CAPÍTULO 2
ALINA
O salão de baile brilhava como uma mentira. Lustres de cristal pingavam luz sobre o mármore, deixando tudo dourado e falso.
As risadas batiam nas paredes, misturando-se ao som educado do quarteto de cordas e ao tilintar das taças de champanhe.
Mulheres em armaduras de seda giravam sob os braços de homens que cheiravam a dinheiro velho e pecados mais velhos ainda.
Eu estava de pé num vestido que parecia uma jaula, cercada pelos “associados” do meu pai — homens grisalhos com relógios pesados e olhares mais pesados ainda, suas esposas agarradas às pérolas como se fossem boias salva-vidas.
Eu sorria o sorriso que vinha treinando desde os doze anos — aquele que dizia que eu estava encantada de estar ali, enquanto o meu cérebro gritava, em silêncio, que eu preferia dar um beijo de língua num cortador de grama.
Meu pai — Arthur Santini — tinha torrido o resto da herança nesse espetáculo.
Eu odiava essas porras de festas.
Meu pai — Arthur Santini — tinha torrado o resto da herança nessa festa.
O dinheiro que podia ter pago um mísero mês sem a luz piscando e desligando. Sumiu. Derramado em vinho que ia virar mijo de manhã, em flores que iam murchar, numa farsa que não enganava ninguém que realmente importasse.
Por quê?
Porque ele ainda acreditava em aparências.
Porque achava que, se conseguisse me exibir como um troféu, alguém ia assinar um cheque grande o bastante pra salvar a gente.
Porque ele nunca via a ruína se aproximando — só via o próximo negócio.
E lá estava eu, fazendo o papel de filha obediente. Sorrindo quando sorriam pra mim.
Fingindo que o buraco roendo no meu peito não existia.
A voz do meu pai cortou o barulho como uma lâmina.
— Vem, querida. Venha dar um oi para o Robert. Ele tem perguntado de você.
O nome desceu pela minha coluna como água gelada.
Robert, caralho, Santos.
— Eu… eu tava justamente indo…
A mão dele se fechou em volta da minha — com força.
Unhas cravando na pele macia entre os meus dedos, um aviso que eu conhecia bem demais.
Ele se inclinou, o bafo quente contra o meu ouvido, a voz baixa e venenosa.
— Você não quer ficar trancada no porão de novo, quer? Vem logo, porra, cumprimentar ele.
A ameaça acertou como um tapa.
Lembranças relampejaram: pedra fria, escura. A porta se fechando.
Horas de silêncio até eu começar a implorar.
Engoli o enjoo e deixei que ele me puxasse.
Relutante, fui atrás dele pelo meio da multidão, meus saltos estalando no mármore como tiros.
Ele me conduziu até um homem que esperava perto do bar — alto, grisalho, terno impecavelmente talhado. Robert Solas.
O mesmo sorriso aberto demais.
Os mesmos olhos que sempre demoravam um pouco demais em mim.
Ele frequentava a nossa casa há anos — amigo da família, sócio, seja lá qual fosse a mentira que meu pai contava pra si mesmo.
A cada visita, a mão dele roçava a minha lombar quando ninguém estava olhando.
Deslizava pelo meu braço.
Descansava na minha coxa embaixo da mesa de jantar enquanto ele ria das piadas do meu pai.
Eu travava, o estômago revirando, esperando aquilo parar. Nunca parecia acidental. Sempre parecia posse.
— Robert — disse meu pai, a voz carregada de falsa animação, orgulhoso como se estivesse exibindo um carro novo.
Cerrei os punhos com tanta força que minhas unhas se cravaram nas palmas.
— Você está deslumbrante, querida — ele ronronou, a voz oleosa, escorregando pelas palavras como se as provasse.
Os dedos dele roçaram no meu braço nu — de leve, mas de propósito.
Um arrepio de repulsa correu por mim, frio e afiado.
Dei um passo para trás, no instinto.
O sorriso dele se alargou, divertido, como se o meu recuo fosse algum tipo de preliminar de que ele gostasse.
Tudo nele me causava nojo — o perfume forte demais, sufocando o ar entre nós; o jeito como os olhos dele nunca encontravam os meus, sempre descendo; a posse casual naquele toque que demorava, como se ele já tivesse direito à minha pele. Eu queria gritar.
Queria dar um tapa na mão dele.
Queria sair correndo pela saída mais próxima e nunca mais olhar para trás.
Em vez disso, forcei as palavras para fora, a voz fina e educada, a mentira com gosto de cinza na minha língua.
— Senhor Santos — falei, mal conseguindo forçar o sorriso.
Os olhos de Robert se franziram nos cantos.
— Você sabe que eu não gosto que me chame assim, meu bem. Me faz parecer velho.
É porque você é velho, seu idiota de merda.
Imaginei dizendo isso em voz alta — vendo o falso charme dele rachar, aquela boca grande demais se retorcer. Mas não disse. Eu nunca dizia.
Em vez disso, inclinei a cabeça, amaciando a mentira.
— Desculpa… Robert.
Ele deu uma risadinha, baixa e satisfeita, dando meio passo na minha direção.
O perfume me atingiu de novo — denso, almíscarado, caro do pior jeito possível.
— Assim está melhor. Bem melhor. — O olhar dele caiu de propósito para a minha boca e depois mais para baixo, demorando na gola do meu vestido como se estivesse avaliando uma compra.
— Você cresceu e ficou linda, Alina. De verdade. Seu pai deve estar orgulhoso.
Meu pai está orgulhoso da etiqueta de preço que você pode colocar em mim, não de mim.
Engoli o enjoo que subia pela minha garganta.
— Obrigada — consegui dizer, a voz pequena e educada — a boneca perfeita.
A mão dele subiu, os dedos roçando a pele descoberta logo acima do meu cotovelo — leve, mas deliberado.
O mesmo toque que ele usava quando eu tinha quinze, dezesseis, dezessete anos. Sempre “acidental”.
Sempre quando ninguém estava prestando atenção de verdade.
Minha pele se arrepiou de nojo com o contato.
— Eu estava justamente comentando com o Arthur o quanto eu estava ansioso por esta noite — ele continuou.
— Uma jovem como você… tão cheia de potencial. — A palavra saiu baixa, melosa, do jeito que homens como ele dizem “potencial” quando o que realmente querem dizer é disponível.
Ele se inclinou mais perto, o hálito trazendo aquele leve gosto metálico de uísque caro e perfume de homem mais velho que provavelmente tinha saído de moda antes de eu nascer. A voz dele caiu naquele tom íntimo que homens nojentos guardam para propostas disfarçadas de elogios.
— Sabe, querida, uma garota com os seus… atributos… pode ir longe no nosso mundo. Muito longe. Eu ficaria mais do que feliz em te mostrar o caminho. Pessoalmente.
A insinuação ficou ali, pesada e enjoativa.
Meu estômago deu um nó tão forte que achei que fosse vomitar bem em cima dos sapatos engraxados dele.
— Isso parece… interessante — menti, as palavras soando frágeis. Fui puxando meu braço de volta, tentando desfazer o toque sem deixar muito na cara.
Ele não soltou de imediato.
Os dedos apertaram por um segundo — possessivos — antes de largarem com um deslizar relutante.
— Não seja tímida, meu bem. A gente já é praticamente da família. — Outra risadinha, como se a gente estivesse compartilhando uma piada particular.
— Me diz, o que uma garota linda como você quer? Eu posso te dar qualquer coisa. É só pedir.
Quero que você entre em combustão espontânea.
Quero que meu pai desenvolva uma alergia súbita a dinheiro e cale a boca.
Quero que um portal se abra debaixo dos meus pés e me jogue em qualquer outro CEP deste planeta. Pontos extras se for um lugar com wi-fi e zero velhos tarados.
— Não precisa… — falei em vez disso, o sorriso tremendo como se estivesse tendo uma pequena convulsão.
— Mentirosa — ele caçoou, a voz baixando, íntima, conspiratória.
— Eu sempre sei quando uma mulher está escondendo o que quer de verdade.
Vou vomitar.
Os olhos dele brilhavam com algo escuro e paciente — como o de um homem que sabe que vai conseguir o que quer, cedo ou tarde.
— Se o senhor me dá licença… — comecei de novo, mais firme desta vez, já me virando.
A mão dele agarrou meu pulso —
— Tão cedo?
— É. Eu preciso muito ir ao banheiro — falei, colocando o máximo de urgência na voz —
— Tipo, nível emergência. Foi uma noite longa de canapés minúsculos e drinques. Meu intestino está em rebelião. Se eu não chegar ao trono de porcelana nos próximos noventa segundos, todo mundo vai ler sobre isso na coluna social amanhã, com a manchete “Herdeira Santini causa incidente internacional no toalete”.
Um segundo. A boca dele tremeu —
— Certo, então… — murmurou,
— A gente conversa mais depois.
Assenti — dura, mecânica — e me afastei, as pernas bambas, o som dos saltos alto demais nos meus ouvidos.
Atrás de mim, ouvi meu pai chamar meu nome de novo, a irritação marcando cada sílaba.
Eu não parei.
Eu não conseguia.
A mão dele se fechou no meu pulso antes que eu desse dez passos — forte, implacável.
Ele me puxou para o lado, arrastando-me para um recuo sombrio fora do salão principal, longe das luzes brilhantes e dos olhares curiosos.
No momento em que ficamos fora de vista, ele me virou à força pra encará-lo, os dedos cravando no meu braço como se quisesse deixar marcas.
— Que diabos foi aquilo? — ele sibilou, a voz baixa e venenosa.
— O quê? Eu precisava usar o banheiro. A natureza chamou. Alto. Com sirenes.
— Não mente pra mim, porra, Alina.
Puxei meu braço de volta com força.
— Ele tava encostando em mim. Olhando pra mim como se—
— Como o quê? — ele cortou, os olhos frios.
— Como um homem que tá interessado? Como um homem que pode salvar a gente? — Ele se inclinou mais perto, o hálito quente contra o meu rosto.
Meu estômago deu um nó. — Ele é nojento.
— Ele é útil. — A voz de Arthur desceu pra um sussurro perigoso.
— E você vai voltar lá, sorrir e deixar ele olhar. Deixar ele encostar. Deixar ele pensar o que quiser. Porque eu preciso desse acordo, Alina. E você vai fazer isso acontecer.
As unhas dele pressionaram mais fundo na minha pele — aviso, promessa e ameaça ao mesmo tempo.
Fiquei olhando pra ele, o peito apertado, a música do salão de baile de repente distante e zombeteira.
— Tá bom — falei, a voz rachando como gelo fino.
— Mas antes eu preciso do banheiro — ou é melhor eu mijar bem ali na frente dele? Poupa todo mundo do trabalho de fingir que isso aqui é civilizado.
O rosto do meu pai escureceu na mesma hora — o maxilar travado, os olhos prometendo represália depois.
Eu não esperei ele se recompor.
— Alina—
Eu não olhei pra trás.
A escada virou um borrão debaixo dos meus pés.
Subi sem diminuir o passo, o fôlego vindo em arfar curtos. O barulho do salão foi ficando num ronco distante atrás de mim — risadas, música, taças tilintando—
A porta do meu quarto se fechou com um clique suave e definitivo. O silêncio entrou às pressas, denso e misericordioso.
Eu atravessei até o espelho com as pernas trêmulas, os dedos roçando na renda do decote como se aquilo pudesse me manter inteira.
Soltei o ar — longo, irregular — observando meu reflexo: bochechas coradas, olhos arregalados, uma garota fantasiada no pesadelo de outra pessoa.
As luzes piscaram uma vez.
Duas.
Uma sombra se desprendeu do canto—
Que porra é essa.
Antes que eu pudesse me virar, uma mão tampou minha boca — áspera, calejada, cheirando a couro e óleo de arma.
Meu grito se esfarelou num arquejo abafado quando minhas costas bateram na parede com força suficiente pra arrancar o ar dos meus pulmões.
Minha cabeça chocou no reboco. A dor explodiu branca atrás dos olhos; estrelas surgiram e dançaram.
Me debati — selvagem, instintiva — as unhas arranhando o braço que me prendia, as pernas chutando em vão contra um músculo que não cedia.
O pânico inundou cada nervo, quente e elétrico.
Então veio a mordida fria do aço — o círculo perfeito do cano encostando na minha têmpora.
Eu paralisei.
O corpo dele colou no meu, sólido e inamovível. O hálito roçou meu ouvido, baixo e letal, vibrando pelo osso.
— Emite um som — ele murmurou, a voz como cascalho arrastado sobre seda — e eu estouro essa sua cabecinha bonita.
