Capítulo 1

Serena

As janelas do chão ao teto da suíte da cobertura iam de uma ponta à outra do cômodo, exibindo o horizonte brilhante de Manhattan como um reino estendido à espera de conquista. Lá embaixo, a cidade pulsava de vida — táxis amarelos vazando pelas ruas, prédios de escritório queimando de ambição, o maldito mundo inteiro girando no seu eixo de ganância e desejo.

Eu não me importava com nada disso.

Meu foco tinha se estreitado até o homem sobre cujo peito eu estava praticamente jogada, os dedos dele desenhando padrões preguiçosos na minha coxa nua. A jacuzzi borbulhava ao nosso redor, vapor subindo no ar fresco da noite, enquanto um saxofone de jazz ronronava em caixas de som escondidas — algo baixo e esfumaçado que combinava com o calor que se acumulava entre nós.

Lance Lawson.

Até o nome dele tinha gosto de poder na minha boca.

Inclinei a cabeça para trás, estudando-o por debaixo dos cílios. O champanhe tinha deixado tudo em foco suave, mas alguns detalhes cortavam a névoa com perfeita clareza: o ângulo afiado do maxilar, sombreado pela sugestão de uma barba por fazer. Olhos cinza-azulados que me lembravam tempestades de inverno — lindos e absolutamente impiedosos. Gotas d’água desciam devagar pelo peito nu dele.

Meu Deus, ele era devastador.

E ele sabia disso. Pior, eu sabia que ele sabia, e ainda assim não conseguia me importar.

A mão dele deslizou da minha coxa para a base das minhas costas, dedos calejados surpreendentemente ásperos contra a minha pele. Banqueiros de investimento não deveriam ter mãos assim — eram mãos de alguém que tinha construído alguma coisa, quebrado alguma coisa, controlado alguma coisa pela força física.

— Você está encarando — ele murmurou, a voz como uísque envelhecido. Suave, caro e absolutamente letal.

— Tô? — ouvi meu próprio ronronar, e quase não reconheci a minha voz.

Quando foi que eu virei essa mulher? Essa estranha que se espalhava sobre homens poderosos em coberturas enquanto o jazz tocava e o champanhe borbulhava em taças esquecidas?

Hoje à noite. O champanhe não tinha me transformado em outra pessoa — só tinha arrancado a máscara.

Não consegui segurar o sorriso que curvou meus lábios. Vinte e dois anos sendo a filha certinha, a namorada compreensiva, a garota que sempre colocava todo mundo em primeiro lugar — e lá estava eu, numa suíte que provavelmente custava mais do que a prestação da casa da minha família, enrolada em um homem cuja reputação congelaria sangue a cinquenta passos de distância.

A lembrança de como a gente tinha acabado ali cintilou no meu cérebro encharcado de champanhe. O boteco em Tribeca — chique demais pra ser realmente pé-sujo, escuro demais pra ser respeitável. Eu estava no meu terceiro martíni quando algum cara de finanças derrubou a cerveja direto no meu vestido. Eu virei pra cima dele, pronta pra esculachar, e dei de cara com Lance Lawson.

Eu soube quem ele era na hora. Você não circula pelos círculos da elite de Nova York — mesmo pela beirada, como eu — sem reconhecer o Rei de Gelo de Wall Street. O que eu não esperava era a eletricidade que estalou entre nós quando os olhos dele encontraram os meus. Nada de desculpa, nada de explicação. Só:

— Aquele vestido era horrível mesmo. Deixa eu comprar um melhor pra você.

A arrogância dele devia ter me repelido. Em vez disso, eu ri — eu realmente ri — e falei alguma coisa idiota tipo:

— Essa cantada costuma funcionar?

— Eu não uso cantada — ele respondeu, já chamando outro drink. — Eu faço constatações.

Três horas depois, estávamos aqui.

Meu coração bateu forte contra as costelas quando outro pensamento se cristalizou no meio da névoa: aquele homem — aquele homem devastador, perigoso, absolutamente proibido — não era qualquer um.

Ele era o tio do Wesley. Ex-responsável legal. O executor do espólio dos pais dele desde o acidente.

A pessoa pra quem o meu namorado de três anos ligava quando precisava de dinheiro de fiança, de conselho de negócios ou de alguém pra limpar a merda que o cu mimado dele tinha aprontado naquela semana.

Essa constatação devia ter me deixado sóbria. Devia ter me feito sair correndo atrás da minha roupa e do que quer que tivesse sobrado da minha dignidade.

Em vez disso, aquilo deixou tudo ainda mais quente.

Tinha algo deliciosamente errado em toda aquela situação. A namorada perfeita do queridinho de ouro, grudada no guardião que o apavorava. A boa moça fazendo coisas muito, muito erradas. O poder daquilo correu pelas minhas veias como uma droga, e me peguei me inclinando mais, a mão espalmada no peito do Lance. O coração dele batia firme e forte sob a minha palma—sem acelerar, sem dar nenhum sinal do caos que estava rasgando o meu próprio sistema.

Claro. Homens como Lance Lawson não perdiam o controle.

— Cuidado — ele disse, a voz baixando para algo que podia ser um aviso ou uma promessa. — Se continuar me olhando assim, não vou me responsabilizar pelo que acontecer depois.

Os dedos dele apertaram meu quadril, o polegar acariciando a curva da minha cintura. Minha respiração falhou—uma reação ridiculamente óbvia que eu não conseguia controlar.

— Talvez eu esteja contando com isso — eu sussurrei, surpreendendo a mim mesma com a própria ousadia.

Os olhos dele escureceram, nuvens de tempestade se formando, e a mão dele subiu para segurar o meu rosto com uma doçura inesperada. Por um momento, achei que ele fosse me beijar. Eu queria que ele me beijasse. Eu precisava—

Meu celular explodiu em som, despedaçando o momento como um tijolo atravessando um vidro.

Eu devia ter ignorado. Devia ter deixado tocar. Mas vinte e dois anos de condicionamento me fizeram pegar o aparelho em cima da borda de mármore ao nosso lado, a água pingando dos meus dedos.

O nome do Wesley piscou na tela.

— Oi… — mal consegui dizer antes da voz dele explodir no meu ouvido.

— ONDE DIABOS VOCÊ TÁ?

Eu estremeci com o volume, afastando o telefone um pouco. A expressão do Lance mudou—algo frio deslizando por trás dos olhos enquanto ele me observava.

— Serena! — a voz do Wesley falhou com aquele tipo específico de fúria mimada com a qual eu já estava íntima demais. — Eu te falei pra pegar um presente pra Vanessa! A festa dela começou faz uma hora e você tá… o quê? Me ignorando? Você faz ideia de quão humilhante é—

Alguma coisa dentro de mim se rompeu.

Talvez fosse o champanhe. Talvez fosse o jeito como a mão do Lance tinha ficado imóvel na minha cintura, todo o calor sumindo. Talvez fosse simplesmente o fato de que eu finalmente tinha chegado ao meu limite—aquele ponto em que ou você quebra, ou vira outra pessoa.

— Ah, o presente — eu disse, a voz saindo fria e afiada como lascas de gelo. — É, eu procurei um. Passei em uns bares no centro. Até parei numa boutique de hotel. Engraçado—não consegui encontrar nada que fosse… perfeito.

O silêncio do outro lado se estendeu por exatamente três segundos.

— Que porra você acabou de dizer? Bares? Um hotel? — A voz dele subiu quase a um grito. — Você tá me dizendo que saiu pra beber enquanto eu—

— Enquanto você o quê, babaca? — As palavras escaparam antes que eu pudesse segurar, amargas e queimando. — Enquanto você esquecia que hoje é nosso aniversário de três anos? Enquanto você me arrastava pra porra da festa de aniversário da sua preciosa Vanessa como se eu fosse um acessório? Enquanto você gritava comigo porque eu não levei um presente pra comemorar outra mulher?

Uma voz masculina grave murmurou alguma coisa ao fundo, do lado do Wesley—provavelmente um dos amigos de fundo fiduciário dele. Ouvi quando ele estalou um “Cala a boca!” antes de voltar a atenção pra mim.

— Onde você tá agora? Em quarto de quem você tá?

Lance se mexeu ao meu lado, e eu fiquei dolorosamente consciente do estado de semidesnudamento dele—cueca de marca cara que deixava pouquíssimo pra imaginação, a extensão musculosa do peito e do abdômen, o jeito como a luz baixa talhava sombras pelo corpo dele como a visão de um escultor sobre poder masculino.

A expressão dele tinha mudado completamente. O calor, a quase-doçura de instantes antes—sumidos. No lugar, algo ártico e calculista, o rosto que, segundo diziam, já tinha feito marmanjos chorarem em aquisições hostis.

— Você é de alguém? — A voz dele cortou o caos do telefone, baixa e absolutamente letal.

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