Capítulo 1

Nota aos leitores: Esta é uma história slow burn, com desenvolvimento gradual. Haverá bastante foco nas emoções, nos sentimentos e nas pequenas ações dos personagens até chegarmos ao clímax. Se esse não é o tipo de leitura de que você gosta, fica o aviso antes de prosseguir e desbloquear os capítulos pagos. Além disso, alguns conceitos podem não se basear em situações do mundo real, pois esta é uma história de fantasia, e certas coisas podem acontecer apenas dentro do universo do livro. No mais, agradeço por dar uma chance a esta obra e espero sinceramente que você goste.

Kiara aos nove anos

Ponto de vista de Kiara:

— Olhem só! É a princesinha esquisita do nosso Alfa.

Ouvi a voz atrás de mim no instante em que alguém puxou uma das minhas tranças.

Nem precisei me virar para saber que era Janet. Ela era uma valentona e, por algum motivo, vivia pegando no meu pé sem o menor disfarce.

Quando me virei, confirmei o que já sabia. Janet estava com o grupo de amigas — ou melhor, com a trupe dela.

Mesmo eu sendo filha do Alfa, e apesar de meus irmãos mais velhos, Kelix, Phoenix e Helix, serem os próximos Alfas, todas as meninas da minha turma implicavam comigo. Diziam que eu era uma princesinha mimada ou esquisita, porque, segundo elas, eu monopolizava a atenção dos meninos e dos professores.

Só que aquilo não era verdade. Eu nunca fazia nada para chamar a atenção deles. Se os meninos preferiam brincar de amarelinha ou pega-congela comigo, em vez de brincar com elas, a culpa não era minha. Eu até pedia que convidassem as outras meninas.

Também não era minha culpa se os professores gostavam mais de mim porque eu achava a escola divertida.

Elas me chamavam de esquisita porque eu conseguia responder a qualquer pergunta em poucos segundos, não importava a matéria. Eu não era exibida, como Janet dizia. Só gostava de aprender coisas novas e passava o tempo livre lendo na biblioteca da casa da alcateia.

Acabei me cansando de tudo aquilo e desabei em lágrimas nos braços da mamãe, implorando para que ela me deixasse estudar em casa. Eu não queria mais que Janet e as outras meninas implicassem comigo. Não queria que os meninos brincassem comigo em vez de brincar com elas. Também não queria que ninguém me achasse esquisita só porque eu era mais inteligente.

Mamãe, papai, Kelix, Phoenix e Helix sempre diziam que eu era excepcional, que era a princesa deles e que não havia nada de errado com meus hobbies. As meninas só pegavam no meu pé porque queriam ser como eu, e eu não devia permitir que aquilo me afetasse. Pelo menos foi o que Phoenix explicou.

Mas isso não ajudava muito quando eu estava magoada. Mesmo assim, eu me sentia melhor sabendo que, embora doze meninas fossem malvadas comigo, minha família e o restante da alcateia me adoravam.

— Vai embora, Janet.

Eu me levantei e fui em direção ao estacionamento. A essa hora, um dos meus irmãos já devia ter chegado para me buscar.

— Ah, eu magoei a esquisita? E agora? Vai correr para os seus irmãos ou para a Alfa e começar a chorar?

Janet e as outras meninas caíram na risada.

Está tudo bem, Kiara. Paus e pedras quebram ossos, mas palavras não me atingem.

Repeti mentalmente o mantra que tinha adotado desde que me tornara alvo de Janet e sua trupe.

— Deixa ela em paz, Janet, ou vou contar para a Sra. Delacour que você estava implicando com a Kiara de novo.

Jacob se colocou na minha frente, bloqueando minha visão das meninas.

Ele era meu melhor amigo. Bem, meu único amigo.

Jacob era o filho mais novo do Beta do meu pai, e Max, o irmão mais velho dele, seria o Beta dos meus irmãos quando eles se tornassem Alfas. Éramos amigos desde a época das fraldas. Ele sempre cuidava de mim, brincava comigo e me protegia quando eu precisava.

Jacob também era famoso por ter os brinquedos e as bicicletas mais legais. Segundo ele, era isso que atraía as garotas. O engraçado é que aquelas coisas nunca me atraíam, mas eu jamais contei isso. Meu melhor amigo tinha muito orgulho da bicicleta e eu não queria estragar aquela pose de machão que ele fazia por causa das supostas garotas que vivia mencionando.

— Ah, Jacob, oi! A gente só estava brincando. Não foi nada sério. Quer ir ao parquinho andar de bicicleta comigo depois? Ganhei uma bicicleta nova. Ela é roxa, tem brilho...

Jacob a interrompeu antes que ela terminasse de tagarelar.

— Não foi nada disso, Janet. Vou contar aos trigêmeos Alfa que você estava machucando a Kiara de novo. E eu não quero ver sua bicicleta. Prefiro andar com a Kiki.

Jacob me chamava de Kiki de vez em quando, e às vezes eu o chamava de JJ.

Dava quase para ver fumaça saindo das orelhas de Janet.

Todo mundo sabia que ela gostava muito de Jacob e sempre queria brincar com ele. Mas menino é tudo meio bobo, e Jacob não era diferente. Ele nunca percebia que Janet gostava dele e se recusava a acreditar em quem tentasse contar, inclusive em mim.

Eu também achava que parte do bullying constante de Janet e das outras meninas acontecia porque Jacob nunca dava atenção a elas e estava sempre ao meu lado.

Que dor de cabeça!

Provavelmente aquilo não acabaria bem para mim quando eu voltasse à escola no dia seguinte.

Ser filha do Alfa também trazia o peso de precisar ser sempre comportada e educada. Eu não queria envergonhar papai, mamãe ou meus irmãos mais velhos, então quase nunca revidava. Devia servir de exemplo para todas as lobas, assim como mamãe.

É claro que ela era a Luna. Mesmo assim, sempre dizia que a família Alfa podia tornar a vida na alcateia agradável ou insuportável. Embora as meninas da escola fossem malvadas comigo, o restante da alcateia era muito gentil. Eu não queria que ninguém falasse mal dos membros da minha alcateia. Éramos uma família, todos nós da Alcateia Refúgio Crescente.

Até Janet e sua trupe.

De repente, Jacob segurou minha mão e me levou para o estacionamento, sem dar a Janet a chance de falar mais nada. Quanto mais nos afastávamos, mais eu sentia os olhares cheios de ódio das meninas que ele tinha deixado para trás.

Para nossa surpresa, quando chegamos ao ponto de encontro, não vi meus irmãos nem o irmão de Jacob.

Que estranho!

Eu nem me lembrava da última vez que aquilo tinha acontecido. Todos os dias, alguém chegava pelo menos dez minutos mais cedo, por mais ocupado que estivesse — fosse um dos meus irmãos ou Max.

De repente, uma buzina soou do outro lado do estacionamento. Apertei os olhos e avistei o Gama do meu pai, tio Henry. Ele acenou, chamando a gente para ir até lá.

— Tio Henry, cadê todo mundo? O senhor nunca vem buscar a gente — perguntei.

Eu tentava manter a calma como mamãe sempre fazia, para mostrar que era uma boa representante da família Alfa. Por dentro, porém, estava assustada.

Será que estava tudo bem na casa da alcateia?

Tio Henry riu antes de me pegar no colo.

Eu era mesmo muito pequena. Tinha olhos turquesa e cabelos loiros na altura dos ombros, quase sempre presos em tranças. Mal chegava a um metro, enquanto todas as outras crianças eram pelo menos vinte ou trinta centímetros mais altas.

Mas eu não me importava. Minha família dizia que eu ficava fofa daquele jeito. Além disso, sem dúvida eu era mais ágil que as outras meninas da turma. Sempre ganhava durante os treinos nas aulas de educação física.

— Princesa, não precisa se preocupar. Dá para perceber pelo seu narizinho enrugado que está nervosa. Todo mundo estava ocupado se preparando para uma viagem.

Ele beliscou meu nariz e me ajudou a entrar na caminhonete preta e enorme.

Viagem? Que viagem?

Mamãe e papai não tinham mencionado nada. Phoenix também não dissera uma palavra quando me deixou na escola naquela manhã.

Talvez fosse uma surpresa?

De vez em quando, eles me surpreendiam com pequenas viagens.

Eu sabia que tinha feito um ótimo trabalho insistindo para que meus irmãos me levassem a um lugar chamado Walt Disney World, no multiverso humano. Eu amava os filmes sobre princesas humanas e tinha descoberto recentemente que existia um parque de diversões inteiro cheio delas.

Desde então, não parava de atormentar meus irmãos.

Talvez estivessem me levando para lá!

Sem perceber, dei um gritinho e fechei as mãos, toda animada.

— Por que você ficou tão feliz, Kiki? Vai me deixar sozinho com aquelas crianças chatas da escola de novo enquanto viaja com o Alfa e a Luna?

Jacob bufou no banco da frente, cruzou os braços sobre o peito e fez um bico que parecia o de um pato.

Não consegui evitar a risada.

— Posso pedir ao papai e à mamãe para deixarem você ir com a gente. Aí podemos ver as princesas juntos! — exclamei.

Seria ótimo ter Jacob conosco. Ele sempre assistia a todos os filmes da Disney que eu via. Na verdade, eu o obrigava. Eu tinha dito que nunca mais falaria com ele se não assistisse, então ele conhecia todas as princesas!

Mas não era isso que importava.

O importante era que poderíamos ir juntos e conhecer todas elas.

Ah, Deusa! Vai ser tão divertido!

— Muito bem, crianças, chegamos. O Alfa e a Luna querem ver você no escritório deles, princesa. Vá para lá agora. Você também, Jacob. Seus pais estão lá — avisou tio Henry assim que parou em frente à nossa enorme casa branca da alcateia.

Nem percebi como tínhamos chegado tão rápido. Estava tão animada que mal notei o tempo passar.

Dei um beijo de despedida em tio Henry e agradeci pela carona. Jacob segurou minha mão e me levou escada acima, até o escritório do papai.

— O que você quis dizer com "vamos conhecer as princesas", Kiki? — perguntou Jacob.

— JJ, acho que meus pais e meus irmãos querem me levar ao Walt Disney World...

Quando vi a expressão confusa dele, empurrei seu ombro.

— Bobão, WALT DISNEY WORLD! É tipo o maior parque de diversões do multiverso humano, e todas as princesas que vemos juntas na TV moram lá — expliquei, animada.

Jacob riu e empurrou meu ombro de volta.

Hum! Grosseiro!

Agora eu não queria mais levar ele.

Fiz bico e tentei soltar minha mão, mas Jacob apertou os dedos com mais força. Ele parou de rir, embora o sorriso denunciasse o esforço para se controlar.

— Haha, desculpa, Kiki. Você é tão fofa! Mas como sabe que o Alfa e a Luna vão levar você para lá? Não lembra de o Alfa Helix ter contado que os danos no portal para o multiverso humano ainda não tinham sido consertados?

Eu me encolhi.

Ah, é. Eu tinha esquecido os danos no portal.

Pelo visto, o Rei Alfa ainda não tivera tempo de trazer alguém do reino mágico para ajudar no conserto.

Isso significava que não iríamos à Disney, afinal.

Ao me ver triste, Jacob parou de andar e me abraçou.

— Tudo bem, Kiki. Prometo levar você para lá um dia. Vamos só nós dois. Poderemos comer todo o sorvete e todos os doces que quisermos quando nossos pais não estiverem por perto.

Dei uma risadinha.

Jacob sempre me tratava como se eu fosse criança e ele fosse adulto. O mais engraçado era que ele só tinha um ano a mais que eu. Eu tinha nove, e ele, dez.

Mesmo assim, ele ainda era meu melhor amigo. O melhor amigo do mundo.

— Aí está você, minha filhote. Como foi a escola?

Reconheci a voz de mamãe na mesma hora. Ela sempre me acalmava, assim como seu cheiro.

— Mamãe... Papai!

Eu me virei e corri direto para os braços do meu pai. Ele me pegou no colo e cobriu meu rosto de beijos. Depois, mamãe me pegou no colo e beijou minha bochecha.

— Foi boa. Ganhei um prêmio hoje. Fiquei em primeiro lugar no concurso de soletração.

Mostrei aos meus pais a medalha que tinha recebido.

— Isso é incrível, princesa! Estamos tão orgulhosos de você! — Papai me deu outro beijo na cabeça.

— Muito bem, minha filhote. Vá se arrumar. Precisamos sair! — disse mamãe.

Bem, eu já sabia que não iríamos ao Walt Disney World. Mesmo assim, ainda queria descobrir para onde estávamos indo e se Jacob poderia ir conosco.

Espiei por cima do ombro de mamãe e perguntei:

— Para onde vamos? Hoje é terça-feira. Ainda tenho aula amanhã.

— Vamos para o Reino dos Lobos, querida — respondeu papai.

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