Capítulo 4 Capítulo 04

 — SEBASTIAN

Retornei à minha poltrona, mas a imagem dela não se desvaneceu da minha mente. Aquela resposta serena, aquele tom de igualdade, como se eu fosse apenas um executivo comum e não o homem cujo nome faz estremecer os corações mais endurecidos deste submundo… aquilo me corroía de uma forma que eu não conseguia nomear nem controlar.

Peguei a caneta e forcei-me a assinar os documentos empilhados à minha frente, mas os olhos percorriam as linhas sem registrar uma única palavra. Cada segundo, eu a sentia ali — silenciosa, focada, sem o menor tremor nas mãos, sem o olhar baixar sequer um instante. Ninguém age assim. Ninguém. Eu poderia desmembrar um império diante de testemunhas e eles ainda assim temeriam respirar alto na minha presença. E ela? Ela me encarou e disse, com a clareza de quem afirma ser dia, que não teme a minha sombra.

— Você é teimosa — escapou-me em voz alta, antes que conseguisse frear a língua.

Ela não parou de escrever imediatamente, mas quando virou o rosto na minha direção, o queixo permaneceu erguido, os olhos claros e calmos como se estivéssemos debatendo o clima, não negociando território com um predador.

— E o senhor é desconfiado — devolveu, suave e firme na mesma medida. — Isso pode custar ao senhor pessoas verdadeiras. Julgue o meu valor pelo que entrego, não por quem eu sou.

Apertei a caneta com tanta força que o plástico estalou entre os meus dedos. Que insolência. Que maldita petulância. Uma garota que acabava de cruzar a minha porta ousava me dar lições de humanidade? De perspicácia?

Com um movimento brusco, me levantei, a cadeira rangendo sob o meu peso sobre o piso de madeira escura. Contornei a mesa em passos pesados e parei diante dela, tão próximo que podia sentir o aroma singelo e puro do seu perfume. Eu sou mais alto, mais largo, construído para ocupar espaço e intimidar. Ela não recuou nem um centímetro. Ficou ali, de pé, pequena em estatura mas imensa em postura, olhando para mim como se fôssemos feitos da mesma matéria.

— Você compreende que eu posso obliterar a sua existência antes do almoço? — rosnei, baixo e perigoso, deixando que cada palavra pesasse como uma sentença. — Posso mandá-la embora e garantir que nenhuma porta se abra para você nesta cidade. Posso muito mais do que isso. E ainda assim, você permanece aí, me encarando como se eu não fosse nada?

— O senhor pode tudo isso — admitiu, sem hesitar, sem pestanejar. — Mas não vai. Porque o senhor não é mau por essência. É apenas… ferido. E fere os outros para não se sentir tão sozinho nessa fortaleza que construiu ao redor de si mesmo.

Fiquei petrificado. Como se ela tivesse me desferido um soco direto no plexo solar. Ninguém. Ninguém jamais ousou olhar para mim e ver algo além do medo e do poder. E essa mulher, essa estranha sem passado nem conexões, havia acabado de expor a minha ferida mais profunda como se fosse algo óbvio, visível a todos menos a mim mesmo.

Dei um passo para trás, como se o ar ao redor dela queimasse. O coração martelava no meu peito, descontrolado, e eu odiava essa perda de domínio. Odiava que ela conseguisse desestabilizar as minhas fundações com uma única frase.

— Cale a boca — ordenei, áspero, virando-lhe as costas. — Não sabe o que diz. Não tem a menor ideia de quem eu sou ou do que carrego.

— Então me mostre — propôs, suave, sem recuar. — Mostre que estou errada com atitudes, não com ameaças. Prove que eu me enganei sobre o senhor.

Olhei por cima do ombro e encontrei aquele olhar inabalável. Aquela postura… era como ver um raio de sol rasgando uma tempestade que eu julgara eterna. Eu queria odiá-la por isso. Queria mandá-la sair e trancar a porta para sempre. Mas a verdade, dura e inegável, era que eu não conseguia desviar os olhos dela.

— Termine os contratos — disse, a voz saindo mais ríspida do que pretendia. — E limite-se ao essencial. Aqui não é espaço para análises filosóficas.

— Sim, senhor — respondeu, e pude ouvir o leve sorriso em sua voz. — E o senhor verá que eu não vim aqui para falar. Vim para fazer.

Retornei à minha poltrona e abri um documento, mas as palavras se embaralhavam diante dos meus olhos. A cada instante, eu a observava — mais vezes do que jamais admitiria — e sentia aquela rachadura na minha armadura se alargando, pouco a pouco, sem que eu tivesse força para impedir.

E compreendi, com uma mistura de fúria e um fascínio que me aterrorizava: eu não conseguiria assustá-la. E muito pior do que isso… eu já não tinha certeza se queria.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo