capítulo 1
POV de Grace White:
As luzes fluorescentes do estúdio de balé zumbiam lá em cima enquanto eu tirava o collant encharcado de suor, com cada músculo do meu corpo gritando depois de três horas de treino implacável.
Meu reflexo no espelho mostrava no que eu tinha me transformado — Grace White, o cisne caído, a filha do criminoso, a garota que trocou Chanel por legging de liquidação.
As outras bailarinas já tinham se espalhado, com suas bolsas de marca balançando nas mãos de unhas feitas, me deixando sozinha com os fantasmas de quem eu costumava ser.
Eu estava enfiando minhas sapatilhas de ponta, já gastas, dentro da mochila quando vozes chegaram pela porta entreaberta — afiadas e propositalmente altas o bastante para eu ouvir.
— Você viu o grand jeté dela hoje? Patético. Sinceramente, não faço a menor ideia de como ela virou primeira bailarina.
O tom anasalado de Jessica Walker era inconfundível, seguido pela risada cruel das puxa-sacos dela.
— Nem de longe tão boa quanto você, Jess. Desse jeito, essa vaga não vai ser dela por muito tempo.
Jessica riu, um som cortante, como vidro quebrando.
— E olha essas sapatilhas — totalmente destruídas. Que coisa patética ela ainda usar isso. O que aconteceu com a preciosa princesinha cisne branco?
— Ouvi dizer que o pai dela pegou vinte anos por fraude. Um negócio de desviar dinheiro de fundo de pensão e mandar droga do apartamento de luxo dele no centro.
Era Sophia Miller, minha ex-colega de quarto, que pediu transferência no mesmo dia em que a notícia estourou sobre a prisão do meu pai.
— Sério, não sei como ela ainda tem coragem de aparecer aqui. Se meu pai fosse um criminoso nojento, eu tinha morrido de vergonha e já teria largado tudo.
— Né? Tipo, algumas de nós mereceram estar aqui de verdade — Jessica completou, com um sorriso de deboche. — Deve ser ótimo viver na moleza com o dinheiro sujo do papai por vinte anos.
Meus dedos apertaram a alça da mochila, mas eu mantive o rosto cuidadosamente neutro quando saí do vestiário.
Elas queriam uma reação — lágrimas, raiva, qualquer coisa que confirmasse a narrativa da minha humilhação. Em vez disso, encarei as duas com a mesma expressão serena que eu tinha aperfeiçoado em incontáveis festas da alta sociedade, quando o nome White ainda significava alguma coisa além de manchete de fofoca.
Não disse nada, apenas passei por elas em direção à saída, com os olhos fixos à frente.
— Espera. — A mão de Jessica disparou, bloqueando meu caminho. Os lábios dela se curvaram num sorriso que não chegava aos olhos. — A gente precisa de um favor.
— Não tô interessada — eu disse, seca, seguindo em frente sem diminuir o passo.
Eu lembrava que nunca saía nada de bom de discutir com lobos que já tinham provado sangue. As vozes delas eram só ruído — um chiado de fundo que eu tinha aprendido a ignorar.
— A gente ouviu que você tá bem desesperada por dinheiro ultimamente. — As vozes vieram atrás de mim, sem pressa, calculadas. — Podemos te oferecer uma chance de ganhar uma grana.
Meus pés pararam antes que meu cérebro conseguisse conter o impulso.
Eu me virei devagar e encontrei o rosto de Jessica aberto num sorriso triunfante. Ela sabia exatamente quais palavras iam me fazer parar.
Dinheiro — uma coisa em que eu já tinha gastado sem pensar duas vezes com sapatos de grife e dias de spa — agora significava tudo. Significava os remédios da minha mãe, o aluguel atrasado do nosso apertado apartamento no sótão, a diferença entre comer e passar fome.
Depois que agentes federais arrastaram meu pai algemado para fora, nossa família despencou no caos — um caos completo, sufocante, que nos deixou atordoados e sem rumo.
A prisão atingiu a nossa família como um raio em céu azul — repentina, devastadora, incompreensível.
Minha mãe desabou naquela mesma noite, o coração cedendo sob o peso da vergonha e do terror, e agora ela estava deitada numa cama de hospital, com máquinas mantendo-a viva enquanto as contas se acumulavam como acusações.
Meu irmão, Noah, tinha trancado a matrícula na faculdade para trabalhar em tempo integral, ganhando o pouco que conseguia para nos manter à tona, enquanto eu equilibrava as aulas com vários empregos de meio período.
Todas as noites eu encarava minhas sapatilhas de ponta gastas e me perguntava se não devia largar o balé de vez — uma despesa a menos, mais um turno que eu poderia pegar na lanchonete ou na livraria do campus.
— Então? — a voz de Jessica cortou meus pensamentos como uma lâmina. — Agora você se interessou?
A pergunta me puxou de volta para o presente, para o estúdio que de repente pareceu sufocante, para as três garotas me observando com uma expectativa predatória.
Eu sabia que Jessica e o bando dela não iam me dar dinheiro por bondade. O que quer que elas quisessem ia me humilhar, me degradar, arrancar mais uma camada da dignidade que eu um dia vesti como armadura.
Mas dignidade não pagava despesas médicas nem mantinha a luz acesa. Diante da sobrevivência, orgulho era um luxo que eu já não podia me permitir.
— O que vocês querem? — As palavras tinham gosto de cinza na minha boca.
— O amistoso de hóquei no gelo começa em uma hora — Sophia continuou, examinando as unhas de acrílico com um desinteresse ensaiado. — O Sebastian Thorne precisa que levem água até o banco do time. A gente está disposta a pagar... digamos, quinhentos dólares?
Quinhentos dólares. O número ficou pairando no ar entre nós, obsceno na casualidade. Para mim, afundando em dívidas e desespero, era uma fortuna.
Levar água para um time de hóquei não devia ser difícil — só um recado simples, que levaria no máximo quinze minutos.
Mas eu entendi o preço de verdade na hora: ninguém queria mais ser associado a mim, não depois que a prisão do meu pai transformou o nome da nossa família em piada.
Não era sobre a água. Era sobre me ver implorar, sobre ver Grace White — ex-princesinha da cena social de St. Jude’s — reduzida a menina de recados para o entretenimento delas, aguentando a zombaria e o desprezo com um sorriso colado no rosto.
O mais inteligente teria sido mandar as três pro inferno, virar as costas com a pouca dignidade que me restava. Mas dignidade não pagava conta de hospital. Dignidade não mantinha o monitor cardíaco da minha mãe apitando.
Então eu engoli o amargor na boca e estendi a mão.
— Mil — eu rebati, com a voz sem emoção. — Metade agora, metade depois.
