Capítulo 4

POV da Nora

Eu me virei num átimo.

Rex estava no fim do corredor. As roupas dele ainda estavam manchadas de sangue — de quem, eu não conseguia dizer —, o cabelo desgrenhado, o rosto carregado de fúria.

Merda.

Meu sangue gelou. Morrison também ficou paralisado.

— Dr. Morrison — eu sinalizei freneticamente com os olhos, a voz urgente. — Espera… o senhor quer dizer a Emily? A residente Emily?

Morrison olhou para a minha expressão apavorada, depois para o Rex se aproximando com uma intenção mortal e, enfim, se tocou.

— Isso, isso — ele pigarreou, batendo na própria testa. — A Emily do meu setor. Ela está grávida. Acabei de encontrar com ela lá embaixo e dei umas orientações. Nora, o seu braço… — ele olhou para o meu gesso — …vai precisar de pelo menos seis semanas nisso. E não esqueça de trocar o curativo.

Rex parou bem na minha frente, o olhar indo de Morrison para mim, como um detector de mentiras.

O tempo pareceu parar.

Por fim, ele pareceu aceitar, e os olhos dele desceram para o meu braço imobilizado.

Eu evitei aquele olhar em brasa. — Por que você desceu? A Isabella ainda não—

— Sua mão. — ele me interrompeu, estendendo a mão para tocar no meu gesso.

Eu dei um passo para trás por instinto, desviando do toque dele. — O médico disse que é só uma fratura. Eu estou bem.

— Fratura exposta. — a voz do Rex veio pesada. — Isso é “bem”?

Eu não disse nada. Ele me encarou, prestes a falar alguma coisa, quando um segurança interrompeu.

— Chefe! A Isabella acordou. Ela está pedindo o senhor. Disse que não está se sentindo bem—

Rex assentiu e depois se virou para mim. — O Michael vai te levar de volta pra propriedade. Vai descansar.

Eu vi a figura dele desaparecer no elevador.

— Essa foi por pouco — Morrison soltou o ar, aliviado, baixando a voz. — Mas eu entendo… você quer fazer uma surpresa pro senhor Cavano, não é? Esperar o momento certo pra contar? Esse tipo de notícia…

Eu olhei para a expressão expectante do Morrison e forcei um sorriso, assentindo.

— É… uma surpresa.

Uma surpresa do caralho.


Nos dias seguintes, Rex mal apareceu em casa. A Isabella estava em observação no hospital, e ele ficou grudado do lado dela. Ele mandava, de vez em quando, alguma mensagem sem muita convicção perguntando como eu estava, mas eu nunca respondia.

A ausência dele me deu o tempo de que eu precisava.

O closet cheio de roupas de grife e joias — eu não levei nada. Aquilo nunca foi meu. Só adereços pra vestir a casca vazia que ele chamava de “Sra. Cavano”.

Eu só arrumei algumas roupas simples, meus livros de medicina e aquele ultrassom escondido no fundo de uma gaveta.

No fim, uma mala pequena.

Três anos de casamento, e era só isso que sobrava.

Na manhã em que eu fui embora, parei na porta e dei uma última olhada no lugar que eu chamei de casa por três anos.

No primeiro dia em que eu me casei com Rex, eu tinha ficado tremendo diante daquela porta, sem conseguir acreditar que eu tinha mesmo virado a senhora da propriedade dos Cavano. Naquela época, eu achei que aquele seria o meu lar, achei que o tempo ia ensinar ele a me amar.

Nunca imaginei que ir embora viria tão cedo.

Nunca imaginei que ia parecer liberdade.

— Senhora? — a empregada Maria parou no meio do caminho quando me viu com a mala. — Aonde a senhora… vai?

— Só uma viagem de trabalho. — eu mantive a voz leve. — Um programa de ajuda médica no exterior. Posso ficar alguns meses.

— Mas a sua mão… — o rosto da Maria se enrugou de preocupação. — A fratura ainda não sarou. Eu não devia avisar o senhor Cavano? Ele ia querer saber—

— Não. — eu balancei a cabeça com firmeza. — Ele vai saber cedo ou tarde.

Maria pareceu querer dizer mais alguma coisa, mas eu já tinha me virado em direção à escada.

Ao passar pelo escritório do térreo, eu parei e empurrei a porta.

A luz da manhã entrava pelas persianas, jogando sombras recortadas no chão. O ar ainda carregava vestígios de colônia amadeirada — o cheiro do Rex, misturado com uísque e tabaco.

Eu fui até a mesa e tirei do meu bolso a petição de divórcio, colocando-a no lugar mais visível.

Meus dedos pairaram sobre o documento por um instante.

Três anos atrás, nesta mesma mesa, Rex me fez assinar o acordo pré-nupcial. Minhas mãos tremiam tanto naquele dia. Ele disse, friamente: “É só uma formalidade”.

Agora era a minha vez.


Aeroporto Internacional JFK, Noite Tarde

O saguão estava lotado, com avisos ecoando pelos alto-falantes.

“Você vai mesmo fazer isso?” Minha amiga Emma tinha vindo se despedir; os olhos dela estavam vermelhos, inchados.

“Vou.” Assenti, apertando mais a alça da mala.

“Mas—” Emma mordeu o lábio. “Criar uma criança sozinha vai ser MUITO difícil, Nora. E o Rex? Ele é o pai do bebê — você não acha que ele tem o direito de saber—”

“Ele já tem a família que ele quer.” Eu a cortei, a voz mal passando de um sussurro. “A Isabella está grávida. Eles vão ter o próprio filho em breve. Eu e o meu bebê? A gente é só… um erro.”

“Mas você AMA ele—”

“E é exatamente por isso que eu tenho que ir.” Virei para encará-la, com os olhos ardendo. “Emma, se eu ficar, eu vou ver ele montando um quarto de bebê pra Isabella. Vou ver ele indo aos ultrassons com ela. Vou ver ele fazendo por ela tudo o que nunca fez por mim.”

Minha voz falhou quando minha mão livre foi, sem eu perceber, até a barriga. “Meu filho ia crescer nesse ambiente, vivendo pra sempre na sombra de outra criança. Igual eu vivi na sombra da Isabella.”

“Eu não vou deixar meu bebê viver como eu vivi.”

Emma se calou. Depois de um longo instante, ela deu um passo à frente e me puxou para um abraço apertado. “Quando ficar pesado demais, volta. Eu tô sempre aqui.”

Assenti, escondendo o rosto no ombro dela. “Obrigada, Emma.”

“Voo 2845 da British Airways com destino a Bogotá, embarque iniciado—”

O aviso soou.

Soltei Emma, enxuguei as lágrimas e peguei minha mala.

Emma me acompanhou até a segurança. Ela segurou minha mão, com a voz se quebrando. “Se cuida. Vocês dois.”

“Você também.”

Então eu virei e deixei a multidão me engolir.


Ponto de vista do Rex

Três dias depois.

Cheguei à mansão já de noite. O estado da Isabella tinha estabilizado — os médicos disseram que ela estava fora de perigo — então, finalmente, eu tinha saído do hospital.

Sinceramente, eu estava exausto.

Eu mal tinha dormido em três dias. Isabella não parava de dizer que não estava se sentindo bem, que precisava de mim lá. Ela tinha sido minha melhor amiga na infância e, depois que Marco morreu, eu era tudo o que ela tinha. Por obrigação com a família ou por algum resquício daquele laço de criança, eu não conseguia virar as costas pra ela.

Mas alguma coisa me roía o tempo todo.

Nora não saía da minha cabeça — com o braço ainda engessado, e eu tão envolvido com a Isabella que nem sequer tinha ligado pra saber como ela estava.

Porra.

Acelerei o passo e empurrei a porta da suíte principal.

Ela não estava lá.

A cama parecia intocada, as cortinas fechadas, e até o perfume dela tinha sumido do ar.

“Nora?” chamei. Nada.

Fui até o closet e abri—

Metade dos cabides estava vazia.

As roupas do dia a dia, os tênis, os livros de medicina — tudo tinha sumido.

Só as coisas caras que eu tinha comprado pra ela tinham ficado, penduradas, impecáveis e intocadas, como um tapa na minha cara.

Minha respiração ficou irregular, o coração martelando.

Tem alguma coisa errada.

“MARIA!” eu gritei.

A empregada subiu correndo, assustada com a minha expressão. “Senhor?”

“Onde está a minha esposa?” Eu segurei o braço dela. “Onde ela está?”

“A senhora Cavano disse… viagem a trabalho”, Maria gaguejou. “Ela saiu faz três dias.”

“Viagem a trabalho pra onde?” Franzi a testa. “Ela não me falou nada.”

“Eu não sei, senhor…” Maria esfregou o braço, nervosa. “Ela só levou uma malinha quando saiu. Disse que o senhor ia entender. Antes de ir, ela passou no escritório—”

O escritório.

Eu me virei e subi a escada de dois em dois, escancarando a porta do escritório. O abajur da mesa ainda estava aceso.

Havia um documento sobre a mesa, branco demais sob a luz amarela e quente.

Fui até lá e peguei.

No instante em que vi o título, tudo parou.

Decreto de Divórcio

Rex Cavano vs. Nora Hart Cavano

Um decreto de divórcio.

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