Capítulo 3 UM ACORDO

Lena estava em silêncio, olhando pela janela enquanto as luzes de Melbourne passavam voando. O jeito casual com que ele tinha dito aquilo, simplesmente jogando para ela que tinha uma proposta, fez sua mente disparar. Era absurdo, simplesmente não fazia sentido algum... O homem sentado ao lado dela era um estranho, um estranho em quem ela havia esbarrado no gala, com quem, por algum motivo, agora estava no carro e que acabara de lhe oferecer um acordo. Um acordo que poderia mudar sua vida, ou provavelmente arruiná-la.

Ethan Sinclair. Agora ela sabia quem ele era: o presidente da Sinclair Enterprises e um bilionário muito conhecido em Melbourne e além.

Ela mal tinha dito uma palavra desde que entrara no carro, principalmente porque não confiava em si mesma para dizer qualquer coisa que não soasse desesperada ou tola. O homem era um iceberg ambulante... era assim que a mídia sempre o descrevia. Frio e implacável, com pouca ou nenhuma tolerância para interações desnecessárias, a menos que fossem sobre negócios. Ele nem se dava ao trabalho de fazer conversa fiada e, de vez em quando, olhava para ela pelo canto dos olhos sem dizer uma palavra.

Por fim, ele falou.

— Você realmente quer salvar aquela sua galeria patética? — perguntou friamente. — Porque estou oferecendo uma saída.

Lena se virou para ele com uma expressão de deboche.

— Ah, é? E o que exatamente um bilionário como você quer em troca por me salvar dos destroços que observou tão gentilmente?

Ethan sorriu, mas continuou concentrado na estrada.

— Um casamento. Um casamento por contrato, na verdade, só para garantir minha herança.

Os olhos de Lena se arregalaram de forma quase selvagem, incapazes de acreditar no que ela acabara de ouvir.

— Um casamento por contrato? Você está falando sério? Você é louco.

Ele não se abalou com a reação dela, apenas continuou dirigindo.

— Estou falando sério... Se eu não estiver casado em três semanas, minha família vai me destruir, e eu vou perder a herança pela qual trabalhei duro a vida inteira. Mas você, Lena, está numa situação desesperadora e precisa de dinheiro... É bem simples: eu preciso de uma esposa, e você precisa de um benfeitor.

— Simples? Você quer que eu me case com você? — Ela soltou uma risada sarcástica. — E o próximo passo qual é, quer que eu entregue minha alma junto? Como você sequer sabe meu nome?

— Isso é irrelevante no momento. Se você for esperta, vai enxergar o valor disso — disse Ethan, com uma voz calma e objetiva. — Você teria dinheiro suficiente para quitar as dívidas da galeria do seu pai e nunca mais se preocupar em perdê-la.

Os olhos de Lena se estreitaram enquanto ela processava as palavras dele. A galeria, o legado de seu pai e tudo pelo que ela havia lutado a vida inteira. Ele tinha razão em um ponto, mas não havia a menor chance de ela facilitar isso para ele. Ela não era uma donzela em perigo, nem uma mulher para ser comprada e vendida com alguns zeros num cheque.

— Você acha que isso é uma transação comercial? — disparou ela, a voz ainda carregada de sarcasmo. — Eu não sou uma peça de barganha para ser usada no seu joguinho doentio. Você acha que pode simplesmente balançar um contrato na minha frente e eu vou me render?

Ethan olhou brevemente para ela e depois voltou a atenção para a estrada; sua expressão não revelava nada.

— É exatamente isso que eu penso, sim. Porque você está prestes a perder tudo, Lena. Você não tem outra opção, vai fazer o que for preciso para sobreviver, e no fim ainda vai me agradecer.

Lena pensou por um tempo antes de finalmente falar.

— Tudo bem. Digamos que eu esteja interessada na sua “proposta”. Qual é a pegadinha, Ethan? Porque eu não vou entrar num casamento de fachada sem saber que tipo de inferno você vai me fazer atravessar.

Ele olhou para ela com um lampejo sombrio nos olhos.

— Não tem nenhuma pegadinha especial, só um pedaço de papel e uma assinatura por um ano. Você não vai ser minha esposa no sentido tradicional, sem esse nonsense emocional, sem essa besteira de amor ou conversas sobre afeto. Só um nome num contrato. Você fica com a galeria, e eu fico com a minha herança.

Lena estreitou os olhos.

— Parece bom demais para ser verdade.

— Eu nunca ofereço nada que não me favoreça — disse ele friamente. — Mas não pretendo tornar isso difícil para você, se fizer seu papel com cuidado. Você não precisa fazer nada além de assinar seu nome e fazer o que eu mandar.

— Só assinar meu nome — ela repetiu amargamente, balançando a cabeça. — E você acha que eu simplesmente vou sair dessa sem pensar duas vezes?

— Se for inteligente, vai. — A voz de Ethan não mudou; continuava seca, sem emoção. — Se não for, vai perder tudo. Sua galeria, o legado do seu pai... tudo.

Eles seguiram em silêncio por um longo tempo, com Lena mergulhada em pensamentos e apenas lhe dando as direções de forma vaga quando ele perguntava.

Finalmente, eles chegaram.

Ethan desacelerou até parar em frente à galeria, e Lena olhou para fora. O pobre prédio estava tão decadente quanto na época em que ela o herdara pela primeira vez; as janelas estavam rachadas, e a tinta, antes vibrante, descascava como camadas de sua esperança se desfazendo. Ela não olhou para ele ao sair do carro; não queria, porque precisava de um momento para respirar, para deixar o peso se acomodar em seu peito antes de se virar para encará-lo.

Ethan a seguiu, seus passos pesados sobre o pavimento rachado. Ele parou diante da porta da galeria e ficou encarando o prédio com um desprezo evidente.

— Não é grande coisa de se olhar — disse Lena baixinho, com o orgulho rompendo o cansaço. — Mas é minha.

Ethan não disse nada. Tirou do bolso um cartão preto elegante e o entregou a ela; seus dedos roçaram os dela. Um arrepio percorreu seu corpo, e ela puxou a mão de volta rapidamente.

— Você tem três dias — disse ele por fim. — Olhe bem e pense com cuidado na minha oferta. O endereço do meu escritório e o número estão no cartão... Estarei esperando.

Ele se virou e voltou para o carro sem dizer mais nada.

Lena ficou parada diante da galeria, olhando fixamente para o cartão em sua mão. Será que ela conseguiria fazer isso? Será que conseguiria mesmo entregar a alma por um ano inteiro por uma galeria que talvez nunca mais valesse nada?... Ela não tinha certeza se estava disposta a fazer um pacto com o diabo, mas, sem mais nada a perder, talvez não tivesse escolha.

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