capítulo 2

POV da Grace:

A risada da Jessica ecoou pelo estúdio vazio como um sino rachado, enquanto as unhas bem-feitas dela tecavam na tela do celular ao transferir o dinheiro.

— Olha só pra você, negociando como se ainda tivesse alguma vantagem. Que fofinho.

A notificação vibrou no meu quadril — quinhentos dólares depositados, e a outra metade pendurada como isca num anzol que eu já tinha engolido.

— Tá bom. Então vai ser mil.

Ela se inclinou, perto o bastante pra eu sentir o perfume caro, daquelas marcas importadas — o mesmo que eu já tinha usado um dia sem nem pensar.

— Mas, Grace? É melhor você caprichar. O Sebastian gosta das “garotas da água”... animadinhas.

A malícia na voz dela me deu ânsia, mas eu mantive o rosto neutro quando ela enfiou uma garrafa de água do St. Jude Athletics nas minhas mãos.

O plástico estava gelado na minha palma, com o brasão da universidade estampado — algo que antes significava prestígio e agora parecia uma ironia cruel, zombando em silêncio de tudo o que eu tinha perdido.

Elas passaram por mim como uma nuvem de perfume e satisfação maldosa, e a risada foi ecoando pelo corredor muito depois de terem sumido.

Fiquei ali um instante, apertando a garrafa com força suficiente pra fazer o plástico estalar, até meu celular vibrar com uma mensagem.

O nome do Noah acendeu na tela e, apesar de tudo, eu senti meus lábios se curvarem na primeira expressão de verdade que eu tinha feito o dia inteiro. Meu irmão gêmeo — minha outra metade, meu porto seguro num mundo virado do avesso.

Ei, mana. Fiz mais 400 dólares no restaurante hoje. Já mandei pra sua conta. Para de se preocupar com dinheiro, tá? Deixa comigo.

O texto embaralhou quando as lágrimas arderam nos meus olhos.

Noah, mal tinha vinte anos — como eu — e trancou a faculdade por um tempo pra carregar o peso financeiro da nossa família. Ele trabalhava sem parar, se virando com mais de um emprego, com olheiras fundas e calos nas mãos que antes não existiam.

Como se percebesse minha culpa, a mensagem seguinte apareceu, com um tom de propósito descontraído: Ei, nem pense em ficar se culpando por minha causa. Você tá arrasando no balé como sempre. Além disso, alguém tem que ser o talentoso da família, né?

Enxuguei os olhos depressa, digitando de volta com os dedos tremendo: Obrigada, mas por favor cuida de você primeiro.

A resposta veio na hora: Relaxa, eu sei me cuidar. Inclusive, acabei de conseguir outro bico amanhã que paga muito bem.

Ah, e a mãe perguntou de você ontem, num momento de lucidez. Ela ficou feliz de saber que você ainda tá dançando balé — isso animou o dia dela.

Eu vou ver ela neste fim de semana, digitei.

Guardei o celular e olhei a hora.

O jogo de hóquei ia começar logo. Apaguei os últimos vestígios das lágrimas, juntei o que restava da minha postura e fui na direção da arena.

A garrafa parecia mais pesada a cada passo rumo à pista de gelo, carregada de mais do que só água. Aquilo era sobrevivência na forma mais feia — trocar pedaços da minha dignidade pela chance de manter minha família de pé por mais um dia. Mas, se era isso que precisava, eu entregaria água até pro próprio Satanás.

O Palácio Glacial surgia à minha frente, sua arquitetura moderna como um monumento à generosidade da família Cross — ou à necessidade deles de marcar território, dependendo do ponto de vista. Mesmo do lado de fora, eu já ouvia a torcida se juntando, sentia o cheiro da mistura de gelo e expectativa que vinha antes de todo jogo.

Em St. Jude, hóquei era coisa séria, e Sebastian Thorne era o queridinho deles — bonito, talentoso, de uma família rica o bastante para importar, mas não poderosa a ponto de ser intocável.

Eu mal tinha passado pela entrada quando o barulho me atingiu como uma força física. As arquibancadas já estavam lotadas, um mar de camisas vermelho-carmesim e douradas com números e nomes de jogadores. A arena inteira explodiu em gritos para Sebastian. Fosse pelo rosto dele ou pelo que fazia no gelo, ele arrancava berros e aplausos de cada canto da pista.

Eles estavam claramente dominando o jogo, mantendo uma vantagem confortável quando a sirene soou para o fim do primeiro intervalo.

Encontrei meu lugar em silêncio na seção do Departamento de Artes e, na mesma hora, senti o olhar de alguém em cima de mim. Quando procurei ao redor, encontrei os olhos de Jessica — ela fazia sinal para eu levar a água.

Eu respirei fundo e me levantei.

Sob o olhar incisivo de Jessica, peguei a garrafa e segui em direção à área de descanso do time do Sebastian. A segurança mantinha os torcedores a uma distância respeitosa, então parei na grade, erguendo a garrafa para sinalizar para ele. O gesto provocou cochichos imediatos na galera ali perto.

“Que porra ela tá fazendo?”, alguém arfou ao meu lado.

“Ela tá mesmo levando água? Pro Sebastian?”, outra voz subiu, incrédula.

“Meu Deus, ela acha que isso é jogo de basquete? Não é assim que você chega perto de jogador de hóquei!”

“Que vergonha de ver…”

“Quem ela pensa que é?”, alguém sibilou atrás de mim. “Ela não é mais aquela princesinha intocável.”

“Eu sempre achei que ela fosse uma deusa intocável, acima de todo mundo”, uma garota riu com crueldade. “Acho que quando o dinheiro acaba, ela mostra as cores de verdade, igual a qualquer um.”

“Ela tá se rebaixando”, outra pessoa resmungou. “Ela não tem mais orgulho nenhum?”

Comentários feios chegavam aos meus ouvidos de todos os lados, mas eu me forcei a ignorar, mantendo os olhos fixos em Sebastian quando ele patinou na minha direção.

Os companheiros de equipe dele começaram a assobiar e a tirar sarro na hora.

“Olha só — a princesinha do balé trazendo água pra gente!”, um deles gritou. “Nunca pensei que ia ver esse dia. Pelo jeito agora a gente tá pegando carona no Sebastian.”

Outro jogador entrou na onda com uma risada grosseira.

“Caramba, Sebastian, teu charme é de outro mundo mesmo! Até fez a princesa do gelo derreter por você!”

Mais jogadores se juntaram à zoação, as vozes atravessando a grade.

“E aí, White, qual é a dessa? Finalmente caiu de amores pelo nosso garoto? Ou é verdade o que tão dizendo — papai faliu e você tá precisando de um novo ‘patrocinador’?”

Eu ignorei as provocações, apenas estendendo a garrafa para Sebastian. Ele me olhou sorrindo e pegou a água das minhas mãos.

“Valeu, mas você não faz muito meu tipo, White”, ele disse com um desdém casual, claramente curtindo a admiração deles e plenamente consciente do próprio charme.

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