Capítulo 4 A GALERIA

Dois dias. Quarenta e oito horas de indecisão e de andar de um lado para o outro pelos corredores rachados da galeria decadente do pai, respirando o cheiro empoeirado de sonhos esquecidos e nunca realizados. Não era só uma galeria... era um legado que ele deixara para ela, e estava morrendo. Então Lena se recompôs e se vestiu, passou um batom e entrou direto na Sinclair Enterprises como se tivesse toda a intenção de conquistá-la.

O prédio era um monólito de aço e vidro que cintilava sob o sol. Uma fortaleza que parecia fria e vazia, muito como seu dono, mas que ao mesmo tempo falava de riqueza e grandiosidade. Ela nem olhou para a recepcionista de olhos arregalados antes de entrar no elevador e subir; observou seu reflexo, quebrado e multiplicado nas paredes espelhadas, e o coração ribombou como um tambor, mas seu rosto permaneceu impassível. Ela tinha feito sua escolha, e iria até o fim.

As portas do elevador se abriram e ela deu de cara com o escritório dele. Firmou-se, ajustou o vestido antes de bater e entrar. Ethan estava atrás de uma enorme mesa de mármore preto; vestia um terno de aparência caríssima, com punhos dourados, a habitual aura fria e arrogante girando ao redor dele.

— Senhorita Carter — cumprimentou, sem sorrir. — Pontual... estou impressionado.

— Acredite — disse ela, aproximando-se —, ninguém está mais surpresa do que eu.

Ele soltou um leve resmungo de divertimento, ou talvez de desdém, e então apontou para a cadeira do outro lado.

— Sente-se.

Como se ela fosse um bichinho desobediente.

Lena continuou de pé por mais alguns segundos, só para implicar e passar uma mensagem sutil de que ele não era dono dela. Então se jogou na cadeira com um suspiro dramático.

— Imagino que tenha vindo aceitar a minha proposta — disse Ethan, observando-a como um gato observa um pássaro que já quebrou a asa.

Ela ergueu o queixo.

— Não estou fazendo isso por você.

— Está fazendo isso pela galeria — disse ele, suave. — Qual é a diferença?

Sem dizer nada, ele abriu uma gaveta e tirou uma pasta grossa, colocando-a diante dela.

O contrato.

— Você já deixou pronto? — perguntou ela, claramente surpresa.

— Eu gosto de eficiência e gosto de estar preparado — respondeu. — E eu não aposto.

— Que arrogância, hein? — murmurou ela, abrindo a pasta.

Ethan nem piscou.

— Precisão.

Ela percorreu os termos do contrato: um ano de casamento, nenhuma reivindicação sobre bens além da quantia acordada, aparições obrigatórias em eventos corporativos, uma cláusula de confidencialidade que fez seu estômago revirar. E, ao final, a soma que ele prometera... o dinheiro que poderia salvar a galeria do colapso total.

— Isso é brutal — disse ela.

— É negócio.

Ela ergueu o olhar para ele.

— Você alguma vez faz alguma coisa que não pareça ter sido programada para uma máquina?

— Não — respondeu, sem hesitar. — Emoção é fraqueza, e planos bem feitos são poder.

Meu Deus, ele era insuportável. E, de algum jeito, assustadoramente atraente à sua maneira glacial. Com um gesto decidido, Lena assinou seu nome, embora parecesse que estava sangrando sobre a página.

Ethan pegou o documento de volta.

— Parabéns, senhorita Carter — disse, com a voz gelada. — Você está oficialmente noiva.

— Não pareça tão animado — retrucou ela, ríspida.

Antes que ele pudesse responder, a porta se escancarou.

— Me diga que eu não cheguei tarde demais pra estragar alguma coisa divertida — anunciou, alegre, uma nova voz.

Lena se virou e viu um homem entrando a passos largos... um rapaz bonito que parecia um pouco mais novo do que Ethan. Cabelos loiros despenteados, um sorriso deslumbrante e uma confiança casual que parecia iluminar o ambiente. Comparado à presença gélida de Ethan, aquele cara era uma fogueira.

— Hugo — disse Ethan, num tom que quase soava tolerante. — Conheça Lena Carter.

Hugo fez uma reverência exagerada.

— Encantado, senhorita Carter. Ou devo dizer... a futura senhora Sinclair?

Lena enrijeceu.

— Você está se adiantando, não acha?

— Nem um pouco — respondeu Ethan, frio. — Hugo vai ser meu padrinho.

Hugo se endireitou, as sobrancelhas subindo.

— Peraí. Você vai mesmo fazer isso? Vai mesmo se casar?

Ethan assentiu uma única vez, como se estivesse confirmando a previsão do tempo.

— O anúncio público vai ser hoje — acrescentou, com naturalidade. — O casamento acontece em alguns dias.

Lena piscou.

— Como é que é?

— Você achou que eu ia enrolar isso? — perguntou ele, o tom permanecendo gelado e impiedoso.

— A maioria das pessoas passa meses planejando um casamento — ela retrucou.

— Nós não somos a maioria das pessoas — disse Ethan. — E isto não é um conto de fadas, é um contrato.

— Você podia ao menos fingir que é romântico — ela resmungou.

— Eu não trabalho com ilusões — ele disse. — E lembre-se dos termos do nosso acordo.

Hugo assobiou baixo, claramente percebendo a tensão entre os dois como fios desencapados.

— Cara... vocês dois vão ser divertidos na lua de mel.

Ethan o ignorou, já puxando o celular e disparando ordens para alguém do outro lado da linha.

— Preparem a coletiva no átrio. Quinze minutos. Cobertura total.

Lena se levantou num salto.

— Você não está falando sério.

Ele encerrou a ligação e se virou para ela, sem um átomo de remorso no rosto.

— Se acostume. Você está prestes a ser a mulher mais observada desta cidade.

— Eu não assinei pra ser exibida como algum maldito troféu — ela sibilou.

— Você assinou pra salvar a sua galeria — disse Ethan, glacial. — E eu estou cumprindo.

Hugo soltou uma risadinha baixa no canto.

— Se serve de consolo, você é com certeza um upgrade de troféu em relação às companhias de sempre dele.

Lena fez uma careta.

— Eu não preciso da sua aprovação, raio de sol.

Hugo ergueu as mãos.

— Ei, sem ofensa. Eu gostei dela, Sinclair. Ela tem garra.

A boca de Ethan se contraiu. A menor das rachaduras na sua armadura congelada.

Quinze minutos depois, Lena estava ao lado de Ethan no átrio branco e reluzente da Sinclair Enterprises, cercada por câmeras piscando e repórteres murmurando. A mão de Ethan repousava de leve — porém possessiva — nas costas dela... um gesto para as câmeras, mas ainda assim o toque dele parecia uma marca. Quando a sala finalmente se aquietou, ele se aproximou do púlpito com uma expressão calma e letal no rosto.

— Agradeço a todos por terem vindo com tão pouca antecedência — começou ele, e sua voz fria calou cada cochicho. — Hoje tenho um anúncio importante a fazer sobre o futuro da Sinclair Enterprises.

Os repórteres se inclinaram para a frente, canetas a postos.

Lena se preparou.

— Daqui a alguns dias — continuou Ethan, suave — eu vou me casar.

Um suspiro coletivo percorreu a sala, e ele virou um pouco o corpo, fixando Lena com um olhar estranhamente possessivo.

— Com Lena Carter — concluiu, a voz firme.

A sala explodiu em caos... gritos, flashes, perguntas atiradas como pedras. E Lena, rígida ao lado dele, entendeu com uma clareza brutal... que agora não havia mais volta.

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