Capítulo 3 Capítulo 3
Ela ficou olhando, sem entender tamanha ousadia. Disse que não queria brigas lá e que demitiria os dois se algo voltasse a acontecer. Foi se afastando, olhando para Miro. Algo nele a cativou, pensou que talvez fosse o olhar profundo ou a postura de quem sabia se impor. Ficou admirada por ele ter a defendido de seu ex-marido e ficou curiosa. Fez algumas perguntas sobre ele a uma funcionária, que o elogiou, dizendo que estava gostando do trabalho dele. O outro rapaz foi atrás dela para falar que não iria mais trabalhar, pegou o dinheiro e foi embora cedo.
Otávia ficou o resto do dia fora, andando pelas terras, e só voltou quando o sol se pôs. Foi para o estábulo procurar Miro e na volta passou pela casa do caseiro. Estava andando no escuro. Ao se aproximar da casa onde ele ficava, um cachorro começou a latir. Ele estava alerta por causa das ameaças do antigo colega de trabalho e saiu para olhar com uma faca na mão. Ela parou um pouco longe por causa do cachorro.
— Ramiro, venha até aqui.
Ele chamou a atenção do cachorro, foi saindo.
— Se perdeu no caminho de casa, dona Otávia?
Ela continuou no escuro.
— Vim te pedir para não ir embora, até me passar tudo da fazenda. Eu não tenho ninguém para colocar no seu lugar tão rápido. Não sei em que pé andam as coisas e, pelo que vi, tudo está largado. Não posso perder essa colheita e nem meus animais.
Ele continuou encostado, sem parecer se importar com todo o drama dela.
— Pagando bem, me prometeram um salário de três mil. Pagando metade por quinzena e uma já deu. Desde que cheguei, cuidei dos bichos, mas sem as coisas não posso fazer milagre, patroa. Disseram que o veterinário não vem há mais de um mês, isso não está certo, não.
Ela foi se afastando.
— Não era eu quem estava cuidando de tudo, vou verificar cedo o que falta, e você vai comprar. Eu sou veterinária e vou cuidar deles. Amanhã cedo faço o seu pagamento também. Quero que se preocupe com a colheita, é o principal. Você entende das máquinas?
Ele ficou olhando, intrigado.
— Está certo, entendo sim. Quer que eu te leve até a casa, patroa? É longe, está muito escuro! A dona pode se machucar, encontrar algum doido mal-intencionado por aí. Aqui não é nada seguro, não, viu.
Ela disse que não precisava e voltou sozinha. Quando chegou em casa, viu o carro de Matteo e entrou às pressas, desesperada. Já tinha pensado que ele tinha ido se desculpar. O encontrou no escritório, enchendo uma caixa com coisas dele. Se aproximou, apreensiva.
— Oi, Matteo. Aonde você está ficando? Temos pendências para resolver. Liguei até para sua mãe.
Ele saiu, a esnobando.
— Minha mãe nunca gostou de você, sempre me disse que não ia dar certo mesmo.
Foi para o quarto apressado.
— Não adianta inventar mentiras, todos já sabem que eu venho tentando me divorciar há anos e toda vez você diz que vai fazer algo contra si, me manipulando, e eu, com pena de você, adiei isso por tempo demais.
Ela foi atrás, desacreditada.
— Eu nunca fiz isso e você nunca falou de separar. Matteo, como essa mulher virou a sua cabeça dessa forma? Nós temos uma vida juntos, você não é assim, o que aconteceu, quando tudo mudou tanto?
Ele estava pegando as roupas e enchendo as malas.
— Fazem anos que eu vivo infeliz nesse casamento, que só me trouxe desgosto, Otávia. Já dei a entrada no divórcio e estou com alguém que me entende, não me humilha e nem é fraca. É uma mulher de verdade, que eu admiro demais.
Otávia começou a chorar, foi pegando o que restava no guarda-roupa e começou a jogar no quintal pela janela.
— Então vai ficar com ela e pode esperar que ela vai fazer igual você fez para mim.
O tocou, mandando-o embora, não o deixou pegar tudo. Disse que foi o dinheiro dela quem comprou e ele não ia pegar mais nada. Ele já tinha levado muitas coisas de mais valor, e ela nem percebeu. Ele a deixou gritando, histérica, como se nunca tivesse tido qualquer carinho ou amor por ela. Foi embora, rindo da situação, porque tinha pego todas as economias dela, que era para manter a fazenda independente da colheita.
Amélia, a menina da limpeza, estava ouvindo tudo escondida, ficou curiosa e com dó. Otávia saiu do quarto gritando, pedindo sacos de lixo. Foi enfiando tudo o que restou de Matteo, colocou no porta-malas do carro, foi para o escritório analisar a situação das contas conjuntas e percebeu que tudo ainda ia piorar mais. O que restou mal dava para manter os animais e as máquinas da colheita.
Foi até difícil dormir. No dia seguinte, assim que o sol começou a nascer, Otávia foi cuidar dos animais. Colocou calça jeans, bota galocha, camiseta de manga comprida para esconder as marcas nos braços, colocou boné com o cabelo preso em um coque e passou maquiagem para disfarçar os hematomas no rosto.
Miro já estava no estábulo tratando os cavalos, conversando com um deles, falando que não queria saber de bagunça por lá. Ela se aproximou, sorrateira, ouvindo, e quando percebeu que ele falava com o animal, foi dar bom dia, só passou por ele e foi ver os outros. Ele já estava acabando, não disse nada. Ela voltou.
— Ramiro, me mostre o que você faz, além da plantação! Sabe quantos funcionários temos trabalhando atualmente?
Ele continuou com o que estava fazendo.
— Devem ter uns cinco, contando os temporários. Eu começo bem cedo, patroa, vou na horta, volto alimentando os bichos e limpando tudo, recolho os ovos das galinhas. Solto os cavalos para correr. Vou para a plantação e paro à tarde, prefiro acordar bem cedo do que trabalhar no sol o dia todo. Antes de anoitecer recolho os cavalos. Ninguém falou nada de lavar e escovar eles, nem tem xampu aqui, os remédios também não tem. Tem um ali atrás que está com bicho, vai precisar fazer alguma coisa. Quando foram vermifugados a última vez?
Ela ficou olhando, séria e pensativa.
— Não sei. Vou começar com os cavalos, à tarde vou à cidade e compro o que falta, de limpeza e medicação.
Começou a olhar uma porta.
— Eu nunca vi esse lugar assim, tão largado, só Deus sabe quando pintaram as coisas aqui.
Ele se aproximou, limpando o rosto na camiseta.
— Preciso ir à cidade!
Ela ficou olhando o abdômen definido dele, imaginando quantos anos tinha.
— Vou te pagar! Quer o dinheiro em mãos ou?
Ele foi se afastando.
— Pode ser por PIX, tanto faz. O cavalo que falei é esse aqui.
Ela foi olhando, um por um, ficou emotiva e com dó deles. Miro saiu, foi fazer suas obrigações, a achando muito negligente com tudo. Decidiu não facilitar a vida dela, porque uma mulher como ela nunca iria facilitar a sua. Ramiro era um homem mais velho e solitário, ia pulando de trabalho em trabalho, sítios, pomares, roças, já havia feito todo tipo de trabalhos em lugares assim. Era muito observador e misterioso, com um pavio bem curto. Gostava de acordar cedo, dormir cedo e aproveitar o tempo livre na natureza, pescando, nadando, lidando com animais, especialmente os equinos.
Na hora do almoço, Otávia foi até a plantação, procurando Miro. Disseram que ele não ia nem voltar. Ela estava começando a se irritar com tudo. Foi procurar ele no refeitório, nas redes de descanso e, por último, na casa do caseiro. Foi de cavalo e chegou entrando. A porta estava aberta, ele não ouviu nada, dormindo. Estava deitado na varanda de trás em uma rede. Ela estava olhando tudo, reparando na simplicidade, não ia lá desde a infância.
Achou que a casa estava vazia, aproveitou para olhar o quarto e fuçar as coisas dele. Abriu o guarda-roupa, tinham poucas camisetas, quatro calças, algumas meias, um perfume de catálogo e dois desodorantes. Ela foi cheirando, com desdém, e começou a olhar embaixo das roupas, procurando algo escondido.
Ele acordou, se levantou, foi entrando distraído, só de cueca. Sentiu o cheiro de perfume e suspeitou que tinha alguém lá. A pegou fechando a porta do guarda-roupa.
— O que está procurando, patroa?
