Capítulo 6
Ponto de vista de Thomas
Em vez de voltar para a Matilha da Lua Vermelha depois daquela ridícula festa de arranjos para a Mia, eu escolhi ficar numa cidade humana bem na periferia da Matilha Moonshadow.
Dylan encosta o carro no único hotel que conseguimos encontrar dentro de uma distância razoável, e eu gemo só de olhar. O telhado parece que pode sair voando com a menor brisa. As janelas estão tapadas com tábuas de compensado, e a pintura do revestimento está descascando.
— Você não podia ter achado um lugar melhor? — rosno para Dylan.
— Não dentro da distância que você pediu — Dylan diz, com um sorrisinho. — Todos os lugares melhores estão lotados há semanas por causa da festa de arranjos. Lembra que você não pretendia ficar mais do que uma hora?
— Cala a boca — rosno para Dylan antes de sair do carro. — Você realmente sabe como me tirar do sério.
— É pra isso que eu estou aqui — Dylan responde, enquanto coloca o carro no estacionamento.
Entramos no quartinho do hotel, que é pior do que eu esperava. Só há uma cama grande no meio do cômodo. O edredom está todo queimado de cigarro, e o lugar inteiro cheira a fumaça. Não existe nada que eu odeie mais do que cheiro de cigarro.
Dylan fecha a porta atrás de nós e franze o nariz, enojado.
— Eu sabia que ia ser ruim, mas não sabia que ia ser tão ruim assim.
— Já foi — eu digo, passando as mãos pelo cabelo, frustrado. — O que você descobriu sobre a Mia na festa?
Dylan se joga na cama, e uma nuvem de poeira sobe no ar. Engasgando, ele se atrapalha para sair de cima do colchão.
— A gente vai pegar piolho ficando aqui.
— Responde a pergunta — eu rosno. — O que você descobriu sobre a Mia?
Uma expressão séria toma o rosto de Dylan.
— Eu não acho que ela seja a Luna certa para a Matilha da Lua Vermelha — é a única coisa que ele diz.
— E por quê? — pergunto, cruzando os braços no peito.
— Ao que parece, ela não é bem-quista dentro da própria matilha. Ela tem uma péssima reputação — Dylan me informa.
— Que tipo de reputação ela poderia ter? — eu bufo, rindo.
— A mãe dela morreu no parto. A matilha culpa a Mia pela perda da Luna deles — Dylan fala num sussurro.
Minha respiração trava na garganta. Dez anos atrás eu perdi a minha própria companheira predestinada no parto. Infelizmente, perdi meu filho também. Eu teria dado qualquer coisa para ter qualquer um dos dois nos meus braços.
— Que tipo de monstro culpa um bebê por algo que ele não podia controlar? — eu rosno.
— Aparentemente, o pai dela — Dylan diz, hesitante.
— Eu sempre soube que ele era um lixo — eu digo, sentando na cama nojenta. — Mas o que isso tem a ver com ela não ser uma Luna adequada?
Dylan dá alguns passos para longe de mim antes de falar.
— Ela está vivendo como uma Ômega... e não tem lobo.
Mais uma vez, zombo das palavras de Dylan. — Ela é filha de um Alfa. Como ela não teria uma loba? Ela devia ter se transformado entre os dezesseis e os dezoito.
— Bem, ela não se transformou — Dylan diz, dando de ombros.
Fico em silêncio, pensando no que Dylan me contou. Espero que isso mude minha ideia de querer torná-la minha Luna por um ano. Mas não muda. Se é que muda alguma coisa, me faz sentir ainda mais protetor com Mia. Ninguém merece ser tratado mal por algo que não pode controlar.
— Tem mais uma coisa — Dylan interrompe meus pensamentos. — Ela foi prometida ao Alfa Richard. Aquela festa foi só uma farsa.
Um rosnado escapa do meu peito, e sinto minha raiva borbulhar à tona. — O Alfa Richard é um monstro do caralho! — eu grito.
— Ele foi quem deu o maior lance — Dylan recua, intimidado.
— Quanto ele prometeu à Alcateia Moonshadow? — exijo saber.
Dylan se recusa a me responder. Ele abaixa a cabeça, olhando para os próprios pés, e fica balançando de um lado para o outro.
— Me responda — eu ordeno.
O suor começa a se formar na testa dele. — Meio milhão — ele diz, entre dentes.
Uma risada começa a borbulhar no meu peito. — Você só pode estar brincando. Ele vendeu a própria filha por quinhentos mil dólares. Ele é um pedaço de merda ainda maior do que eu pensava.
Pegando minha jaqueta, me viro para sair do quarto de hotel.
— Aonde você vai? — Dylan me pergunta, com uma expressão confusa.
— Vou cobrir o lance daquele filho da puta abusivo e conseguir a nossa nova Luna — digo, com um sorriso no rosto.
— Você vai mesmo pagar ao pai dela e pagar a ela para ser sua companheira por um ano, sozinho? — Dylan diz antes que eu tenha a chance de atravessar a porta.
— Parece ser a única opção — respondo. — Esse acordo serve para nós dois. Ela sai da Alcateia Moonshadow e fica longe do Alfa Richard.
— E o que exatamente você ganha com isso? — A preocupação está estampada no rosto de Dylan.
— Eu ganho uma Luna, e assim os anciãos saem da porra do meu pé por um ano — digo, saindo e batendo a porta atrás de mim.
Respiro o ar fresco da noite depois de deixar o quarto abafado de hotel, com cheiro de mofo e cigarro. Entrando no carro, disco imediatamente o número do Alfa Aiden e da Luna Madison.
— Está tarde — diz o Alfa Aiden, com a voz áspera. — É melhor isso ser importante, Thomas.
— Estou ligando por causa da sua filha — digo, enquanto saio do estacionamento de ré e disparo em direção à Alcateia Moonshadow.
— Sinto muito pelas atitudes dela — diz o Alfa Aiden, sem jeito. — Você vai ficar feliz em saber que ela foi prometida ao Alfa Richard. Ele vai domá-la rapidinho.
— É justamente sobre isso que estou ligando — digo ao Alfa Aiden. — Seja lá o que o Alfa Richard esteja oferecendo por ela, eu dobro.
Do outro lado da linha, o silêncio dura alguns instantes. — Em quanto tempo você consegue chegar aqui? — pergunta o Alfa Aiden.
— Eu já estou a caminho — rosno para o telefone antes de desligar e acelerar pela estrada.
