Capítulo 1

POV da Nora

Três anos atrás, eu me casei com Rex Cavano — o chefão da máfia mais perigoso de Nova York — por causa deste rosto. Não por amor. Porque eu parecia a Isabella, a meia-irmã dele. A mulher que a família arrancou dele e mandou para Roma.

Eu achei que o tempo faria ele esquecê-la. Até três meses atrás, quando ela voltou pra casa viúva, e eu finalmente entendi: uma imitação sempre vai ser só uma imitação. Quando o original entra pela porta de novo, a falsificação é jogada fora.

Com os papéis do divórcio na mão, eu fui em direção à piscina.

O sol estava castigando. Rex estava ajoelhado ao lado de uma espreguiçadeira, aqueles dedos longos espalhando protetor solar nos ombros nus de Isabella.

Ela usava um biquíni vermelho, se espreguiçando como uma gata que acabou de lamber o creme.

— Rex, devagar — Isabella ronronou. — Isso machuca.

— Então eu vou ser mais delicado. — Rex diminuiu o ritmo, as pontas dos dedos deslizando pela pele dela com uma ternura que eu nunca tinha visto nele.

Os papéis pareciam estar queimando um buraco na minha mão. Na capa, estava escrito “Renovação do Plano de Saúde da Família Cavano” — eu cuidava disso todos os anos. Rex nem se dava ao trabalho de ler, só assinava na linha pontilhada.

Só que, desta vez, eu tinha enfiado os papéis do divórcio lá dentro.

— Rex — eu chamei. — Preciso da sua assinatura.

Rex nem levantou os olhos.

— Em quê?

— Plano de saúde da família. Renovação anual. — Eu cheguei mais perto, estendendo a pasta.

Rex limpou as mãos e pegou. Abriu na primeira página. A testa dele franziu.

Meu coração martelou contra as costelas.

Os dedos dele pairaram sobre a linha de assinatura—

— Deixa eu conferir as condições—

— Ah, pelo amor de DEUS, Rex — Isabella se sentou, rindo e cortando ele. — Desde quando você ficou tão paranoico? É só o plano. A Nora faz isso todo santo ano.

Ela pegou o protetor, jogando as pernas por cima do colo dele.

— Ou vai ver você não confia no julgamento profissional da sua esposa? Ela É cirurgiã.

Rex olhou para Isabella, depois baixou os olhos e rabiscou a assinatura.

Naquele momento, eu não soube dizer se eu me senti aliviada ou destruída.

— Era isso? — Rex me devolveu a pasta.

— Era. — Eu peguei e me virei para ir embora.

— Ei, Nora — Isabella chamou atrás de mim. — Já que você tá aí, faz um suco pra mim? As outras meninas nunca acertam do jeito certo.

Eu apertei a pasta com mais força. Não falei nada.

— Se você tiver atolada, não esquenta — Isabella suspirou. — É que… eu não tô de volta há muito tempo, e é uma das poucas coisas que eu tô com vontade…

— Faz pra ela. — O tom de Rex foi seco. Os olhos dele continuaram baixos.

Desde que Isabella voltou pra casa depois que o marido dela levou bala, essa era a minha vida. Ela era filha da madrasta de Rex — não tinham sangue em comum, mas cresceram juntos. Eles deviam ter ficado juntos, até a família separar os dois. O velho Don casou Isabella com Marco Ricci, um chefão da máfia de Roma, por vantagem territorial.

Três meses atrás, Marco levou um tiro. Isabella voltou.

E eu finalmente entendi qual era o meu lugar.

— Claro. — Eu fui até o bar. — O que você quer?

— Laranja com salsão. Você sabe como eu gosto — Isabella se recostou. — Bem gelado, com bastante gelo.

Enquanto o liquidificador roncava, eu observei pelo vidro Isabella se inclinando até o ouvido de Rex, sussurrando alguma coisa que fez ele sorrir. Os dois pareciam tão certos juntos que doía de verdade.

Um nó se formou na minha garganta. Eu forcei os olhos para longe.

Quando levei o suco, Isabella pegou o copo sorrindo.

— Valeu, linda. Você é um amor. Não é, Rex?

Rex pegou uma toalha, secando as mãos. Não disse nada.

Eu me virei para ir embora.

— Mas falando sério, Rex — o riso preguiçoso de Isabella veio atrás de mim —, a Nora é TÃO boa em tudo. Só que às vezes? Eu juro que ela parece mais sua assistente do que sua esposa. Você já pensou nisso?

Meus pés pararam. Alguma coisa se retorceu no meu peito.

Rex murmurou algo em resposta, mas eu não fiquei para ouvir. Acelerei o passo de volta para o quarto.

Encostada na porta fechada, eu soltei o ar. Enfiei a pasta bem no fundo da bolsa.

Um mês. Era só isso que faltava para o acordo entrar em vigor.

Aí eu estaria livre.

A náusea veio de repente. Eu corri para o banheiro para ter ânsia — não dava para saber se era o cheiro do suco ou o “mais sua assistente” da Isabella ainda ecoando na minha cabeça.

Eu tirei a roupa e entrei debaixo do jato do chuveiro. A água quente batia na minha pele. Eu apertei os olhos.

Três anos atrás, eu vi Rex Cavano pela primeira vez.

Naquela época, eu era só uma órfã que a família Cavano bancou na faculdade de Medicina, trabalhando no hospital particular deles. Rex entrou na enfermaria enquanto eu trocava os curativos do velho Don. Ele parou na porta e ficou encarando meu rosto por um tempo que pareceu infinito, com uma expressão impossível de decifrar.

— Qual é o seu nome? — ele perguntou.

— Nora Hart.

Uma semana depois, Rex me pediu em casamento.

Eu achei que fosse amor à primeira vista. Achei que aquele desgraçado sem coração finalmente tinha visto alguma coisa especial em MIM. Então eu disse sim — em parte por gratidão, em parte porque eu tinha me apaixonado por ele.

Aquele primeiro ano de casamento foi melhor do que eu tinha ousado esperar.

De madrugada, ele aparecia com crème brûlée, dizendo que não queria que eu fosse dormir com fome. Nos jantares de família, quando alguém passava do limite, ele me puxava contra o peito e rosnava: — Se enxerga. — Naquela época eu caí de cabeça. Achei que ele me amava de verdade.

Até o dia em que eu peguei uma empregada preparando crème brûlée com calda de framboesa na cozinha.

— É o preferido do chefe — ela disse. — A senhorita Isabella fazia pra ele o tempo todo quando eles eram crianças.

Isabella. Sempre a porra da Isabella.

Aquele cara que me insultou no jantar? Acontece que foi ele quem mais insistiu pra mandar Isabella pra Roma. Rex não estava me defendendo. Ele estava vingando ELA.

Nada era real.

Aquelas sobremesas da madrugada não eram por minha causa — eram as preferidas DELA. Aquela proteção não era pra mim — era a honra DELA que ele estava defendendo. Até esse rosto não era meu — ele nunca amou Nora Hart. Só o fantasma da Isabella.

Eu abri os olhos. A água escorrendo borrava minha visão. O espelho estava totalmente embaçado. Encarei meu reflexo — comparada à autoconfiança sensual da Isabella, eu parecia uma criança brincando de se fantasiar.

Não é à toa que ele não tinha encostado um dedo em mim desde que ela voltou, três meses atrás.

Eu me enrolei no roupão e saí do banheiro. Estendi a mão pra pegar uma toalha quando um braço de repente me prendeu por trás.

Um corpo duro se colou no meu. Eu senti o peito dele, a respiração quente no meu pescoço, com cheiro forte de cloro e uísque.

— Rex… — eu tentei me afastar.

— Não. — Era uma ordem, não um pedido.

A mão dele escorregou por baixo do roupão, a palma áspera se abrindo na minha cintura. Meu corpo ficou rígido. Tudo o que eu conseguia ver era ele horas antes — aquelas mesmas mãos nos ombros da Isabella, tão suaves que arrebentaram alguma coisa dentro de mim.

Comigo? Era só posse.

— Rex, para… — eu me debati.

— Por quê? — A voz dele vibrou no meu ouvido. — Até onde eu sei, você ainda é minha esposa.

A boca dele encontrou meu ombro, os dedos descendo. Eu fechei os olhos, engolindo a ânsia.

— Você está estranha o dia inteiro — ele disse de repente. A outra mão agarrou meu queixo, me obrigando a encará-lo. — O que você está escondendo?

Aqueles olhos escuros perfuravam os meus, afiados o bastante pra cortar mentira.

— Nada — eu baixei o olhar.

— Sério? — ele estreitou os olhos, o polegar passando pelo meu lábio inferior. — Então por que você me olhou hoje como se eu fosse um estranho?

Meu pulso disparou.

— Ou talvez — a voz dele baixou, quase divertida — você esteja com ciúme?

A mão dele foi pra dentro da minha coxa, a respiração ficando irregular. O roupão se abriu —

O celular dele tocou.

Rex me soltou tão rápido que eu quase tropecei. Pegou o telefone. — Alô? Isabella?

— Rex, eu preciso de você — a voz da Isabella veio do outro lado, melada de doçura. — O aquecedor do banheiro de hóspedes pifou. A água está GELADA. Você pode vir consertar?

— Tô indo.

Ele nem olhou pra mim. Só pegou a camisa do chão, vestiu e saiu.

A porta se fechou atrás dele.

Eu fiquei ali, com o roupão amontoado aos meus pés.

Aí eu ri. Ri até as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.

Esse era o meu casamento. Três anos sendo a PIADA.

Eu peguei o roupão, me enrolei nele e afundei na cama. Meu celular acendeu. E-mail novo.

"Prezada Dra. Nora Hart: Temos o prazer de informar que a senhora foi aceita como cirurgiã no Santa Cruz Medical Camp, na Colômbia. Trata-se de um programa médico de três anos em zona de conflito, com partida em um mês. Por favor, confirme em até 48 horas..."

Colômbia. Zona de guerra. Bala, sangue e perigo.

Mas sem Rex. Sem Isabella. Sem aquela porra de gaiola dourada.

Eu apertei “Aceitar”.

Lá fora, o luar tremeluzia sobre a piscina. A risada da Isabella vinha do quarto de hóspedes, a voz baixa do Rex se misturando à dela — eu não conseguia distinguir as palavras. Nem queria.

Tudo o que eu sabia era que, dessa vez, eu finalmente estava saindo.

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