Capítulo 4

Serena

— Isso é diferente e você sabe disso...

— Diferente por quê? Porque você é homem? Porque você é um Lawson? — Inclinei a cabeça, estudando-o como se fosse um inseto preso num vidro. — Ou é porque, no fundo, você sabe qual é a verdadeira diferença? Você mentiu. Você se escondeu. Você me fez passar por idiota em todos os eventos sociais de Nova York enquanto desfilava com a sua amante na frente de todo mundo que importava.

— Ela não é minha...

— Eu não minto. — Cada palavra caiu como um golpe de martelo. — Se eu não amo alguém, eu não finjo. Eu não enrolo a pessoa por três anos enquanto construo o meu relacionamento de verdade nas sombras. Eu não faço a pessoa buscar a minha roupa na lavanderia enquanto eu tô mandando mensagem pra outra. Eu não sou você, Wesley. Eu nunca conseguiria ser tão cruel.

A mão dele avançou, agarrando meu braço com força suficiente pra deixar marca roxa.

— Você vai calar essa porra dessa boca agora antes que eu...

— Antes que o quê? — Arranquei meu braço de volta, com uma violência que surpreendeu nós dois. — Antes que você me bata? Vai. Mostra pra Vanessa que tipo de homem você é de verdade. Mostra pra ela o temperamento que você conseguiu esconder de todo mundo, menos de mim.

— Serena, você tá sendo histérica... — Vanessa tentou.

— Não. — Virei pra ela, vendo a compostura perfeita dela começar a rachar. — Eu tô sendo honesta pela primeira vez em três anos. Quer saber o que é realmente histérico? Meus pais me trancarem num quarto quando eu tinha dezessete anos pra explicar que o meu único valor era casar bem. Que as dívidas da nossa família só podiam ser pagas com o meu futuro.

O rosto do Wesley mudou, um pouco da raiva dando lugar à confusão. Ótimo. Que ele visse o que tinha sido egocêntrico demais pra perceber.

— A minha irmã — a minha própria irmã — me dizendo que eu devia agradecer por o Wesley sequer olhar pra mim depois do que aconteceu com a nossa família. Que mulheres como a gente, de família falida, não têm direito de escolher. A gente tem é que sobreviver.

As palavras agora saíam em cascata, três anos de silêncio cuidadosamente mantido se rompendo como uma represa.

— Então eu fiz o papel. A namorada certinha. A compreensiva, que não se importava de ser mantida em segredo porque “não era o momento certo” ou “o avô dele não ia aprovar” ou qualquer outra desculpa esfarrapada que você inventava naquela semana. — Minha voz foi subindo, ecoando pelas paredes do corredor.

— Eu aprendi a sorrir quando você apresentava a Vanessa como sua amiga. A fingir que não via a mão dela na sua coxa embaixo da mesa. A me sentir grata por qualquer migalha de atenção que você me jogava entre uma transa e outra com ela.

— Não é assim... a gente não... — Wesley gaguejou.

— Mas hoje à noite? — Dei mais um passo pra frente, obrigando-o a recuar. A caçadora virando caça. — Hoje à noite eu aprendi uma coisa revolucionária. Quer saber o que é?

Ele só me encarou, a boca abrindo e fechando sem som.

— Descobri que existem homens nesse mundo que não são uns lixos mentirosos, medíocres e nojentos. — Deixei meu olhar passear por ele com desprezo calculado. — Homens de um metro e noventa, com ombros que parecem aguentar o mundo. Homens com rostos que parecem ter sido esculpidos por Michelangelo. Homens que sabem sorrir — sorrir de verdade — de um jeito que faz o seu corpo inteiro esquecer como funciona.

O rosto de Wesley tinha ido do vermelho pro roxo.

— Sua filha da...

— Então, obrigada. — Sorri docemente, saboreando cada segundo da raiva dele. — Aos dois. Por me mostrarem exatamente com o que eu tava me conformando. Por me ensinarem que eu mereço mais do que as migalhas de vocês.

— Melhor? — Ele soltou uma risada amarga, engasgada. — Você acha que merece melhor? Você não é nada, Serena. Sua família tá falida. Você não tem perspectivas, não tem contatos que não sejam através de mim...

— Wesley. — Minha voz cortou o surto dele como uma faca. — Acabou. Chega. Terminamos. Considere isso o nosso término oficial.

— Terminar? — Os olhos dele ficaram insanos, cuspe voando enquanto ele berrava. — VOCÊ NÃO TERMINA COMIGO! Você não é nada sem mim! Você vai fazer o que eu mandar, na hora que eu mandar, porque esse é o acordo que as nossas famílias fizeram...

Ele avançou de novo, dessa vez com clara intenção de machucar.

Eu não tive tempo de me mexer.

— COM LICENÇA. — Uma voz aguda e autoritária cortou o corredor como um chicote. — O que exatamente está acontecendo aqui?

Todos nós congelamos.

Um homem de terno impecável — claramente da gerência do hotel — estava parado no fim do corredor, ladeado por dois seguranças enormes. A expressão dele era a mistura perfeita de preocupação profissional e nojo mal disfarçado.

— Senhor. — Ele se dirigiu ao Wesley com aquela cordialidade gelada reservada a quem causa escândalo em hotel cinco estrelas. — Vou pedir que o senhor se afaste da moça e abaixe a voz. Os outros hóspedes estão reclamando do barulho.

O punho do Wesley ainda estava erguido, o rosto contorcido de raiva.

Os olhos do gerente passaram por mim — descabelada, claramente abalada — e voltaram pro Wesley. A expressão dele se endureceu.

— Agora, senhor. Ou vou ser obrigado a chamar a polícia.

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