Capítulo 1 Prólogo - Um beijo roubado
“Espere pelo seu castigo, Raven. Você perdeu a aposta, e eu perdi minha chance com Mason Holden”, disse Katherine Reed, contrariada, a melhor amiga de Raven Porterfield. As duas tinham vinte anos e cursavam bacharelado em Tecnologia em Gestão da Produção de Vestuário na principal faculdade de moda de Londres, a Coventry College of Fashion.
“Que castigo? Ah, qual é, Kate, não era uma aposta séria”, disse Raven, com uma expressão de aflição no rosto.
“É uma pena que o Mason tenha arranjado uma namorada antes que você pudesse confessar o que sentia por ele, amiga”, disse Mary Ann Harris, outra colega de classe, apoiando Katherine.
“Então, que castigo a gente deve dar pra Raven? Hum, pensem aí, pessoal”, disse Jeffrey Lee, namorado de Mary Ann, também da turma. Duas semanas antes, eles tinham apostado se Mason Holden era hétero ou não. Ele era absurdamente bonito, mas não demonstrava interesse por garota nenhuma. Kate era apaixonada por ele, e a possibilidade de ele não gostar de garotas a deixava preocupada. No entanto, quando Mason apresentou sua namorada, Mia Bradshaw, aos amigos mais próximos antes da última aula, o coração de Kate se partiu.
Era hora do almoço, e eles chegaram ao Little Cafe, um café movimentado ao lado do campus, que era o ponto de encontro habitual deles. O lugar estava sempre lotado de estudantes de diferentes departamentos a qualquer hora do dia. Pessoas de fora quase nunca apareciam naquele hospício, e sempre faltavam lugares para sentar. Kate emburrara e colocava a culpa em Raven, já que tinha sido teoria dela que Mason não gostava de mulheres. Ela se censurava por ter dado ouvidos a Raven!
“Eu sei o que a Raven pode fazer”, começou Sabrina Riley, famosa por suas ideias esquisitas. Raven gemeu e se levantou, recusando-se a aguentar as maluquices deles.
“Quando vocês inventarem alguma coisa, me avisem. Eu vou voltar pra aula.” Ela temia o que Sabrina pudesse pedir que ela fizesse.
“Você não vai a lugar nenhum, Raven. Senta e escuta o seu castigo.” Raven viu a expressão irritada no rosto da melhor amiga e suspirou.
“Olha, Kate. E daí se ele tem namorada? Ele não é casado com ela. Você ainda pode mostrar que se importa. Corre atrás dele”, disse Raven, tentando se salvar das ideias de Sabrina.
Raven era uma garota muito pé no chão, prática, que preferia ficar longe de toda aquela loucura. Os pais dela eram engenheiros da computação e tinham sua própria empresa de desenvolvimento de software. Eles se decepcionavam com a falta de interesse dela por computadores e viviam tentando provar que Produção e Gestão de Vestuário era um desperdício de dinheiro. Como filha única, depositavam grandes esperanças nela, todas destruídas no dia em que ela escolheu sua própria área de estudo.
“Seja como for, você perdeu a aposta, então seja esportiva e aceite o seu castigo”, disse Kate. Raven suspirou, sabendo que não havia como escapar do castigo que Sabrina agora arranjaria para ela.
“Tá bom, manda.”
“Beije o primeiro cara que entrar no café usando terno”, disse Sabrina, e todos comemoraram em concordância, enquanto Raven arregalava os olhos, horrorizada.
“Nem pensar, gente, eu já tenho namorado. Inventem outra coisa, por favor”, disse Raven, pensando no irritante Frank Bradley, com quem namorava havia dois anos. As famílias deles eram próximas, e ela o conhecia havia dez anos.
“Você chama ele de namorado? Vocês nem se beijaram”, disse Richard Fox, outro colega de turma.
“Claro que sim”, rebateu Raven, fulminando Richard com o olhar. Ela se lembrou dos selinhos na bochecha que Frank dava nela toda vez que se encontravam. Ele estava no quarto ano de medicina e mal tinha tempo para vê-la.
“Ah, qual é, a gente sabe como é a sua relação com o Frank. Agora, voltando ao castigo. Faz o que a Sabrina falou, senão, pelos próximos seis meses, você vai pagar nossas contas de comida na faculdade”, disse Kate, ainda emburrada. Raven lançou um olhar para ela. Por que ela estava agindo como uma rainha do drama? Como se Mason fosse se casar com ela se ela tivesse se declarado!
“Olha, Raven, você está bem segura com esse castigo. Você sabe que ninguém usa terno aqui. Os professores mal vêm aqui”, disse Mary Ann, e Raven sorriu para ela, aliviada. Na verdade, ela tinha razão! Ninguém nunca usava terno ali, então talvez ela saísse dessa sem ter que fazer absolutamente nada.
“Tá bom, relaxem, gente. Eu faço”, aceitou por fim, lançando um olhar ao redor. Como ela esperava, o lugar estava fervilhando de estudantes vestidos casualmente.
Seus amigos comemoraram. “Aê! Esse é o espírito, Raven. Seu tempo começa agora”, disse Jeffrey. Eles tomaram café enquanto esperavam algum cara de terno entrar. Depois de quinze minutos, Raven olhou para os amigos.
“Acabou?” perguntou ela, com um sorriso de alívio no rosto.
— Não, mais dez minutos — disse Sabrina, olhando as horas no celular.
Raven continuou sentada, observando e esperando. Mais dez minutos e estaria livre do castigo. Distraída, rolando a tela do próprio celular, ela ergueu os olhos quando Sabrina a cutucou de repente e apontou em silêncio para a entrada do café. Todos os seus amigos estavam paralisados, como se tivessem visto um fantasma. Raven virou a cabeça para ver por si mesma o que estava acontecendo.
Seus olhos quase saltaram do rosto ao ver um estranho deslumbrante, vestindo um terno xadrez azul-marinho que destacava seu porte alto e musculoso. De onde aquela criatura tinha saído? Então ela se lembrou do castigo que precisava cumprir naquele momento.
— Eu não acredito nisso! — disse, chocada.
Sabrina a puxou para se levantar enquanto ela encarava, boquiaberta, aquela visão de dar água na boca.
— Vai — murmurou Kate com uma risadinha, vendo a expressão de pavor no rosto da amiga.
Raven resmungou palavrões contra a própria má sorte. O homem parecia ter saído direto de uma revista de moda.
Raven caminhou lentamente em direção a ele, rezando para que aquele suplício acabasse logo e ela pudesse simplesmente desaparecer, sem nunca mais vê-lo. Os olhos do homem de repente pousaram nela à medida que se aproximava. Ele ficou imóvel, observando-a como um falcão. Raven corou sob a intensidade daquele olhar verde e hipnotizante. Meu Deus! Aquilo era tortura. Por que ele tinha que ficar olhando para ela? Ela podia simplesmente tê-lo beijado e fugido antes que ele percebesse.
Raven parou diante dele enquanto ele a encarava de cima, com os olhos semicerrados. Ela corou ainda mais, o coração disparando feito louco. Por que o homem precisava ser tão alto, droga? Evitando seu olhar hipnótico, ela apenas ficou na ponta dos pés e tentou dar um beijo em sua bochecha. Porém, como a sorte nunca estava do lado dela, o homem virou o rosto, e o beijo acabou pousando em seus lábios macios e quentes.
Antes que ela pudesse escapar da cena, os dedos dele se enroscaram em seus cabelos e ele tomou seus lábios com fome. Um arquejo escapou da boca de Raven, e ele aproveitou para deslizar a língua em sua boca deliciosa, saboreando-a por completo. O café inteiro mergulhou em silêncio enquanto todos assistiam àquele estranho drama.
Ele a soltou de repente, e Raven cambaleou para trás, o rosto vermelho de incredulidade. Sem condições de encarar ninguém, ela simplesmente saiu correndo do café, morta de vergonha. Seus amigos a chamaram, mas ela não deu ouvidos a ninguém.
— Raven, espera — disse Mary Ann, sentindo-se mal por ela.
— Raven, desculpa, espera — disse Richard, mas ela não parou para ouvir o pedido de desculpas. O que a fizera concordar com uma coisa dessas?
Por que aquele homem tinha que roubar seu primeiro beijo? Ela o havia guardado para Frank. Tocou os lábios latejantes, ainda inchados por causa daquele beijo apaixonado. A quem ela queria enganar? Não fazia ideia de que um beijo podia ser tão intenso. Ainda conseguia sentir o gosto mentolado da boca dele, deixando seu corpo inteiro formigando. Felizmente, não havia ninguém por perto quando chegou à sala de aula. Inspirando e expirando profundamente para acalmar os nervos, ela se sentou e fechou os olhos. Por mais que tentasse, não conseguia afastar da mente as lembranças do beijo. Aquilo sim era tortura! Graças a Deus, ela nunca mais o encontraria. Abriu o livro e tentou desviar a atenção, mas sem sucesso.
— Aí está você — disse Kate. — Me desculpa, Raven — acrescentou, em tom arrependido.
— Por favor, me deixa sozinha — disse ela, decepcionada com os amigos. Eles podiam ter dado a ela qualquer outro tipo de castigo, mas não; tinham que inventar o pior castigo possível. Ela sentia como se tivesse traído a confiança que Frank depositava nela.
— Eu nunca imaginei que você realmente teria que fazer aquilo, Raven. Me desculpa — disse Sabrina, sentando-se ao lado dela.
— Vocês podem, por favor, me deixar em paz? Eu fiz o que vocês me pediram — disse ela, levantando-se e indo para o banheiro. Conferiu no espelho o rosto corado. Ela estava mesmo com cara de quem tinha sido completamente beijada.
— As entrevistas no campus começam em cinco minutos, Janet, anda logo — disse uma voz do lado de fora do banheiro.
— Já vou, um minuto — respondeu a garota, ocupada retocando a maquiagem.
— Que entrevistas no campus? — Raven perguntou a ela.
— Você não sabe? — perguntou a garota, e Raven balançou a cabeça. Ela não fazia ideia do que estava acontecendo além dos próprios estudos.
— O chefe de produção da principal casa de moda, a JC Group Inc., vai conduzir entrevistas no campus da nossa faculdade. Eles estão procurando estagiários para entrar na empresa. Daqui a cinco minutos, a entrevista e a seleção vão começar no nosso auditório. Está aberto para todo mundo. Estou retocando a maquiagem para isso — disse ela com uma risada nervosa, afastando-se e rebolando ainda mais ao andar.
Raven revirou os olhos. Um estágio parecia uma boa ideia. Seus pais não teriam que gastar seu precioso dinheiro com sua educação inútil se ela conseguisse o emprego. Então saiu do banheiro em direção ao auditório, determinada a tentar a sorte.
