Capítulo 5
Ponto de vista de Mia
O pânico percorre meu corpo quando saio do escritório do meu pai. Não existe a menor chance de eu ser acasalada com o Alfa Richard. Só de pensar nisso meu estômago já embrulha. Mas me recuso a deixar meu pai ver o pânico que ele causou. Eu jamais daria a ele ou à Madison a satisfação de saber que arrancaram qualquer emoção de mim.
Disparando pelos corredores dos Ômegas, corro até o meu quartinho e bato a porta atrás de mim. Sinto como se não conseguisse respirar. Esse vestido amarelo horroroso parece apertado demais.
Por fim, não aguento mais e arranco o vestido do meu corpo. O som do tecido rasgando corta o silêncio do meu quarto e, finalmente, eu consigo respirar. Eu sei que a Madison vai ter algo a dizer sobre eu ter estragado o vestido perfeito de festa que ela comprou. Mas, neste momento, eu não ligo. Ela que vá se foder.
— Eu preciso ir embora. Preciso ir embora agora — eu digo. Na esperança de que dizer isso, ouvir a minha própria voz, crie coragem em mim para fugir. O que, de verdade, estava me impedindo? Nada, exceto a necessidade de… agir.
Eu não queria nada mais do que me encolher no chão, esconder a cabeça entre as mãos e me afundar na autopiedade. Mas não há tempo para isso. Enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto, puxo do armário um saco de lixo vazio. Eu vou sair daqui.
Uma batidinha suave na porta me arranca do choro. Pelo som, eu sei que é a Maggie do outro lado. Depressa, enfio o saco de lixo debaixo da cama e me sento em silêncio na beirada do colchão.
— Já vai! — grito, enquanto enxugo as lágrimas que escorrem pelas minhas bochechas.
Devagar, Maggie abre a porta e entra de fininho. Assim que vê as lágrimas no meu rosto, ela sabe que a noite não foi bem.
— Você quer falar sobre isso? — ela pergunta.
— O que tem pra dizer? Todo homem que estava lá era velho o suficiente pra ser meu avô. — Não consigo parar as lágrimas que continuam caindo. A Maggie é a única perto de quem eu me permito chorar.
Uma expressão de preocupação se espalha pelo rosto dela.
— Todos?
— Todos, menos um cara chamado Alfa Thomas — eu digo.
— Alfa Thomas? — Maggie inclina a cabeça para o lado. — Ele não é o Alfa da Matilha Lua Vermelha?
— Acho que sim — murmuro. O que isso importa agora? Eu desperdicei minha chance.
Ao lembrar do Alfa Thomas e da nossa conversa, eu me sinto tão idiota. Se eu tivesse dito sim à oferta dele, eu não estaria prometida ao Alfa Richard agora.
— Dizem que ele está de coração partido — Maggie comenta, pensativa. — Ele deu o coração dele para a Emma Paxton e ela o rejeitou.
Eu solto uma risada pelo nariz.
— A Emma Paxton. Da Matilha Paxton.
— Ela mesma — Maggie diz, com um sorriso nos lábios. Ela vive por fofoca. — Ele a escolheu como companheira de segunda chance, mas ela se sentiu atraída pelo Alfa Ethan. Eles são companheiros destinados, afinal. Dizem que ele foi embora porque a amava e só queria que ela fosse feliz.
— Maggie… — suspiro. — Por que você está me contando isso?
Maggie me dá uma piscadinha.
— Só estou te avisando que talvez tivesse pelo menos uma joia na sua festa hoje à noite. Era só você ter olhado.
Eu me jogo de costas na cama, dramática, esperando Maggie ir embora, mas ela não vai. Ela está esperando eu contar mais sobre a festa de hoje.
— Eu estraguei tudo feio… dessa vez — começo.
— Não pode ter sido tão ruim — Maggie ri.
Mas o sorriso que ela tinha no rosto logo desapareceu quando eu expliquei o que fiz. Quando contei como agarrei o Alfa Thomas e o beijei, na esperança de afastar o Alfa Richard, ela arfou e cobriu a boca, chocada. Só que isso não foi nada comparado à reação dela quando eu disse que meu pai planeja me acasalar com o Alfa Richard de qualquer jeito. Maggie levou a mão ao peito e quase desabou na cama ao meu lado.
— Você acha que o Alfa Thomas vai vir atrás de você? — Maggie me pergunta, com uma expressão preocupada no rosto.
— Não vai importar — digo a ela. — O pai já começou a negociar com o Alfa Richard.
Maggie segura meu queixo e me obriga a encará-la nos seus olhos azul-claros. — Você não pode deixar seu pai te mandar para o Alfa Richard — ela diz, nervosa. — Ele é um monstro.
— Sem falar que é repulsivo — murmuro, com uma risadinha.
— Isso não tem graça — Maggie retruca, dura. — Se você for para a Alcateia Night Moon, você não sai viva de lá.
— Como assim? — pergunto, enquanto o pânico de antes começa a borbulhar de novo no meu estômago.
— Quero dizer que há um motivo para ele estar sempre procurando outra companheira — Maggie sussurra. — Dizem que ele mata as companheiras quando elas não conseguem lhe dar um herdeiro. Ele é teimoso demais para admitir que o problema está nele.
— Eu achei que ele estivesse procurando a segunda companheira? — digo, engolindo o nó que se forma no fundo da minha garganta.
— Ele está procurando a segunda companheira escolhida — Maggie explica. — Ele já teve uma companheira destinada e uma companheira escolhida.
— Então eu seria a terceira? — digo em voz alta, para ninguém.
Saltando da cama, puxo o saco de lixo debaixo dela. Correndo pelo quarto, começo a enfiar no saco as poucas roupas que tenho, tirando-as da cômoda.
— Para onde você vai? — Maggie pergunta, com um olhar assustado.
— Eu não vou ficar aqui para deixar meu pai me mandar para a morte — digo, jogando o saco de lixo no ombro. — Eu vou embora.
— Eu não posso simplesmente deixar você ir — ela diz, com a voz estridente.
— Maggie, o que mais você quer que eu faça? — grito. — Eu não posso ficar aqui e ser levada direto para a morte.
Maggie morde o lábio inferior antes de depositar um beijo na minha testa. — Você vai ter que me ferir.
— O quê? Não! Eu nunca... — digo, horrorizada.
— Você não tem escolha. Eles nunca vão acreditar que eu não ajudei você a fugir. Você precisa — Maggie insiste. Ela olha ao redor do meu quarto deprimente e encontra um copo. Maggie o arremessa contra a parede; ele estilhaça o bastante para que ela segure um pedaço como uma adaga. Ela coloca o caco na minha mão. — Agora, me esfaqueia. Não hesita. Só faz.
— Eu não consigo! — balanço a cabeça e deixo o vidro cair no chão.
Maggie me puxa para um abraço e, depois, me solta.
— Então eu vou ficar de vigia — ela me diz, antes de tirar alguma coisa do avental. — Isso vai mascarar seu cheiro. Você só vai ter algumas horas antes de eu dar o alarme dizendo que você fugiu. Vai te dar uma vantagem.
Seguro o frasco na mão e olho para Maggie, confusa. — Como?
— Eu sempre soube que esse dia ia chegar e eu queria que você estivesse preparada. — Lágrimas escorrem pelo rosto de Maggie.
Levo o frasco aos lábios, e ele queima ao descer. Sem querer perder mais tempo, abraço Maggie e escapo pela porta do meu quarto. Olho para os dois lados do corredor, me certificando de que está livre. Quando não ouço nem vejo ninguém vindo, saio pela entrada dos ômegas na casa da alcateia.
Assim que meus pés tocam a grama, disparo correndo para dentro da floresta que faz divisa com a casa. Quando estou sob a cobertura das copas, sinto vontade de olhar para trás, para a casa da alcateia, mas não me permito. Não preciso das lembranças daquele lugar.
Com o saco de lixo cheio de roupas pendurado no ombro, sigo pela mata em direção à estrada principal. Talvez, se eu tiver sorte, alguém me dê uma carona e me leve para longe daqui.
