Capítulo 1 Capítulo 1
Era quase fim de semana, e os poucos funcionários da fazenda Coronel Bento estavam correndo com os preparativos para os patrões irem ao evento country mais esperado do ano: a Festa do Peão de Boiadeiro em Barretos, um super evento para amantes de músicas sertanejas, exposições agropecuárias, competições de rodeio e tudo relacionado.
Otávia, a patroa e herdeira de tudo, sempre participou, mas dessa vez nem queria ir. Estava muito desanimada, enfrentando mais uma tentativa falha de engravidar, se sentindo como uma mulher que não merecia a bênção de ser mãe. Sempre se culpava muito por isso, e seu marido a cobrava demais, sem ter empatia pela situação.
Ele a deixou extremamente frustrada a semana toda com comentários sobre ela estar ficando velha para ser mãe, só porque já passava dos trinta e cinco anos. Ela não era capaz de se impor e o confrontar. Sempre que parecia estar errada, já ia se desculpando, tentando amenizar qualquer atrito, mas dessa vez não adiantou. Ele estava irredutível, ainda a ofendeu por não estar grávida, dizendo que não era justo perder sua juventude com uma esposa que não lhe dava filhos.
No dia de irem viajar para a festa, ele a fez ficar e decidiu ir sozinho. Garantiu que não precisava dela lá. Após mais uma briga, ele arrumou a mala para ficar quatro dias fora e, além de a deixar faxinando a fazenda, disse que estava cansado de ter uma mulher frígida e seca, que não o surpreendia na cama.
Completamente arrasada e se culpando por tudo, Otávia concordou em ficar. Estava bolando um plano para melhorar o casamento. Tinha ido buscar um tratamento com um especialista em fertilidade há algumas semanas, fez tudo escondido e não contou a Matteo.
Querendo o surpreender, foi atrás dele sem o avisar. Ela sabia em que hotel ele estaria e só queria fazer uma surpresa romântica. Quando estava perto da recepção, carregando o celular para falar com ele e avisar, o viu passando com a advogada da família, Emily, uma mulher vulgar e ambiciosa que adorava ostentar uma vida de luxo nas redes sociais.
Completamente sem reação, Otávia ficou lá sem ser vista, não queria acreditar que estava sendo traída. Tentou se convencer de que era uma coincidência, afinal só estavam caminhando juntos e pegando o elevador.
Logo o celular deu carga e ela acessou a reserva no hotel, pôde subir e ir até o quarto. Até o último segundo, tinha certeza de que era só um mal-entendido, mas quando entrou no quarto sorrateiramente, viu algo que dilacerou seu coração.
Matteo, seu grande amor e marido, estava na cama com Emily, emaranhados em uma loucura frenética e escandalosa. Quando a porta bateu, ambos se assustaram, correndo para se esconder entre os lençóis e travesseiros. Otávia começou a chorar aos prantos, não sabia o que fazer. Partiu para cima de Emily, batendo nela com a bolsa, jogou até a mala em cima.
Como se estivesse na razão, Matteo a afastou, sendo muito grosso. A empurrou em direção à saída, dizendo que depois iriam conversar. Ele não queria ser exposto e passar vergonha, disse que queria o divórcio e já ia falar tudo após a festa.
Emily correu para se trancar no banheiro. Matteo se vestiu levando bolsadas, se irritou dizendo que ia ficar com a mãe do filho dele. Gritou alterado, dizendo que aquele casamento estava acabado há muito tempo, porque Otávia nunca o ajudou a realizar seu maior sonho, enquanto Emily conseguiu e rápido: ela estava grávida.
Perplexa, Otávia saiu do hotel cega de raiva e decepcionada. Foi buscar os animais na festa para atrapalhar os planos de Matteo. Ele tinha negócios marcados, ia vender e até competir.
Ela tinha as informações de tudo, as credenciais. Começou a discutir com um segurança que estava duvidando das intenções dela, não viu nenhum funcionário conhecido e virou uma fera, porque deveria ter algum lá, cuidando de seus animais.
Estava tão brava e revoltada que nem conseguia pensar direito. Armou uma briga digna de novelas com o responsável pelas baias dos equinos. Ignorando os avisos dele, foi pular a cerca de proteção para pegar um cavalo, se desequilibrou e caiu. A iluminação lá não era boa e, por sorte, quase não tinham pessoas ainda.
Um de seus funcionários estava a observando há algum tempo, achando tudo estranho e divertido. Correu para ajudar, amparando-a.
— Oooo patroa, cuidado! Sou o Ramiro, o novo capataz da fazenda. O que aconteceu? Machucou?
Ela mal olhou para ele, foi verificando os animais.
— Vamos embora agora! Você, eu e eles. Vai buscar o carro, anda logo. Se precisar, peça ajuda a qualquer homem aí, diga que vou dar cinquenta, cem reais. E nem pense em ligar para o Matteo. A patroa sou eu.
Se aproximou descompensada:
— Me dá seu celular, anda, vai logo. A dona de tudo sou eu! Está me ouvindo?
Ramiro entregou o celular, foi fazer o que ela pediu. Em meia hora estavam com os animais nos transportes, indo para a fazenda. Ele percebeu que ela estava transtornada, até lhe comprou uma água, sugeriu que esperassem um pouco para pegarem a estrada. Ela quase não o respondeu, deu ordem como podia e mostrou que era a patroa, se impondo como uma mulher forte.
Deixou o Matteo sem o carro e desesperado. Ele ligou muitas vezes, nem pensou que ela iria tomar uma atitude tão drástica. Demorou pouco para ir embora atrás dela.
Ela já tinha chegado e estava jogando as coisas dele no quintal, roupas e calçados de marca. Molhou tudo com as bebidas destiladas importadas dele, na intenção de atear fogo.
