Capítulo 2

POV da Nora

Acordei na manhã seguinte com a cama vazia. O lado do Rex estava frio — ele nem voltou.

Fiquei encarando o teto, dizendo a mim mesma que eu já devia estar acostumada com isso. Três anos de casamento, na maioria das manhãs eu acordava sozinha. Mesmo assim, meu peito ainda parecia oco, como se tivessem arrancado algo vital de dentro de mim.

Tudo bem. Quando eu for embora, não vou mais precisar sentir isso.

Virei a cabeça e vi uma caixa azul elegante no criado-mudo. Dentro, havia um colar de platina com um rubi do tamanho de um ovo de codorna.

Presente de aniversário.

Duas semanas atrasado.


Duas semanas atrás, eu ainda tinha um restinho de esperança.

O Rex prometeu que voltaria para casa para comemorar meu aniversário comigo — nossa primeira chance de ficarmos a sós desde que a Isabella voltou, três meses atrás. Eu me troquei e coloquei uma camisola preta de renda, acendi velas perfumadas, deixei vinho e bife na mesa de jantar.

Sete horas. Oito horas. Nove horas.

As velas já tinham queimado até a metade. O bife ficou frio.

Adormeci no sofá, enrolada num cobertor, e acordei tremendo de frio no meio da madrugada, com o dia começando a clarear lá fora.

No meu celular, aparecia a nova postagem da Isabella.

Na foto, ela e o Rex estavam sentados lado a lado no topo de uma montanha, com o céu atrás deles tomado de estrelas. Ela usava a jaqueta dele e fazia um coração com as mãos para a câmera, sorrindo de orelha a orelha.

O Rex se apoiava no ombro dela, olhando para ela com uma ternura que me quebrou por dentro.

Legenda: "Finalmente vi a chuva de meteoros que eu pedi aos dezesseis. Sonhos se realizam, sim."

Desliguei o celular e me olhei no espelho — sem nada além daquela camisola reveladora, parecendo uma maldita piada.

Naquele momento, eu finalmente entendi: eu nunca poderia vencer a Isabella. O homem que eu amava não tinha espaço para mim no coração dele.

Fechei a caixinha de joias com força e enfiei o colar no fundo de uma gaveta.

A mulher no espelho estava com os olhos vermelhos, inchados. Respirei fundo, me obrigando a me acalmar.

Lembra? Você já assinou os papéis do divórcio. Em um mês, isso tudo acaba.


Nos dias seguintes, usei os plantões como desculpa para, em segredo, levar minhas coisas pessoais para fora da mansão.

O Rex não percebeu. Estava ocupado demais levando a Isabella a exposições de arte, indo fazer compras com ela, fazendo tudo o que nunca fez por mim.

Numa manhã bem cedo, eu estava no pronto-socorro suturando uma vítima de acidente de carro quando tudo ficou preto.

"Nora!" A voz da Eliza soou como se viesse de muito longe.

Quando abri os olhos de novo, eu estava deitada numa cama de hospital, com uma cânula de oxigênio no nariz e luzes fluorescentes fortes me fazendo apertar os olhos.

"Nora, você tá bem?" Eliza segurou minha mão com força.

"Por que eu desmaiei..."

"Você tá grávida", disse Eliza, com cuidado. "Doze semanas. Parabéns."

Não. Impossível.

Minha mente ficou em branco.

Eu estava usando anticoncepcional. Como eu podia estar grávida?

A voz da Eliza foi ficando distante enquanto minha cabeça voltava, num flash, para aquela noite, três meses atrás.

Naquela noite, o Rex tinha bebido muito. Quando ele entrou no quarto de supetão, os olhos dele pareciam assustadoramente estranhos, como se eu não conhecesse aquele homem. Ele me prensou na cama, com movimentos tão brutos que parecia estar me castigando por alguma coisa, ignorando completamente como eu me sentia.

Depois, ele virou de lado e apagou, me deixando encolhida no canto, tremendo.

No dia seguinte, eu soube pelos cochichos das empregadas: a Isabella tinha voltado pra casa.

Então, naquela noite, ele só tinha me usado como substituta dela. E agora, aquele erro estava crescendo dentro de mim.

— Ah, Nora… — Eliza olhou meu prontuário, franzindo a testa. — Sobre aquele programa dos Médicos Sem Fronteiras para o qual você se inscreveu na Colômbia… agora que você está grávida, seu marido vai concordar? As condições de trabalho lá são perigosas—

— Ele vai ficar bem com isso — eu a cortei. — De qualquer forma, eu vou.

Eliza piscou.

— Mas—

— Este bebê é meu — sustentei o olhar dela. — Só MEU. Eliza, mantenha isso em sigilo. Por favor.

Depois que Eliza saiu, o quarto ficou em silêncio.

Eu encarei o teto, com a mão pousada na barriga ainda lisa. Uma criança. Um filho do Rex.

A ironia era que isso talvez fosse a única coisa real entre nós — mesmo tendo sido concebido durante uma explosão bêbada e violenta.

O que eu devia fazer?

Contar pra ele? E depois? Deixar que ele me mantenha por obrigação? Assistir a ele cumprir o papel de marido enquanto entrega toda a ternura para a Isabella? Deixar essa criança viver à sombra dela desde o nascimento, como eu?

Não. Eu não consigo.

Mas… se eu não contar, isso é justo? Ele tem o direito de saber que vai ser pai, não tem?

Mas desde quando ele foi justo COMIGO?

Fechei os olhos, os pensamentos despencando num caos.


Eu estava no corredor da obstetrícia, segurando meu próprio laudo do ultrassom.

Eu tinha vindo falar com Rex — dizer que eu estava grávida, que eu ia para a Colômbia, que esse casamento precisava acabar.

Mas quando eu o vi, todas as palavras morreram na minha garganta.

Rex estava do lado de fora de uma sala de exame, com uma mão apoiando a cintura de Isabella e a outra repousando com cuidado sobre a leve saliência da barriga dela.

— Rex, eu estou com tanto medo… — a voz de Isabella tremia. — Esse bebê veio tão de repente… eu não sei se devo levar adiante—

— Shh, não tenha medo — Rex a interrompeu, usando o polegar para enxugar as lágrimas dela. — Eu estou aqui. Você e o bebê… vão ter o melhor cuidado que o dinheiro pode comprar. O que você precisar.

Isabella também estava grávida. De um filho do Rex.

O chão sumiu debaixo de mim.

O papel do ultrassom umedeceu de suor na minha mão. Eu dei um passo para trás, no automático, tentando escapar, e trombei num carrinho de hospital que uma enfermeira empurrava.

CLANG—

A bandeja de metal caiu no chão com um estrondo ensurdecedor.

Rex e Isabella se viraram num sobressalto.

— Nora? — Rex franziu a testa. — O que você está fazendo aqui?

— Eu… procurando um colega — enfiei o ultrassom no bolso, desesperada. — Coisa do trabalho.

Ele me encarou por vários segundos, como se tentasse me decifrar. Meu olhar desceu, incontrolável, até a barriga de Isabella — ainda quase imperceptível, mas eu sabia que havia uma criança ali.

— Nora… — a expressão de Rex mudou. — Deixa eu explicar—

— Rex! — Isabella o cortou com um grito agudo. — Mas você PROMETEU…

Rex olhou para ela, depois para mim; o pomo de adão dele subiu e desceu, mas no fim ele não disse nada.

— Eu acabei de lembrar — minha boca tinha gosto de cinza —, eu tenho outras coisas pra fazer. Eu devo ir.

— Nora, espera— — Rex chamou atrás de mim.

Eu não me virei. Meus pés aceleraram; eu empurrei a porta da escada, escorreguei para baixo até encostar na parede fria, ofegando, buscando ar.

Meu celular vibrou no bolso. Rex ligando. Eu recusei. Desliguei o aparelho.

Eu puxei a foto do ultrassom com as mãos trêmulas, abri, e as lágrimas que eu não conseguia conter escorreram pelo meu rosto. Aquele pontinho preto, enroscado num borrão de branco, sem saber de nada.

Não sabia que o pai já tinha outro filho.

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