Capítulo 4

Ponto de vista de Jayden:

Era óbvio que havia algo preocupando Kayden. Por mais que tentasse esconder, os ombros tensos e o andar rígido o denunciavam.

Além disso, éramos gêmeos. Eu sabia, quase por instinto, o que meu irmão sentia e pensava. Era coisa de gêmeos, uma conexão que só existia entre nós.

Ele sempre se sentia culpado depois de dormir com aquela loba. Eu sabia que desejava voltar no tempo e fazer aquele dia nunca ter existido. Eu tinha decidido seguir em frente, mas isso não significava que a culpa tivesse desaparecido.

Kayden e eu tínhamos jurado que nos guardaríamos para nossa futura companheira. Só que essa promessa foi para o ralo.

E o pior era que todo aquele papo de nos mantermos castos também tinha ido para o ralo. Não paramos depois que ele dormiu com aquela loba. Por mais hipócrita que fosse, o sexo acabou se tornando uma válvula de escape para as nossas frustrações.

Não obrigávamos ninguém, nem éramos brutais a ponto de deixá-la incapacitada. Não. Era apenas sexo. Uma forma de aliviar a tensão, sem compromisso algum.

Kayden tinha mais controle do que eu nesse ponto. Ele nunca tinha dormido com ninguém além de Christiane, a mesma loba com quem tinha transado cinco anos antes, no dia em que completamos vinte e quatro anos.

O problema era que aquela loba não batia bem da cabeça. Estava convencida de que Kayden a amava só porque ela era a única com quem ele já tinha dormido. Na cabeça dela, ele apenas não admitia seus sentimentos por medo de que a companheira dele aparecesse.

Ela mal sabia que, para ele, não passava de uma amante fixa. Bem, uma concubina, se quisermos soar mais respeitosos.

Eu, por outro lado, dormia com várias lobas. O objetivo, porém, era o mesmo: extravasar a frustração. Nunca significou nada além disso.

Ainda assim, isso não impedia nenhuma delas de tentar conquistar um lugar ao nosso lado. Kayden costumava atrair a maior parte das ambiciosas, já que era alguns minutos mais velho do que eu.

Assim como ele, eu ansiava pela nossa Rainha Luna.

Subiríamos ao trono no dia seguinte. Deveríamos estar felizes. Deveríamos comemorar. Tínhamos treinado a vida inteira para aquele momento, mas ainda parecia faltar alguma coisa.

Não era preciso ser um gênio para entender o motivo.

Nossa companheira não estava conosco.

Ao longo dos anos, várias pessoas nos aconselharam a escolher uma companheira, mas sempre nos recusamos. Se tivéssemos que governar sozinhos, assim seria. Não aceitaríamos uma companheira escolhida.

A coroa da Rainha Luna pertencia à nossa companheira. Somente a ela.

Se dependesse de nós, nem assumiríamos o trono antes que nossa linda Luna estivesse ao nosso lado. No entanto, mamãe e papai estavam envelhecendo. Já governavam havia mais de cem anos e queriam se aposentar.

Quem sabe até tivessem mais filhos.

Era estranho, mas, fazer o quê? Se isso os deixava felizes. Afinal, não era como se continuássemos envelhecendo depois dos vinte e um anos.

Voltei a olhar para Kayden. Ele ainda estava perdido nos próprios pensamentos. Pigarreei para chamar sua atenção.

— Então, mano, o que acha dos preparativos para amanhã? — perguntei, numa tentativa bem fraca de distraí-lo.

Ele me encarou por alguns segundos, com uma expressão crítica.

— Você sabe que é péssimo tentando puxar assunto, né? — No fim, soltou uma risada.

Não consegui evitar e ri também.

— Cara, você precisa se animar. Parece que o mundo acabou.

Ele riu e balançou a cabeça.

Assim que entramos na sala do trono, um lobo anunciou nossa chegada. Papai e mamãe dispensaram os membros da corte que os cercavam, deixando apenas nós quatro no salão.

Na frente dos outros, mantínhamos sempre uma expressão impassível e evitávamos ao máximo qualquer contato físico. Ser da realeza era difícil pra caralho, mas aqueles protocolos eram necessários. Se déssemos um dedo, logo queriam o braço inteiro.

Não éramos líderes cruéis, mas éramos firmes. E isso era indispensável para manter a ordem no reino.

Mamãe nos puxou para um abraço apertado, envolvendo nossos pescoços com seus braços pequenos e delicados enquanto nos abaixávamos até a altura dela.

A Rainha Diana, nossa mãe, era uma loba baixinha, mas sabia tocar o terror quando necessário. Houve uma época em que até nós e papai tínhamos medo dela. Para todos nós, a palavra dela era lei.

E, até certo ponto, ainda era.

— Querida, deixe os dois respirarem. Vamos precisar deles na coroação de amanhã — disse papai atrás dela.

Ele a envolveu pela cintura e a aconchegou contra o peito. Depois, enterrou o rosto no pescoço dela e inalou o cheiro dela.

Eu sempre tinha invejado o relacionamento dos nossos pais. Eles eram companheiros predestinados. Um par abençoado pela Deusa da Lua, sem dúvida.

Namoravam desde os quinze anos, embora soubessem que talvez não fossem companheiros. Pelas histórias que tínhamos ouvido, os dois eram perdidamente apaixonados naquela época. Era uma loucura.

Mamãe era a filha mais velha do vovô Beta, então ela e papai tinham praticamente crescido juntos. Ainda assim, apesar de todo o amor que sentiam um pelo outro, existia um acordo entre eles: se um dos dois encontrasse seu verdadeiro companheiro, o outro abriria mão sem ressentimentos. Sem ressentimentos.

Quando papai completou dezoito anos, um ano antes de mamãe, o lobo dele confirmou que ela era sua companheira predestinada.

Dizer que ficaram felizes seria pouco.

A comemoração tinha sido grandiosa, como Kayden e eu vimos nas fotografias dos arquivos.

Depois de presenciar um amor como aquele, como poderíamos aceitar uma companheira escolhida?

No fundo, sabíamos que nossos pais também não queriam isso. Mamãe tinha dito inúmeras vezes que desejava que experimentássemos o mesmo que ela e papai, porque nada no mundo se comparava àquele vínculo.

Mesmo sendo rígidos como monarcas, jamais permitiram que isso ofuscasse o amor que sentiam por nós. Eles nos defendiam diante da corte, flexibilizavam as regras de vez em quando e até aguentavam as nossas provocações.

Devemos tudo a eles.

Era por isso que assumiríamos o trono. Embora não quiséssemos subir sem nossa companheira ao lado, faríamos isso no dia seguinte.

Daríamos aos nossos pais a oportunidade de viver para si mesmos, sem carregar nos ombros o peso de todo o reino dos lobos e dos humanos.

Tínhamos nascido para aquilo.

Era hora de assumir nossa responsabilidade.

E esperávamos que, em breve, nossa companheira também estivesse ao nosso lado.

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