Capítulo 3

POV da Nora

Nos dois dias seguintes, eu me tranquei no hospital. O quarto de plantão virou meu refúgio — pelo menos ali não tinha a risada da Isabella, nem o Rex olhando para outra pessoa com aqueles olhos tão ternos.

O Rex tentou falar comigo, mas eu sempre despistava com desculpas de trabalho. Até a terceira noite, quando ele apareceu na entrada do hospital.

— Nora.

Eu tinha acabado de passar pelas portas giratórias do pronto-socorro quando vi ele encostado naquela Mercedes preta. Na luz que já ia sumindo, ele estava de terno grafite, com as mangas arregaçadas de um jeito casual, o pôr do sol projetando sombras nos traços marcantes do rosto dele.

— Você está me evitando. — Ele franziu a testa.

— O trabalho está um caos. — Tentei passar por ele em direção ao estacionamento.

Ele se mexeu para me impedir, estendendo o braço no meu caminho. — Consegui uma mesa pra gente hoje à noite. No seu lugar favorito.

Eu ergui os olhos para ele.

— Pra compensar seu aniversário — a voz do Rex saiu baixa. — Eu te deixei na mão. Não vai acontecer de novo.

Eu encarei o rosto dele. Aqueles olhos escuros não deixavam transparecer nada.

— Tá.

A palavra escapou antes que eu conseguisse segurar. Mas talvez fosse bom — uma última despedida.


Oito da noite, no Dante’s. A luz de velas desenhava halos quentes sobre as toalhas brancas.

A mesa estava coberta por pratos requintados da culinária francesa; o risoto de trufas se misturava ao aroma encorpado de vinho tinto.

Comemos em silêncio. Nenhum de nós puxou assunto primeiro.

— Ultimamente — o Rex disse por fim, largando os talheres — você mal fica em casa.

— O PS está sem gente — eu cortei o foie gras no prato. — A dra. Harrison está de licença-maternidade, então eu peguei os plantões dela—

— É por causa da Isabella? — ele interrompeu, olhando direto para mim. — Você está com raiva? Olha, a Isabella acabou de perder o marido. Ela está passando por um inferno agora.

Minha faca e meu garfo pararam.

Ela perdeu o marido. E eu?

— Por que eu ficaria chateada? — balancei a cabeça, voltando a cortar a comida. — Você disse que ela é só sua irmã, não foi? Eu entendo.

— Nora. — a testa do Rex se vincou. — Olha pra mim.

Eu fui obrigada a levantar a cabeça.

Ele encarou meus olhos, procurando alguma coisa. Eu baixei o olhar, fugindo do calor daquele olhar dele.

— Sobre a Isabella… — ele pousou os talheres, inclinando-se um pouco para a frente. — Ela—

— Meu DEUS, Rex! — a voz estridente da Isabella cortou o ar. — Eu SABIA que tinha visto o seu carro!

Meus dedos se fecharam com força em torno da faca até os nós dos dedos ficarem brancos.

— Isabella. — a expressão do Rex escureceu na hora. — A Nora e eu—

— Eu sei, eu sei, estou interrompendo — Isabella veio andando até nós e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, se enfiou no lugar vazio ao meu lado. — Mas eu estava MORRENDO de vontade de comer o risoto de trufas daqui! Você comentou da última vez que estava com vontade, então eu fiz uma reserva pra amanhã. Não achei que você fosse chegar antes de mim.

Ela se virou para mim. — Eu não estou atrapalhando nada importante, né, Nora? Afinal, a gente é família.

— De jeito nenhum. — eu me ouvi dizer, com calma.

Rex pareceu ainda mais contrariado, o pomo de adão subindo e descendo várias vezes, mas no fim não disse nada.

— Perfeito. — Isabella pegou o cardápio e chamou um garçom com a mão. — Moço, com licença!

O jantar a dois virou jantar a três.

Isabella pediu uma montanha de pratos e vinho. Ela e Rex ficaram lembrando de coisas que eu não tinha como compartilhar — “lembra quando a gente fugiu pro lago quando era criança?”, “você sempre me protegia”.

Eu cortei o bife no meu prato em silêncio. Cada corte duro, decidido.

Então vieram os tiros.

Vidros estilhaçaram, balas passando. Gritos explodiram, cadeiras tombaram — caos puro.

— NO CHÃO! — Rex gritou, cobrindo Isabella na mesma hora.

Eu me mexi por instinto para me agachar, mas a multidão em pânico me empurrou e eu perdi o equilíbrio. Meu braço bateu com força na quina da mesa—

CRAC.

O som seco de osso quebrando. Uma dor cegante. Tudo ficou preto.

Os seguranças logo controlaram a situação. Os atacantes foram contidos.

— Tá doendo... — Isabella choramingou. — Rex, meu bebê...

— HOSPITAL! AGORA! — Rex pegou Isabella, que tremia, no colo e disparou para fora do restaurante, indo direto para o carro na entrada.

Eu fiquei ajoelhada sozinha no chão, o braço esquerdo pendendo inútil, encharcada de suor frio de tanta dor.

Ninguém olhou para trás.


Chamei um táxi. O motorista ficou apavorado quando viu meu braço e foi acelerando o caminho inteiro até o pronto-socorro.

— Jesus, Nora — Eliza resmungou enquanto tratava a fratura. — Que DIABOS aconteceu? E cadê o seu marido? Ele pelo menos sabe?

— Ele tem gente mais importante pra cuidar. — Minha voz saiu sem emoção.

— O quê? — Eliza parou, as mãos suspensas.

— Nada. — Eu cerrei os dentes. — Continua.

Depois que terminou o gesso, sentei num banco no corredor esperando a receita. Meu braço esquerdo estava preso num gesso grosso, sustentado por uma tipoia no pescoço.

Enfermeiras passavam, e os cochichos delas furavam meus ouvidos:

— Meu Deus, você OUVIU? O senhor Cavano comprou o andar inteiro do VIP—

— EU SEI! A namorada dele tá grávida—ela se assustou num ataque hoje à noite. Ele ficou do lado dela o tempo TODO, nem trocou a camisa.

— Amor de infância, né? Todo mundo dizendo que eles deviam ter ficado juntos desde o começo.

Eu fechei os olhos.

Parecia que alguém tinha colocado um pé no meu peito. Eu não conseguia respirar.

— Nora?

Abri os olhos e vi meu mentor, o doutor Morrison, parado na minha frente, com o rosto cheio de preocupação. Ele era um dos poucos que sabiam da minha gravidez.

— O que aconteceu com a sua mão? Meu Deus, foi tão grave assim? — Ele franziu a testa, examinando meu gesso.

— Eu caí. Tá tudo bem.

— Tudo bem? Isso é uma fratura exposta! — A expressão de Morrison ficou séria. — E você está grávida… um impacto desses no bebê—

— Bebê?

Uma voz fria veio de trás, como água gelada despejada em cima de mim.

— Bebê de quem?

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