capítulo 6

POV do Maverick:

A névoa alcoólica na minha cabeça se dissipou na hora, substituída por uma lucidez afiada como lâmina.

Será que era por isso que ela tinha hesitado antes?

Grace percebeu minha reação — o jeito como meu corpo inteiro enrijeceu, feito uma mola prestes a disparar — e um lampejo de pânico atravessou o rosto dela. Talvez ela achasse que eu ia voltar atrás com o dinheiro.

Afinal, quinhentos dólares não era pouca coisa pra ela agora.

— Eu só... faz tempo, e eu tô meio enferrujada — ela disse depressa, os dedos se apertando no volante até os nós ficarem brancos. — Mas eu vou ter muito cuidado, eu prometo. Vou dirigir devagar, mas vou te levar pra casa em segurança.

Eu só consegui assentir, preso ao meu próprio estado de bêbado. Jesus, eu tinha me encurralado totalmente com esse plano genial.

Qualquer vestígio de sonolência sumiu por completo. Eu me sentei ereto, rígido, cada músculo tenso, acompanhando cada movimento dela com a intensidade de um gavião caçando.

Por sorte, Grace conseguiu se virar nas ruas com uma competência razoável.

Ela dirigia com uma cautela quase glacial — a gente provavelmente bateu algum recorde do Bugatti Chiron mais lento da história —, mas manteve o carro na faixa e evitou qualquer grande desastre.

Quando nos aproximamos dos portões da Mansão Cross, eu senti os ombros dela relaxarem um pouco, a tensão escorrendo do corpo.

Foi aí que aconteceu.

Aliviada por estar quase concluindo o trajeto, a concentração de Grace falhou por um segundo. Ao entrar na rotatória da entrada, ela calculou mal a curva. O carro deu um tranco pra frente com um estalo nauseante quando o para-choque dianteiro encostou no muro de pedra do jardim.

O som pareceu ecoar na noite — três milhões de dólares de engenharia francesa encontrando calcário importado.

Nós ficamos paralisados, encarando um ao outro, horrorizados.

O rosto de Grace estava branco como papel, os olhos escuros arregalados de choque e desespero crescente. Os lábios dela se abriram, mas nenhum som saiu.

Eu passei os olhos por ela, confirmando que não tinha se machucado, antes de sair com uma calma deliberada pra avaliar o estrago no meu carro. Dando a volta até a frente, passei os dedos pela tinta raspada e pela fibra de carbono amassada. O dano era, em grande parte, estético — mas num carro desses, até “estético” significava caro.

Grace saiu correndo atrás de mim, pairando ao lado, nervosa.

— Me desculpa... — ela gaguejou, torcendo as mãos. — Eu... eu vou pagar o conserto.

A verdade era que a gente tinha chegado em casa em segurança, e ela estava bem — era isso que importava. Esse dano pequeno? Pra mim, não era nada, troco que eu nem sentiria falta. Mas, enquanto as palavras dela ficavam no ar, uma ideia acendeu de repente na minha cabeça.

Eu me endireitei devagar, me apoiando na lateral intacta do carro, e observei Grace com um interesse renovado.

— Pagar? — eu assenti, como se estivesse considerando a oferta dela de verdade. — Tudo bem, então.

Eu a observei com atenção enquanto continuei:

— Este carro, em particular, é um Bugatti Chiron. Preço base: três milhões de dólares. Só a pintura personalizada custou mais do que a casa da maioria das pessoas. E esses painéis?

Fiz um gesto para a parte danificada. — Vão ter que vir da Itália. Estamos falando de, no mínimo, cento e cinquenta mil em reparos, sem contar a mão de obra.

O pouco de cor que ainda restava no rosto dela sumiu conforme o valor fazia efeito. Do jeito que ela estava agora, podia muito bem ser cinquenta milhões.

Mas Grace White sempre tinha sido do tipo que luta. Em vez de desmoronar, ela endireitou a coluna e sustentou meu olhar, direto. — Isso parece... exagerado por causa de uma pintura arranhada. Com certeza existem oficinas mais em conta—

— Mais em conta? — Eu me afastei do carro e fechei a distância entre nós com passos calculados. — Você quer levar um hipercarro de três milhões de dólares numa oficina de fundo de quintal? Deixar os caras tacarem massa e dizerem que ficou ótimo?

Ela não recuou quando eu me aproximei, embora eu tenha notado um leve tremor nas mãos dela. — Eu não estou dizendo isso. Estou dizendo que cento e cinquenta mil parece inflado. Talvez a gente pudesse pedir mais de um orçamento—

Balancei a cabeça, cortando-a. — Eu não vou deixar ninguém encostar no meu carro com material vagabundo. — Fiz uma pausa, deixando um sorriso lento curvar meus lábios. — Mas você está com sorte. Hoje eu estou de bom humor.

Um lampejo de esperança atravessou o rosto dela, logo substituído por cautela enquanto me analisava. Ela aprendia rápido — nada vinha de graça de homens como eu.

— Se você não consegue pagar à vista — continuei, deixando meu olhar passear por ela de um jeito que quase passava do limite —, a gente pode acertar um outro tipo de acordo.

O corpo inteiro de Grace enrijeceu, e os olhos escuros dela faiscaram com uma mistura de indignação e mais alguma coisa. Ela ergueu o queixo para manter o contato visual, e eu tive que admirar a coragem dela.

A essa altura, a maioria das pessoas já estaria recuando.

— Que tipo de acordo? — ela perguntou, com a voz firme apesar da pequena hesitação que eu percebi.

Eu sustentei o olhar dela, sem fazer qualquer esforço para esconder o interesse predatório no meu.

— Simples. Seja minha namorada.

As palavras ficaram entre nós como um desafio. Eu observei ela processar aquela virada inesperada, saboreando o desfile de emoções no rosto dela.

— Por quê? — Grace perguntou, a confusão evidente na voz. — Se você quisesse uma namorada, teria um monte de gente fazendo fila pra isso.

Dei de ombros, fingindo indiferença. — Você é interessante. Deve ser divertido brincar com você.

Ela estremeceu com a minha escolha de palavras, mas não se afastou.

Eu vi ela pesar as opções; dava quase para enxergar os cálculos por trás daqueles olhos expressivos. Por fim, alguma coisa mudou na expressão dela — resignação misturada com determinação.

— Por quanto tempo? — ela perguntou, baixo.

— Três meses. — Inclinei a cabeça, pensando. — Cinquenta mil por mês. Troca justa, não acha?

Grace fechou os olhos por um instante e então assentiu. — Tá. Eu aceito.

— Ótimo. — Eu me aproximei, encurralando-a contra o carro danificado. — Então me beija.

Os olhos dela se arregalaram. — O quê?

— Namorados e namoradas se beijam, Grace. — Minha voz desceu para um ronronar perigoso enquanto eu apoiava uma mão ao lado da cabeça dela. — Entre outras coisas. Melhor começar a acostumar seu corpo ao meu.

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