Capítulo 4 Ostracizado
POV da Leila
Eu estava sentada diante do diretor de RH da Meridian Investments, uma das empresas financeiras mais prestigiadas de São Francisco. A expressão dele passou de um interesse educado para um desconforto mal disfarçado assim que ele ligou meu nome aos acontecimentos recentes.
— Srta. Reed… ah, desculpe. Como a senhora prefere que eu a chame? — perguntou, embaralhando papéis sem necessidade.
— Leila Reed está bom — respondi, num tom firme, mantendo a compostura apesar da fisgada familiar.
Ele pigarreou. — Srta. Reed, embora suas qualificações sejam impressionantes, temo que a senhora não se encaixaria bem na nossa organização. Temos uma relação de longa data com a família Reed, e valorizamos muito isso…
Assenti, já esperando aquela resposta. Era a sétima empresa a me rejeitar só naquela semana. — Entendo. Obrigada pelo seu tempo.
Enquanto eu caminhava em direção aos elevadores, vi um antigo associado de negócios da família Reed entrando. Nossos olhos se cruzaram por um instante, antes de ele virar o rosto de propósito, de repente muito interessado nos números dos andares. A recepcionista cochichou com a colega quando passei, sem nem se dar ao trabalho de baixar a voz.
— É ela, a maluca que empurrou a Chloe escada abaixo…
Do lado de fora do prédio, os seguranças mantinham uma distância visível, como se eu carregasse alguma doença contagiosa. Pelas janelas de vidro, eu via o diretor de RH falando com o CEO; os lábios deles formavam palavras que eu conseguia ler mesmo de longe.
“Família Reed deixou bem claro…” “Ela foi deserdada…” “Não vale o risco…”
Cerrei os punhos, engolindo as lágrimas enquanto me afastava de cabeça erguida. Que ironia: as mesmas empresas que antes disputavam a minha atenção agora não me ofereciam nem um cargo de recepcionista.
— Sinto muito, Srta. Reed, mas este apartamento acabou de ser alugado — disse o proprietário, o entusiasmo de antes evaporando depois que ele conferiu meu documento.
— Mas o anúncio na internet foi publicado hoje — contestei. — O senhor disse especificamente que ficaria vazio por pelo menos duas semanas.
Ele evitou meu olhar. — As circunstâncias mudaram de repente. A senhora sabe como essas coisas são…
O proprietário se afastou para atender o telefone, falando baixo, mas eu ainda conseguia captar alguns trechos.
— Sim, ela está aqui… Não, eu não vou alugar pra ela… Claro…
Quando voltou, a postura dele tinha mudado completamente. — Tenho que pedir que a senhora se retire imediatamente, ou vou chamar a segurança.
— Não vai ser necessário — eu disse, com um sorriso amargo. — Eu sei sair sozinha.
Ao atravessar o saguão, um segurança anunciou em voz alta:
— Até que enfim a maluca que tentou matar alguém está indo embora.
Moradores ali perto cochichavam entre si. — Ouvi dizer que ela empurrou a herdeira dos Reed numa escada…
Eu saí para a rua bem na hora em que o tempo desabou; em segundos, eu estava encharcada. Eu não tinha guarda-chuva, nem carro, nem para onde ir. Parada na chuva, pensei, sombria: pelo menos o Theron ainda está viajando a trabalho. Sem complicações extras por enquanto.
O café oferecia um abrigo temporário da tempestade. Entrei, pingando, e atraí olhares dos clientes. A atendente me ignorou de propósito até finalmente se aproximar, com uma relutância visível.
— O que… você vai querer? — perguntou, mal escondendo o desprezo.
— Só um café preto, por favor — pedi, escolhendo o item mais barato do cardápio, tentando passar despercebida.
Minha tentativa de invisibilidade falhou quando duas socialites — amigas próximas da família Reed — entraram no café. Ao me verem, a primeira mulher ergueu a voz de propósito.
— Olhem só, é a psicopata que empurrou a pobre Chloe escada abaixo!
A companheira entrou na onda. — A coitada da Chloe ainda está fazendo fisioterapia, e essa mulher cruel ainda tem a cara de pau de aparecer em público!
Uma terceira mulher acrescentou: “Eu ouvi dizer que o sr. Sterling se divorciou dela na hora. Bem feito!”
O café inteiro se virou para olhar, e os sussurros se espalharam como fogo em palha seca. A garçonete “sem querer” derramou café quente na minha mão, deixando uma marca vermelha e irritada.
“Me desculpa”, disse ela, com uma falsidade transparente. “Foi um acidente...”
“Claro que foi”, respondi com calma, pressionando um guardanapo sobre a queimadura. “Eu entendo.”
Fiquei ali, desafiadora, terminando meu café apesar da ardência na mão e dos olhares hostis ao meu redor.
Minha hospedagem temporária não chegava nem perto da mansão dos Sterling. O quarto do hotel barato tinha papel de parede descascando e canos vazando; o pinga-pinga constante marcava um ritmo enlouquecedor.
Coloquei minha malinha ao lado da cama afundada. Só ontem eu tinha sido barrada em um hotel quando meu cartão foi recusado: “Sinto muito, sua conta foi bloqueada.”
Abri a carteira e contei o pouco dinheiro que restava. No aplicativo do banco, aparecia que todas as contas conjuntas estavam bloqueadas, os cartões cancelados e os bens, travados pelo jurídico dos Sterling. Só as economias de antes do casamento tinham sobrado — e estavam indo embora rápido.
Analisei os anúncios de emprego que eu tinha circulado no jornal — dezenas de vagas para as quais eu era qualificada demais, e a maioria exigia “boa conduta e reputação”.
O frigobar tinha apenas uma garrafa de água e um sanduíche vencido. Fiz as contas de como esticar os dólares que me restavam pelos próximos dias, olhando para os produtos de higiene baratos do hotel — um contraste brutal com as marcas de luxo que eu usava sem nem pensar.
Meu celular piscava com bateria fraca, mas o carregador estava quebrado, e eu não tinha dinheiro para comprar outro. “Eu nunca imaginei que fosse me preocupar em conseguir pagar o básico”, sussurrei para o quarto vazio.
Na loja de conveniência, escolhi o pão mais barato, comida enlatada e itens básicos de higiene. Eu tinha ido a pé, depois de não conseguir achar um táxi que aceitasse me pegar.
O atendente me reconheceu na hora; a expressão dele mudou para suspeita, e ele passou a vigiar cada movimento meu, como se estivesse esperando que eu roubasse alguma coisa.
Na fila do caixa, a cliente na minha frente percebeu quem eu era e, de propósito, se afastou um pouco.
“Fica longe daquela mulher”, uma mãe alertou o filho. “Ela é perigosa.”
O atendente colocou luvas plásticas antes de pegar meu dinheiro, como se meu toque pudesse contaminá-lo. Depois de registrar minhas compras, empurrou os itens até a beirada do balcão, sem oferecer sacola.
Eu juntei tudo nos braços e saí, tentando manter a pouca dignidade que ainda me restava.
Naquela noite, parada junto à janela do hotel, encarei as luzes da cidade — a mesma São Francisco que tinha me acolhido por vinte e cinco anos agora me tratava como uma pária.
Eu me lembrei do momento em que assinei os papéis do divórcio, saindo da mansão dos Sterling com apenas uma malinha, despojada de tudo.
Sem o respaldo da família Reed ou o sobrenome Sterling, eu não era praticamente nada aos olhos daquela sociedade. De “filha querida” dos Reed a impostora; de sra. Sterling a sem-teto. O desmoronamento da minha identidade foi devastador.
Eu me recordei da expressão vitoriosa de Victoria ao me entregar os papéis do divórcio: “Finalmente meu filho pode se livrar de uma falsa herdeira, com uma origem duvidosa.”
Meu reflexo no vidro mostrava uma mulher cansada que eu mal reconhecia — tão diferente da socialite que antes aparecia nas capas de revista.
Enxugando as lágrimas, endireitei os ombros. “Eu vou recomeçar”, prometi a mim mesma.
Decidi reconstruir do zero, mesmo que tivesse de começar por baixo, se fosse necessário.
“Eles tiraram minha identidade, meu dinheiro e minha posição social”, eu murmurei para o meu reflexo, “mas não podem tirar minha dignidade nem a minha determinação. Eu vou provar que, mesmo sem ser uma Reed ou uma Sterling, eu posso vencer do meu jeito.”
