Capítulo 1 Capítulo 01
SEBASTIAN
O visor do meu celular criptografado vibrava incessantemente sobre a madeira nobre, exibindo relatórios financeiros devastadores que confirmavam o pior: um rombo de dezenas de milhões nas minhas contas offshore, orquestrado por alguém de dentro da própria diretoria. A minha cabeça latejava com uma intensidade dolorosa, o sistema nervoso completamente esmagado por uma sucessão de traições que ameaçavam desestabilizar todo o império que levei anos para consolidar. Eu estava no limite absoluto da sanidade, respirando pura exaustão e ódio reprimido, quando o som estrondoso de uma porta batendo com força descomunal contra a divisória de vidro estilhaçou o resquício de autocontrole que me restava.
O impacto foi tão violento que fez os copos de cristal tilintarem na bandeja lateral. Sem sequer erguer o rosto para identificar o infeliz que ousava invadir o meu santuário privado no pior momento possível, descarreguei toda a fúria acumulada em um tom de voz letal, cortante e visceral:
— Perdeu totalmente o juízo ou tem tendências suicidas para entrar na minha sala sem ser anunciada? Quem você pensa que é para escancarar essa porta desse jeito, sua desmiolada? Saia daqui imediatamente antes que eu ordame aos seguranças que a retirem à força deste prédio!
Quando finalmente levantei os olhos injetados de sangue, fuzilando o espaço à minha frente com uma hostilidade capaz de congelar o ar, deparei-me com uma figura estática no centro do escritório.
Ela não deu um passo para trás. O peito subia e descia em um ritmo acelerado, denunciando a descarga de adrenalina, mas a sua voz saiu perfeitamente limpa, firme e cortante, ignorando completamente o meu surto de raiva:
— Sou a nova secretária, senhor.
Um riso seco, cínico e carregado de uma arrogância implacável ecoou pelos cantos da sala. Eu não tinha a menor paciência para lidar com estreantes, muito menos naquele dia em que o meu mundo parecia ruir. Inclinei o meu tronco agressivamente sobre a mesa, reduzindo a distância física para esmagá-la com o peso do meu desprezo:
— Nova secretária? A Antônia claramente perdeu o pouco de lucidez que lhe restava no último dia de contrato para me enviar uma criatura tão insignificante e petulante. Você não tem o menor perfil, a menor qualificação e absolutamente nenhum estofo psicológico para suportar a pressão deste cargo. Não passa de uma intrusa perdida que acha que pode brincar de executiva aqui dentro. Garanto que não vai durar nem vinte e quatro horas antes de fugir chorando por aquela mesma porta.
O impacto daquelas palavras duras, ditas com a crueldade fria de quem estava disposto a destruir qualquer obstáculo, despencou sobre os ombros de Kamilly como uma bigorna de chumbo. Sentindo o peso esmagador daquela hostilidade gratuita, ela tencionou os músculos do pescoço, fechou os olhos por uma fração de segundo para conter a onda de indignação e, lentamente, abaixou a cabeça, absorvendo o golpe do choque inicial enquanto a humilhação roía o seu orgulho.
O silêncio que se seguiu foi denseo, cortante, carregado de uma eletricidade perigosa. Eu observei cada detalhe daquela rendição momentânea, esperando vê-la desmoronar, soluçar ou simplesmente dar meia-volta e aceitar a derrota como todos os outros faziam.
Mas a trégua durou apenas o tempo de um suspiro.
Lentamente, Kamilly ergueu o rosto de volta. Os olhos castanhos, antes contidos, agora queimavam com um brilho desafiador e indomável que me pegou totalmente desprevenido. A vulnerabilidade de segundos atrás evaporou, substituída por uma altivez cortante.
— Terminou o seu discurso de intimidação, senhor Sebastian? — perguntou ela, a voz perfeitamente controlada, embora carregada de uma coragem que beirava a insensatez. — Porque se o senhor achava que eu iria me encolher na primeira grosseria e pedir demissão, lhes informo que perdeu o seu tempo. Eu não atravessei a cidade para ser tratada como um saco de pancadas para os seus dias ruins.
A audácia daquela resposta atingiu-me como um soco no estômago. Ninguém, absolutamente ninguém na história recente desta corporação, havia ousado me responder daquela maneira após um esporro, muito menos no primeiro dia de trabalho. A minha mandíbula travou com tanta força que os dentes estalaram.
— Você tem uma coragem deplorável para quem está a um segundo de ir para a rua — retruquei, levantando-me lentamente da poltrona, impondo toda a minha altura e a minha presença intimidadora enquanto dava a volta na mesa para me aproximar dela. — Não confunda a minha tolerância momentânea com fraqueza. Aqui dentro, quem dita as regras, quem decide quem fica e quem é esmagado sou eu. Você não passa de uma funcionária substituível.
Kamilly não recuou um único centímetro. Mesmo tendo que erguer o queixo consideravelmente para sustentar o meu olhar, ela permaneceu firme como uma rocha diante do perigo.
— Substituível ou não, eu estou aqui para trabalhar e organizar o caos que o senhor evidentemente não consegue gerir sozinho — disparou ela, sem pestanejar, cruzando os braços com a mesma postura desafiadora. — O senhor pode gritar o quanto quiser, pode destilar toda a sua arrogância acumulada e tentar me fazer sentir inferior. Mas não vai conseguir. Se o meu trabalho for ruim, demita-me por incompetência técnica. Mas se me julgar apenas pelo seu ego ferido, estará provando que o grande bilionário tem medo de uma mulher que não abaixa a cabeça para o seu teatro de tirano.
O escritório inteiro pareceu parar de respirar. O meu sangue ferveu de uma forma tão violenta que por um instante eu não soube se queria demiti-la imediatamente ou segurá-la pelos ombros e sacudi-la até que compreendesse com quem estava lidando. Aquela garota simples, sem conexões, sem sobrenome e sem privilégios, estava peitando o homem mais temido daquele setor com uma precisão cirúrgica.
Fiquei a centímetros dela, respirando o mesmo ar pesado, sentindo a proximidade que desafiava todas as barreiras profissionais. A raiva pura competia no meu peito com um fascínio magnético e totalmente indesejado.
— Você é perigosamente atrevida, Kamilly — sussurrei, a voz reduzida a um rosnado baixo, perigosamente próximo ao seu ouvido, enquanto testava os limites da sua resistência. — E essa sua língua afiada ainda vai cavar a sua própria cova neste escritório.
Ela manteve a respiração firme, o olhar fixo no meu sem vacilar por um único segundo, demonstrando que o fogo que habitava nela era tão intenso quanto o meu.
— Então sugiro que compre uma pá bem grande, senhor — respondeu ela, com um sorriso irônico e desafiador nos lábios. — Porque eu vim para ficar.
E, sem esperar o meu aval, ela virou as costas com uma elegância irretocável, caminhou até a mesa designada ao lado da porta e sentou-se, abrindo a primeira pasta de documentos com uma serenidade insultante.
Fiquei estático no centro da sala, encarando as costas dela, sentindo o meu mundo de gelo e controle absoluto começar a tremer sob os meus pés. Eu sabia que aceitar aquela mulher por perto seria o maior erro da minha vida corporativa.
Mas, pela primeira vez em anos, o erro parecia infinitamente mais atraente do que a perfeição.
