capítulo 3

POV da Grace:

Eu vi ele pegar a água, e isso significava que minha tarefa estava concluída.

Não tinha por que ficar ali aguentando mais humilhação. Assenti de leve e já me virei para ir embora quando a risada dos colegas de time do Sebastian veio atrás de mim como uma matilha de hienas.

— Olha só, Seb! Você partiu mais um coração! — gritou um deles, com a voz pingando falsa compaixão. — Olha como ela sai toda derrotada.

— Pobrezinha da princesinha — outro entrou na onda. — Aposto que ela tava esperando uma resposta diferente. Olha esses ombros… totalmente arrasada!

A diversão cruel deles ecoou pelo gelo, mas eu continuei andando, a coluna reta apesar do peso que parecia me esmagar.

No caminho de volta, atravessando a multidão, quase esbarrei em alguém que vinha saindo do corredor dos vestiários.

O cheiro me atingiu primeiro — gelo limpo e um perfume caro, uma mistura que, de algum jeito, deixava o ar reciclado da arena ainda mais cortante. Eu me afastei rápido, mas não antes de ouvir ele resmungar, quase sem mexer os lábios:

— Sem noção nenhuma. Jogando que nem lixo e ainda mandam entregar água.

As palavras foram ditas com um desprezo tão casual que eu acabei olhando para cima, surpresa, mas ele já estava se afastando. Só consegui ver as costas dele e o número na camisa — 7 — antes de ele desaparecer no túnel que levava ao gelo.

A voz dele, embora estivesse menosprezando o Sebastian, tinha um tom que fazia até o desprezo soar refinado.

Não era exatamente me defender, mas num dia cheio de deboche e degradação, o fato de ele não ter se juntado ao coro de zombaria pareceu um alívio.

Eu vi aquelas costas largas sumirem no meio dos jogadores, me perguntando quem teria coragem de falar tão abertamente assim do queridinho de St. Jude.

Mas isso já não era problema meu. Eu precisava voltar e pegar os quinhentos dólares que faltavam.

Eu me obriguei a continuar andando, ignorando com desespero os olhares que me acompanhavam como holofotes num pátio de prisão.

Alguns eram de pena, outros de curiosidade, mas a maioria carregava aquele tipo específico de satisfação cruel que as pessoas reservam para assistir alguém cair do pedestal.

A Jessica e o grupinho dela estavam praticamente tremendo de alegria quando eu voltei para perto.

— Ora, ora, vejam só quem concluiu a primeira missão — Jessica arrastou, já com o celular na mão. — Ai, Grace, eu não fazia ideia de que o Sebastian ia ser tão… direto com você. Se eu soubesse que ele ia te dar um fora daquele na frente de todo mundo, eu nunca teria pedido. Você deve estar morrendo de vergonha.

Ela fez questão de encenar a transferência dos quinhentos dólares restantes, com um sorriso afiado o suficiente para cortar. — Mesmo valor da próxima vez, menina de recados. Isso foi divertido demais.

Eu não disse nada, só conferi se o pagamento tinha caído certinho antes de me virar para sair. Mas, assim que eu cheguei perto da saída, um suspiro coletivo de choque correu pela arena, seguido de murmúrios incrédulos.

A curiosidade falou mais alto, e eu olhei de volta para o gelo.

O jogo tinha recomeçado depois do intervalo, e um novo jogador com a camisa número 7 tinha entrado como centralizador. Em poucos segundos depois do saque inicial, ele já tinha feito gol, se movendo com uma precisão mortal que fazia os outros parecerem patinar em melaço.

— Quem diabos é esse? — alguém perto de mim exigiu, atônito.

— Deve ter sido só um chute de sorte — outra voz cortou, desdenhosa. — Nem ferrando que ele é melhor que o Sebastian.

— Um gol não quer dizer nada. Espera pra ver — uma garota insistiu, fiel. — O Seb vai mostrar pra ele como é que se faz de verdade.

Mas, conforme o jogo avançava, o placar contava outra história.

O número 7 não estava só com sorte — ele estava desmontando, peça por peça, a vantagem confortável do time adversário. Cada gol saía com precisão cirúrgica, e a diferença que parecia impossível de tirar estava diminuindo numa velocidade alarmante.

Quando o número 7 enfiou o gol decisivo, garantindo a vitória nos segundos finais do jogo, a arena inteira ficou em silêncio por um batimento — antes de explodir em caos.

Ele tinha, sozinho, transformado uma derrota certa em triunfo e, quando tirou o capacete para comemorar, o choque da torcida virou outra coisa, completamente diferente.

O cabelo escuro caiu na testa, úmido de esforço, e por baixo havia um rosto que parecia ter saído de uma escultura clássica — ângulos marcados, simetria perfeita.

O maxilar dele podia ter sido talhado em mármore; os olhos, de um tom inquietante entre o cinza e o azul, pareciam atravessar as luzes da arena. Havia algo quase predatório naquela beleza, uma masculinidade crua que deixava o ar carregado, como se tivesse eletricidade.

Mesmo de longe, dava para ver o jeito como o peito dele subia e descia em respirações controladas, e como o equipamento de hóquei grudava no que era, obviamente, um físico lapidado por baixo.

— Meu Deus... — sussurrou a mesma garota que estava defendendo o Sebastian, com a lealdade evaporando na hora. — Ele é... ele é lindo.

— Esquece tudo o que eu falei — a amiga dela arfou. — Esse rosto, essa habilidade... foi mal, Sebastian, mas meu coração acabou de encontrar um novo endereço.

— Quem precisa do Sebastian quando a gente tem ISSO aqui? — outra pessoa guinchou. — Olha essas maçãs do rosto! E vocês viram como ele se mexe? Parece que nasceu no gelo!

— Beleza e talento no mesmo pacote... acho que eu tô apaixonada.

— Alguém arruma pra mim o nome dele, o curso e se ele tá solteiro nos próximos cinco minutos, ou eu vou enlouquecer!

— Já tô indo atrás — disse outra garota, digitando furiosamente no celular. — Eu preciso do Instagram dele, da grade de aulas, do pedido de café favorito... TUDO.

— Primeiro! Eu vi primeiro!

As deserções vieram rápidas e impiedosas, a base de fãs do Sebastian desmoronando diante dessa combinação devastadora de habilidade e beleza.

Eu observei a figura no gelo — orgulhosa, quase arrogante na vitória, bebendo a adoração como se aquilo fosse um direito de nascença. E talvez fosse.

Tudo nele gritava que era exatamente ali que ele pertencia: no centro das atenções, vitorioso e intocável.

Então o olhar dele subiu em direção às arquibancadas e, por um instante de parar o coração, nossos olhos se encontraram à distância. Ele arqueou uma sobrancelha para mim, um gesto tão casualmente arrogante que parecia confirmar cada palavra do desprezo que ele tinha demonstrado antes.

Eu me peguei pensando que sim, ele definitivamente tinha habilidade para sustentar aquela soberba — o Sebastian realmente tinha jogado como uma porcaria em comparação com ele.

— Caralho, eu achei ele! — uma garota ali perto praticamente gritou, levantando o celular. — O nome dele é Maverick Cross — tipo, da família Cross. Ele é aluno transferido e começa esta semana.

A arena pareceu enlouquecer em conjunto.

— Você tá me dizendo que ele é lindo, joga como um deus E ainda é herdeiro do Império Cross?

— Isso não é justo! Como é que uma pessoa pode ter TUDO?

— A família Cross? Eles praticamente mandam em metade desta cidade!

— Deus realmente tem seus preferidos.

— Mas por que alguém que joga desse jeito se transferiria no meio da temporada?

— Quem liga? Ele tá aqui agora, e vocês viram aqueles olhos? Acho que minhas trompas acabaram de explodir.

O sobrenome Cross tinha peso nesta cidade — o tipo de peso que fazia prédios tremerem e portas se abrirem sem questionamento. Eles não tinham só dinheiro; tinham o tipo de poder que reescrevia regras.

Mesmo antes da queda da minha família, os Cross existiam em outra estratosfera — um tipo de intocável que fazia a nossa antiga fortuna parecer troco de bolso.

Sem olhar de novo para o caos lá embaixo, eu me virei e caminhei em direção à saída.

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