Capítulo 2
Serena
Se eu estivesse sóbria, aquele olhar provavelmente teria me apavorado. O Rei do Gelo de Wall Street me estudando como se eu fosse um ativo hostil que ele estava prestes a desmontar pedaço por pedaço. Mas agora, com o champanhe cantando nas minhas veias e três anos de raiva engolida finalmente se libertando?
Eu me sentia do caralho.
Principalmente vendo o rubor subindo pelo pescoço do Lance — de raiva ou de álcool, eu não sabia dizer. E, meu Deus, aquele corpo. Os músculos molhados do peito, o V marcado dos quadris desaparecendo dentro daquela cueca boxer cara, o jeito que o maxilar dele se contraía como se ele estivesse fisicamente se segurando para não fazer algo violento.
Como é que eu desperdicei três anos com o magrelo do Wesley quando existem homens assim?
— Serena? — A voz do Wesley subiu, aguda, rachando de indignação. — Tem um homem aí com você agora, porra?
— Ah! — Inclinei a cabeça, examinando as unhas com uma displicência bem calculada. — Então, quem tá comigo na verdade não é da sua conta. Digo, você nunca me assumiu oficialmente como sua namorada mesmo, né?
O silêncio do outro lado se estendeu só o suficiente pra eu poder girar a faca mais fundo.
— Ah, é — nesses últimos três anos, você tava ocupado demais postando foto com a Vanessa. Vanessa em baile beneficente. Vanessa em inauguração de galeria. Vanessa, Vanessa, a porra da Vanessa. Enquanto eu ficava sendo o segredo sujo que buscava sua roupa na lavanderia e fingia não perceber quando você chegava em casa cheirando ao perfume dela.
— SUA VADIA FILHA DA PUTA… — O berro do Wesley quase estourou meu tímpano. — SERENA! ONDE É QUE VOCÊ TÁ?
O volume me fez estremecer, mas também cristalizou algo dentro de mim. Era isso. O momento que eu vinha ao mesmo tempo temendo e desejando há meses. Talvez anos.
Eu sempre me contive. Sempre engoli as palavras que queimariam pontes. Sempre calculei o custo — o que meus pais iam dizer? O que ia acontecer com o acordo em que eles tinham passado anos trabalhando? Como eu ia sobreviver sem a conexão dos Lawson?
Mas conhecer o Lance hoje — só algumas horas sentindo como era ser desejada por alguém que não me fazia sentir pequena — tinha arrancado todas as desculpas que eu usava pra me manter enjaulada.
A comida tinha sido uma merda. No fim, era isso. Três anos de migalhas emocionais enquanto o Wesley se empanturrava do que — de quem — ele quisesse. Três anos me convencendo de que sobra fria era suficiente porque eu tinha medo demais de esticar a mão pra pegar algo melhor.
— The Sovereign — eu disse, com a voz doce como mel e absolutamente letal. — Suíte presidencial.
Desliguei.
O celular bateu na borda de mármore com um estalo satisfatório de que eu provavelmente ia me arrepender depois. Agora, parecia vitória.
Então levantei o olhar e encontrei o Lance me observando com uma expressão que fez meu estômago despencar.
Não era desejo. Nem diversão. Nem sequer raiva.
Avaliação predatória. Como se eu tivesse acabado de deixar de ser presa voluntária e virado uma ameaça que precisava ser neutralizada.
Ele se ergueu da jacuzzi num movimento fluido, a água escorrendo pelos planos do peito e do abdômen. Aqueles músculos fortes das coxas. O jeito que as gotas desenhavam caminhos pela pele, como se estivessem adorando cada músculo esculpido.
Minha boca secou por motivos bem diferentes de antes.
Mas a expressão dele — fria, contida, absolutamente furiosa — matou o calor que estava se acumulando no meu centro. Esse não era o homem que tinha desenhado padrões preguiçosos na minha coxa dez minutos atrás. Esse era o tubarão de Wall Street que tinha construído um império em cima de uma crueldade calculada.
— Você. — A voz dele podia congelar nitrogênio. — É a porra da Serena?
Cada palavra caiu como um golpe físico.
— Aquela voz no telefone… —
— Seu sobrinho — eu disse num tom leve, pegando a taça de champanhe que tinha largado. As bolhas já tinham ido embora, mas eu bebi assim mesmo. — Também a pessoa de quem você foi tutor legal — o quê, dos quatorze aos dezoito? Ouvi dizer que vocês dois são praticamente pai e filho. Comovente, de verdade.
O rosto dele ficou completamente inexpressivo.
Isso me apavorou mais do que qualquer explosão de raiva. Inexpressivo significava que ele estava pensando. Calculando. Decidindo exatamente como me destruir da forma mais eficiente possível.
Quando ele falou, a voz tinha descido para algo pior do que raiva — puro, frio desprezo.
— Cai. Fora.
Eu me levantei, a água escorrendo do meu corpo, e tive a satisfação de vê-lo dar meio passo para trás quando o impacto completo do meu biquíni minúsculo bateu nele.
Ótimo. Deixa ele olhar. Deixa ele querer. Deixa ele se arrepender de cada segundo do que estava prestes a jogar fora.
Peguei uma toalha felpuda do aquecedor, sem pressa para enrolá-la em mim, enquanto os olhos dele acompanhavam cada movimento com uma fome contrariada.
— Sabe — comentei, passando a toalha pela clavícula —, antes de hoje à noite, minha impressão do lendário Lance Lawson era bem diferente. Fui para os ombros, deliberadamente devagar.
— O Rei do Gelo de Wall Street. O homem que dispensou todas as socialites e modelos de Manhattan. O monge de terno de três peças que supostamente não encostava em uma mulher havia mais de uma década.
Ele já tinha ido até o bar, enfiando os braços num roupão de seda preta que provavelmente custava mais do que o meu aluguel do mês. Os movimentos dele eram bruscos, controlados, a precisão cuidadosa de quem está se segurando para não perder a calma. Ele serviu um líquido âmbar num copo de cristal, sem sequer se dar ao trabalho de me oferecer.
Mesmo assim, eu o segui, pés descalços silenciosos no mármore aquecido.
— Mas vendo você hoje à noite... — deixei as palavras morrerem no ar, sugestivas.
— Não. — Ele estava de costas para mim, ombros rígidos de tensão. — Não termina essa frase.
— Você não é tão... intocável assim, né?
Ele virou o drinque de uma vez só e imediatamente serviu outro. Quando finalmente se virou para me encarar, a expressão dele tinha mudado para algo que eu reconhecia dos programas de notícias de negócios — o olhar que ele usava logo antes de destruir um concorrente.
— Você tem exatamente sessenta segundos pra se vestir e cair fora desta suíte. — A voz dele era glacial. — Ou eu vou garantir pessoalmente que o nome da sua família vire sinônimo de falência até amanhã de manhã. Os Vance não vão só sair de Nova York — vocês vão ter é que agradecer se conseguirem alugar um quitinete em Cleveland.
Era para eu estar apavorada. Era para eu ter pegado meu vestido e saído correndo.
Em vez disso, eu ri.
O som surpreendeu nós dois — amargo e cortante, com uma ponta de algo que talvez fosse histeria.
— Minha família? — Dei um passo pra frente, observando ele se forçar a não recuar. — Você quer dizer as pessoas que passaram três anos me preparando pra ser a esposinha perfeita do Wesley? As que me convenceram de que meu único valor estava em casar pra cima? Que me ensinaram a engolir cada humilhação, cada traição, cada esculacho em público porque “é assim que homens poderosos são, querida”?
Algo tremeu nos olhos dele. Confusão, talvez. Ou a primeira rachadura na compostura de gelo.
— Minha mãe, que disse que eu devia agradecer por o Wesley sequer olhar pra mim depois que minha família perdeu tudo? Meu pai, que literalmente calculou meu valor em termos dos contatos de negócios que eu podia garantir através de um casamento? — Minha voz estava subindo agora, anos de raiva engolida transbordando. — Essa família? A que passou anos me convencendo de que a minha única saída da pobreza era sorrir bonita enquanto meu namorado transava com outras mulheres?
— Eu não tô nem aí pra sua…
BANG. BANG. BANG.
O som de punhos esmurrando a porta da suíte cortou as palavras dele como uma guilhotina.
Nós dois congelamos.
— SERENA! — A voz do Wesley, abafada mas inconfundível, atravessou a madeira pesada. — EU SEI QUE VOCÊ TÁ AÍ DENTRO! ABRE ESSA PORRA DE PORTA!
