Capítulo 2 — A mesa dos retratos
A Mansão Cavalcante ficava num condomínio fechado na Barra, atrás de portões de ferro tão altos que o céu parecia recortado. Quando o carro entrou pela alameda de palmeiras imperiais, eu contei sete jardineiros. Sete. Na minha rua inteira não morava tanta gente.
Ninguém carregou as minhas malas. Eram só duas, afinal — tudo o que eu possuía no mundo cabia em duas malas de tecido com o zíper teimoso. Uma criada jovem, de uniforme cinza, olhou para elas e depois para mim com uma expressão que eu não soube decifrar, e me levou para um quarto no segundo andar. Não era o quarto de Eduardo. Eu reparei nisso e não disse nada. Casamentos arranjados não vêm com cláusulas de intimidade, e eu agradeci silenciosamente por isso.
— A senhora Dona Beatriz a espera para o almoço — disse a criada. — Ao meio-dia. Em ponto.
Em ponto. Eu já estava aprendendo a gramática daquela casa: tudo tinha hora, tudo tinha forma, e qualquer desvio era uma ofensa.
Desci às onze e cinquenta e oito.
A sala de jantar era do tamanho do meu apartamento inteiro. Uma mesa de jacarandá tão longa que parecia perspectiva de quadro renascentista, um lustre de cristal pesado como uma ameaça, e nas paredes — por toda parte — retratos. Gerações de Cavalcantes me olhando de molduras douradas, homens de bigode e mulheres de colar de pérolas, todos com a mesma expressão de quem nasceu sabendo que o mundo lhes devia alguma coisa.
Dona Beatriz já estava sentada à cabeceira. Eduardo, à direita dela. Dr. Otávio, à esquerda. E havia uma cadeira vazia. Não a minha — a minha estava mais adiante, longe. A cadeira vazia ficava ao lado de Eduardo, posta com talheres, taça, guardanapo dobrado em leque, como se esperasse alguém.
— Sente-se, querida — disse Beatriz, e a palavra "querida" caiu da boca dela como uma gota de vinagre. — Ali. Naquele lugar.
O meu lugar ficava de frente para um porta-retratos que alguém tinha colocado sobre a mesa, encostado num castiçal. Era a Isabela. Uma foto de noivado, ela rindo, deslumbrante, a mão esquerda exibindo um anel que eu agora usava no meu próprio dedo, porque tinha sido tarde demais para fazer outro.
Eu me sentei. Olhei para a foto da minha meia-irmã rindo para mim, e comecei a entender que tipo de almoço aquele ia ser.
A criada serviu uma sopa fria de aspecto elegante e gosto de nada. Dona Lúcia, a governanta, supervisionava de pé junto à parede, e duas criadas jovens aguardavam ordens. Beatriz esperou que todos estivessem servidos. Então pousou um pequeno caderno encadernado em couro ao lado do prato.
— Sabe o que é isto, Clara? — Ela abriu o caderno com cuidado de quem manuseia uma relíquia. — É o guia que preparei para a futura esposa do meu filho. Postura. Conversação. A lista das famílias com quem ela deveria cultivar amizade. As que ela deveria evitar. Levei meses montando. Para a Isabela. — Uma pausa cirúrgica. — Mas a Isabela não está aqui, está? Então vamos ter que improvisar com o que temos.
"Com o que temos." Eu senti as criadas trocarem um olhar.
Beatriz começou a ler. Em voz alta, devagar, saboreando cada item.
— "A noiva Cavalcante deve ter porte. A Isabela tem um metro e setenta e oito. Você tem quanto, querida? Um e sessenta e cinco? Hmm. Saltos vão ajudar, mas não fazem milagre." — Ela virou a página. — "A noiva Cavalcante deve saber receber. A Isabela falava três línguas. Você fala...?"
— Português — respondi. — E entendo bem o que está sendo dito em português agora.
Dr. Otávio ergueu os olhos da sopa, brevemente. Eduardo não levantou os dele em momento algum — mas eu reparei que ele tinha parado de comer.
Beatriz sorriu, sem nenhum calor.
— Que graça. A Isabela também tinha esse temperamento. Mas nela ficava charmoso. Em você... veremos. — Ela fechou o caderno. — Entenda, querida, eu não tenho nada contra você pessoalmente. É só que você não foi escolhida. Você foi substituída. É uma posição diferente. E é importante que você saiba qual é o seu lugar nesta casa desde o primeiro dia, para evitarmos constrangimentos no futuro.
Eu olhei para a cadeira vazia ao lado de Eduardo, posta para uma noiva que tinha fugido.
— A cadeira — eu disse. — É para a Isabela? Caso ela volte?
Beatriz inclinou a cabeça, e por um instante achei que tinha errado ao falar. Mas então ela sorriu de novo, dessa vez genuinamente satisfeita, como uma professora diante de uma aluna que finalmente entendeu a lição.
— Que perspicaz. Sim. Caso ela volte. Sempre é bom deixar a porta aberta para as pessoas que realmente queremos.
Eu não chorei. Quero deixar isso registrado, porque mais tarde muita gente perguntaria como eu tinha aguentado aquela mesa, aquele retrato, aquela cadeira. A verdade é que eu já tinha passado a vida inteira numa mesa parecida, só que mais barata. Eu sabia o que fazer com a humilhação. Você não engole. Você não rebate. Você guarda. Cada palavra, cada nome, cada testemunha. Você guarda tudo num lugar frio dentro de você, etiquetado e datado, porque um dia vai precisar.
Naquele almoço, eu guardei o caderno de couro. Guardei a frase "você não foi escolhida, foi substituída". Guardei os rostos das duas criadas que tinham ouvido tudo. E guardei, principalmente, uma coisa que ninguém na mesa percebeu: que Eduardo Cavalcante, o marido que eu não tinha querido, tinha empurrado para o lado, com dois dedos e sem dizer uma palavra, o porta-retratos da Isabela. Só um pouco. O suficiente para que, da posição dele, ela deixasse de me encarar.
Foi um gesto minúsculo. Mas eu guardei esse também.
