Gritos ecoavam ao longe.
Uma mulher corria entre os pinheiros com uma menina nos braços.
Seu vestido claro estava rasgado, coberto de fuligem e manchas de sangue. Os cabelos castanhos chicoteavam suas costas enquanto ela olhava para trás, desesperada.
Homens vestidos de preto se aproximavam.
Eu não conseguia ver seus rostos.
Apenas a certeza de que estavam caçando alguém.
— Não olhe para trás, meu amor... — ela disse com a voz embargada. — Aconteça o que acontecer... nunca olhe para trás.
A menina chorava baixinho, escondendo o rosto em seu pescoço.
A mulher tropeçou em uma raiz.
Caiu de joelhos.
Mesmo ferida, levantou-se imediatamente, protegendo a criança com o próprio corpo.
As vozes estavam cada vez mais perto.
— Ela está ali!
— Não a deixem escapar!
Ela abraçou a menina com tanta força que parecia querer escondê-la do mundo.
— Escute a mamãe...
As lágrimas escorriam por seu rosto.
— Você precisa viver.
A menina a olhava sem entender.
— Prometa que vai viver.
Antes que pudesse responder, um homem surgiu entre as árvores.
Era alto.
Usava um longo casaco escuro que se confundia com a própria noite.
Seu rosto permanecia escondido pelas sombras.
Mas seus olhos...
Havia algo neles que me fazia sentir segura.
Como se eu o conhecesse.
Como se pudesse confiar nele.
A mulher parou de correr.
Pela primeira vez, o medo deu lugar ao alívio.
— Você veio...
Sem dizer uma palavra, ele estendeu os braços.
Ela colocou a menina em seu colo com um cuidado que partiu meu coração.
— Proteja-a.
Sua voz era apenas um sussurro.
— Não deixe que a encontrem.
O homem fez um discreto movimento com a cabeça.
Então uma luz branca tomou conta da floresta.
As árvores desapareceram.
O fogo desapareceu.
Tudo desapareceu.
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Abri os olhos de repente.
Meu coração batia tão forte que por um instante achei que ainda estivesse correndo.
Levei alguns segundos para reconhecer a sala de descanso.
As paredes claras.
O zumbido do ar-condicionado.
O cheiro de café.
Hospital Santa Helena.
Mais uma madrugada de plantão.
Passei a mão pelo rosto e respirei fundo.
— De novo...
Aquele sonho me acompanhava desde criança.
Sempre igual.
A mesma mulher.
A mesma menina.
O mesmo homem.
E o mesmo rosto escondido.
Instintivamente, levei a mão ao pescoço.
Meus dedos encontraram o velho pingente escondido sob o jaleco.
Seu metal frio sempre me acalmava.
Ninguém jamais soube explicar sua origem.
Nem os joalheiros.
Nem os historiadores.
Nem Dona Teresa.
A única coisa que ela dizia era:
"Esse colar já estava com você quando chegou até mim."
Só isso.
Nenhuma fotografia.
Nenhuma carta.
Nenhuma lembrança.
Às vezes eu me perguntava se aquela mulher realmente existira ou se meu cérebro havia inventado tudo para preencher um vazio.
Mas, no fundo...
Eu nunca acreditei nessa hipótese.
Três batidas suaves interromperam meus pensamentos.
— Posso entrar ou você resolveu morar aqui?
Sorri antes mesmo de levantar a cabeça.
— A porta está aberta, Lívia.
Ela entrou equilibrando uma caneca de café e alguns prontuários.
— Eu sabia que ia encontrar você dormindo.
— Eu não estava dormindo.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Não?
— Estava pensando.
— De olhos fechados?
Sorri.
— Ajuda na concentração.
Ela riu.
— Claro... tanto que nem ouviu quando passei aqui vinte minutos atrás.
— Vinte?
— Vinte e sete.
Recebi a caneca de suas mãos.
— Você salvou minha vida.
— Não exagera.
— Depois de dez horas de plantão, café é praticamente um medicamento.
Ela balançou a cabeça.
— Um dia seu coração vai reclamar.
— Quando isso acontecer, eu marco uma consulta.
Nós duas rimos.
Então ela me olhou com mais atenção.
O sorriso desapareceu.
— Foi o sonho de novo, não foi?
Olhei para o café.
— Foi.
Ela se sentou ao meu lado.
— Igual aos outros?
Assenti.
— Sempre a mesma mulher...
Minha voz saiu quase num sussurro.
— Sempre correndo... sempre tentando salvar aquela menina.
Fiz uma pausa.
— E o homem?
Perguntou ela.
Balancei a cabeça.
— Nunca consigo ver o rosto dele.
Apenas os olhos.
Passei os dedos pelo pingente.
— É estranho...
— O quê?
— Tenho a sensação de que conheço aquele homem.
Sorri sem humor.
— O que é impossível.
Lívia apertou minha mão.
— Um dia você vai descobrir a verdade.
Olhei para ela por alguns segundos.
— Às vezes tenho medo justamente disso.
Antes que ela pudesse responder, o alto-falante do hospital interrompeu o silêncio.
— Doutora Clara Rossi, comparecer à emergência. Ambulância em aproximação. Paciente masculino, vítima de disparo por arma de fogo. Chegada em dois minutos.
Coloquei a caneca sobre a mesa.
Mais uma vez...
O café teria que esperar.
Saí da sala em direção à emergência, sem imaginar que aquele chamado mudaria completamente a minha vida.
As portas automáticas da emergência se abriram no mesmo instante em que a ambulância parou.
Dois socorristas entraram empurrando uma maca.
O homem estava inconsciente.
A camisa escura estava completamente encharcada de sangue.
Aproximei-me enquanto caminhávamos para a sala de trauma.
— Homem, aproximadamente trinta e cinco anos — informou um dos paramédicos. — Ferimento por arma de fogo. Encontrado na estrada que liga Castelverde di Valente aos vinhedos. Sem documentos. Sem identificação.
— Pressão?
— Cento e dez por setenta.
Franzi a testa.
— Frequência cardíaca?
— Oitenta e dois.
Aquilo não fazia sentido.
Pela quantidade de sangue, seus sinais vitais deveriam estar muito piores.
Mas não havia tempo para questionar.
— Sala de trauma. Agora.
A equipe se movimentou imediatamente.
Calcei as luvas.
— Tesoura.
Lívia colocou o instrumento em minha mão.
Cortei cuidadosamente a camisa do paciente.
Foi quando as vi.
Cicatrizes.
Muitas.
Algumas antigas.
Outras profundas o bastante para chamar minha atenção.
Marcas que contavam uma história que eu ainda desconhecia.
Respirei fundo.
— Aspiração.
O sangue foi retirado aos poucos, revelando o trajeto da bala.
Analisei a lesão com cuidado.
— O projétil atravessou o tórax. Não atingiu nenhum órgão vital.
Um dos residentes suspirou aliviado.
— Ele teve muita sorte.
Continuei observando o paciente.
Não.
Aquilo não era sorte.
Era como se o corpo dele simplesmente se recusasse a perder sangue na velocidade esperada.
Afastei o pensamento.
Meu trabalho era salvá-lo.
Quarenta minutos depois, o procedimento havia terminado.
Retirei as luvas.
— Quero monitorização contínua. Qualquer alteração, me avisem imediatamente.
— Sim, doutora.
Assinei os últimos registros e deixei a sala.
Olhei o relógio.
Duas e meia da manhã.
Meu plantão finalmente havia terminado.
Passei na sala dos médicos para pegar minha bolsa.
A caneca de café continuava onde eu a havia deixado.
Completamente fria.
Sorri sozinha.
— Hoje você venceu.
Peguei a bolsa e segui para o estacionamento.
Mas, ao passar pelo corredor da internação, diminuí os passos.
Olhei para a porta do quarto onde o paciente havia sido acomodado.
Suspirei.
— Só uma última olhada...
Empurrei a porta com cuidado.
O quarto estava em silêncio.
Conferi o soro.
O curativo.
Os sinais no monitor.
Tudo permanecia estável.
Foi então que percebi que o travesseiro havia escorregado.
Aproximei-me.
— Você realmente escolheu uma péssima noite para levar um tiro...
Sorri de leve enquanto deslizava a mão sob sua cabeça para ajeitá-lo.
No instante em que terminei o movimento...
Senti que ele se mexeu.
Levantei os olhos.
Ele estava acordado.
Os olhos escuros permaneceram presos aos meus.
Intensos.
Lúcidos.
Por um instante, esqueci completamente onde estava.
Prendi a respiração.
Pela primeira vez desde que ele chegou ao hospital…
Tive a impressão de que aquele desconhecido também me observava.
— Senhor... consegue me ouvir?
