capítulo 4
POV do Maverick:
O rugido da torcida veio por cima de mim como uma maré conhecida, a adoração deles tão previsível quanto satisfatória. Eu não ouvia gritos assim havia muito tempo — não desde antes da pequena prisão europeia da minha mãe. Agora eu tinha voltado, e eles lembravam como era o hóquei de verdade.
— Jesus Cristo, Maverick! — meu companheiro de equipe, Derek, deu um tapa no meu ombro forte o bastante pra deixar roxo. — Você não disse que era bom pra caralho assim! Isso foi insano pra porra!
Eu deixei o entusiasmo dele pra lá, meus olhos ainda acompanhando a figura que se afastava nas arquibancadas. Grace White. Ela já estava indo em direção à saída, caminhando sozinha, mas ainda toda a altivez de um cisne orgulhoso.
— Sério, cara — outro companheiro se meteu, ainda sem fôlego do jogo. — Seis gols em vinte minutos? Tá tentando fazer o resto da gente parecer ruim?
— Vocês conseguem fazer isso sozinhos numa boa — respondi, seco, tirando as luvas.
A piada arrancou mais tapas nas costas e risadas, mas minha atenção continuou dividida.
Sebastian estava na borda do nosso círculo de vitória, a mandíbula travada tão forte que eu me perguntei se ele ia trincar um molar. Os dedos dele apertavam o taco como se quisesse partir ao meio — ou talvez usar em mim.
— Aconteceu alguma coisa, Thorne? — perguntei, alto o bastante pra nossos companheiros ouvirem.
A risada morreu na hora, quando todo mundo lembrou da política delicada em jogo.
O rosto de Sebastian escureceu com o uso do sobrenome dele — o sobrenome da mãe, o único que ele podia carregar legalmente.
— Só tô pensando no que te fez rastejar de volta de qualquer buraco onde a sua mãe te manteve escondido.
A temperatura ao nosso redor pareceu cair alguns graus. Nossos companheiros se posicionaram atrás da gente, corpos tensos e prontos pro que fosse acontecer, sentindo sangue na água.
Eu sorri, um sorriso só de dentes, sem calor nenhum.
— Aqui é a minha casa, Sebastian. Eu vou e volto quando eu quiser.
Deixei meu olhar passar por ele com desprezo, do mesmo jeito que alguém olha pra alguma coisa desagradável grudada no sapato. — Ao contrário de algumas pessoas, eu não preciso justificar a minha presença aqui. Certidão de nascimento e fundo fiduciário costumam resolver isso por mim.
Os nós dos dedos dele ficaram brancos em volta do taco. — Cuidado, irmãozinho. Você ficou fora por tanto tempo… as coisas não são como eram.
Eu varri o olhar pela arena num círculo deliberadamente provocador, notando como a torcida que estava gritando pelo Sebastian minutos atrás tinha mudado em massa no instante em que eu venci e tirei o capacete.
— É mesmo? — arqueei uma sobrancelha pra ele, num tom pingando deboche.
— Parece que a única coisa que você conseguiu segurar foi o seu concursinho de popularidade. E até isso tá desmoronando. — Fiz uma pausa, deixando a insinuação afundar. — Bastardo patético.
— Cala a porra da boca—
— Ou o quê? Vai correndo chorar pro papai que nem uma criança? — estalei os dedos, numa súbita “realização”. — Ah, é… se esse era seu trunfo, você tá sem sorte. Foi mal.
Sebastian avançou, mas os companheiros dele finalmente intervieram, puxando-o pra trás antes que ele fizesse algo mais idiota do que o normal.
— Segura a onda, Thorne! — o amigo dele agarrou os ombros dele. — Não tá vendo que ele tá te provocando? Você dá um soco e sua carreira acaba. É exatamente isso que ele quer.
O peito do Sebastian subia e descia enquanto ele lutava pra se controlar, os olhos queimando de ódio quando se prenderam nos meus.
— É melhor você rezar pra eu não encontrar a sua fraqueza, Cross — ele cuspiu, com a voz baixa e venenosa.
Então ele se livrou das mãos do amigo que tentavam segurá-lo e saiu de lá a passos duros, cuspindo palavrões tão imundos que fariam até uma prostituta corar. Eu o vi se afastar numa fúria impotente, e uma satisfação foi aquecendo meu peito melhor do que qualquer uísque.
—Mav! —uma voz conhecida chamou atrás de mim.
Eu me virei e vi meus amigos esperando: Kai Sterling largado contra a grade com aquele sorriso fácil de sempre, Dante Volkov com a expressão entediada e bonito demais, o cabelo loiro propositalmente bagunçado, e Sienna Blackwood em saltos que a deixavam quase da altura deles.
Fiz um aceno rápido para meus colegas de equipe.
—A gente se vê.
Eles assentiram sem fazer perguntas e se espalharam.
—Caralho, Cross —Kai cantou, quando eu me aproximei, os olhos brilhando de malícia. —Você voltou faz o quê, três horas? E já tá desfilando por aí como se fosse dono do lugar. Metade das mulheres tá lotando meu celular pedindo seu número. Deixa algumas pra nós, meros mortais, pode ser?
—Desde quando você precisa das minhas sobras? —rebati, tirando as luvas. —Até onde eu sei, vocês três estavam muito bem ocupados.
Meu olhar passou por cada um deles, de propósito.
—Ou isso mudou enquanto eu não estava?
Os três trocaram um olhar —aquele tipo de sorriso de canto, cúmplice, que cheirava a segredos e obsessões que eles achavam que eu não entendia direito.
—Anda —disse Sienna, os lábios vermelho-sangue se curvando. —A gente precisa fazer uma festa decente de boas-vindas. Não dá pro Rei do Gelo voltar sem o espetáculo apropriado.
O Abyss Club não tinha mudado —as mesmas cordas de veludo, os mesmos aspirantes desesperados implorando pra entrar, o mesmo elevador VIP que nos levava ao último andar, onde os mortais tinham medo de pisar.
Nos acomodamos no nosso camarote de sempre.
—Traga o Château d’Yquem 47 da minha coleção particular —ordenou Sienna ao gerente que pairava ali, solícito. —A gente precisa comemorar direito.
—Cuidado —provoquei, observando-a gesticular de forma dramática com a taça vazia. —Seu bichinho de estimação não vai ficar com ciúme?
A expressão dela azedou na hora, e o brilho de celebração apagou nos olhos.
—Nem menciona ele. Ele anda especialmente... difícil ultimamente.
Ela virou a bebida num gole só, num movimento selvagem.
—Dá pra acreditar? Eu, Sienna Blackwood, correndo atrás de um rostinho bonito por meses, e ele ainda acha que pode se fazer de difícil.
—Meses? —arqueei uma sobrancelha. —Você tá perdendo o jeito.
—Vai se foder. —Ela fez sinal pedindo outra garrafa. —Eu já tentei de tudo: presentes, ameaças, até ser legal. Nada funciona. É como se ele fosse imune a mim.
—Perseguir alguém exige estratégia, não só paixão —Dante comentou, girando o uísque com uma elegância ensaiada. —Você não pode simplesmente passar por cima e entrar no coração de alguém na marra.
Kai quase se engasgou com a bebida.
—Que engraçado vindo de você. Quantos anos você tá rodeando a Natasha sem fazer um movimento de verdade? Pelo menos a Sienna tem culhão de ser direta sobre o que quer.
A expressão de Dante escureceu.
—Eu fiz meu movimento. A gente tá junto.
—Sei —Kai arrastou, debochado. —Se “junto” quer dizer que você fica vendo ela dançar e sofrendo de longe, com todo respeito, enquanto ela te trata como um cliente particularmente fiel.
—Melhor do que não ter ninguém —Dante retrucou. —Pelo menos eu sei como é querer alguém.
Kai deu um gole longo no uísque antes de responder.
—Assim é mais fácil. Quer transar? Escolhe qualquer garota que se joga em cima de mim. Elas fazem fila, e eu não digo não.
Ele deu de ombros e então se virou pra mim.
—Né, Mav? Sem complicação, sem sentimento, sem essa carência patética.
