Capítulo 5 Carregando seu filho
POV da Leila
O sol da manhã projetava sombras compridas enquanto eu caminhava pela região de restaurantes mais simples de San Francisco. Minha roupa — uma blusa básica e uma calça social discreta — estava a anos-luz das grifes que um dia lotaram meu guarda-roupa. Eu segurava um currículo enxuto na mão, cuidadosamente editado para não mencionar a família Reed nem meu casamento com Theron Sterling.
Respirei fundo, endireitei os ombros e empurrei a porta de uma lanchonete movimentada. Garçonete, auxiliar de cozinha, faxineira... eu aceitava qualquer coisa a essa altura. Eu só precisava sobreviver.
O gerente, um homem de meia-idade de olhos gentis, levantou a cabeça quando me aproximei do balcão. A expressão dele se iluminou um pouco, claramente reagindo àquela graça involuntária que eu não conseguia deixar para trás, apesar da minha situação.
— Bom dia — eu disse, com um sorriso treinado. — Eu vi a placa de “Contrata-se”. Gostaria de me candidatar a qualquer vaga disponível.
Ele pegou meu currículo e assentiu, amistoso.
— Estamos precisando de mais uma garçonete. Só deixa eu ver seu documento de identidade pra papelada.
No instante em que ele olhou minha carteira de motorista, o jeito dele mudou. O calor no olhar virou gelo, e ele me devolveu os papéis com o braço rígido.
— Sinto muito — disse ele, sem encarar meus olhos. — A gente acabou de preencher todas as vagas.
— Mas a placa na sua vitrine foi colocada hoje de manhã — retruquei, a confusão evidente na minha voz.
— As coisas mudam rápido nesse ramo — respondeu, de repente muito ocupado organizando cardápios. — Boa sorte em outro lugar.
O mesmo se repetiu em mais quatro estabelecimentos: um interesse inicial, seguido de uma recusa brusca assim que viam minha identificação. No quinto restaurante, minha confusão virou desconfiança.
A dona da cafeteria, uma mulher forte, com os braços cobertos de tatuagens, foi mais direta do que os outros.
— Olha, querida — ela disse, se inclinando por cima do balcão. — Eu não sei o que você fez, mas tem alguém avisando a associação de restaurantes inteira pra não te contratar.
Eu paralisei.
— O quê? Quem faria isso?
Ela deu de ombros, lançando um olhar nervoso para a porta.
— Eu sou só uma pequena empresária. Não posso bancar briga com gente que tem esse tipo de influência. Você entende, né?
Atordoada, eu fui andando até um parque ali perto e desabei num banco. De repente, uma onda de náusea me atingiu. Levei a mão à boca e respirei fundo até a sensação passar. Era a terceira vez naquela semana.
Quando recuperei o controle, voltei devagar para o hotel barato, com o cansaço pesando nos braços e nas pernas. O saguão parecia mais frio do que quando eu tinha saído de manhã — ou talvez fosse só a minha sensação crescente de isolamento. Os olhos da recepcionista me acompanharam enquanto eu atravessava em direção ao elevador; a expressão dela passou de neutra para desconfortável.
— Sra. Reed? — ela chamou, me fazendo parar no meio do caminho. — Posso falar com você um instante?
Eu me aproximei do balcão, percebendo como ela evitava olhar diretamente para mim.
— Sinto muito em informar, mas vamos precisar que você desocupe o quarto hoje — disse ela, a voz mal acima de um sussurro.
— Isso é impossível — respondi. — Eu paguei adiantado uma semana inteira.
Ela bateu os dedos, nervosa, no teclado do computador.
— No nosso sistema consta pagamento de apenas três dias. Nós vamos reembolsar a diferença, claro.
—Deve ter algum engano...
—Aconteceu alguma coisa aqui? —um homem de terno impecável surgiu do escritório ao fundo, o crachá de gerente brilhando sob as luzes do saguão.
—Esta hóspede está contestando a data de check-out —explicou a recepcionista.
O gerente me avaliou com um olhar gelado.
—Srta. Reed, nós nos reservamos o direito de recusar atendimento a qualquer pessoa.
—Com base em quê? —eu retruquei.
—Vários hóspedes reclamaram depois de reconhecer você por causa de... aquele incidente —disse ele, de propósito, enfatizando as palavras. —A sua presença está incomodando a nossa clientela.
—Aquilo foi um mal-entendido. Eu não empurrei ninguém...
Ele ergueu a mão, me interrompendo.
—Por favor, recolha seus pertences dentro de uma hora, ou seremos obrigados a chamar a segurança.
Ao nosso redor, outros hóspedes cochichavam e apontavam. A humilhação queimava por dentro enquanto eu seguia em direção ao elevador, sentindo dezenas de olhares cravados nas minhas costas.
No meu quarto, despejei a carteira na cama, contando as notas minguadas. Com as minhas contas bancárias bloqueadas e os cartões de crédito cancelados, eu tinha dinheiro vivo mal o suficiente para aguentar duas semanas, e isso se eu fosse extremamente cuidadosa.
Outra onda de náusea me atingiu, mais forte desta vez. Corri para o banheiro e vomitei com dor no vaso. Depois, encostada na parede fria de azulejos, eu me perguntei se o estresse estava me deixando doente ou se era outra coisa completamente diferente.
Arrumei meus poucos pertences e saí do hotel de cabeça erguida, apesar do olhar frio do gerente me acompanhando até a porta. Lá fora, o céu desabou, me encharcando em segundos. Eu caminhei pesado no meio do aguaceiro, arrastando a mala pequena atrás de mim.
“Um dia esta cidade me recebeu de braços abertos”, pensei, amargamente. “Agora me trata como se eu fosse um vetor de doença.”
A chuva não dava trégua quando eu procurei abrigo sob a marquise de uma loja. Meus pensamentos dispararam, ligando os sintomas que eu vinha sentindo — a náusea, o cansaço, as oscilações de humor. Uma suspeita começou a se formar, junto com um aperto de pânico. Olhei para o outro lado da rua, para uma farmácia pequena, o letreiro de neon tremeluzindo contra a tarde cinzenta.
As luzes frias zumbiam acima de mim enquanto eu percorria os corredores, tomando cuidado para não ficar bem de frente para as câmeras de segurança. Encontrei o que procurava e fiz as contas rapidamente na cabeça. Aquela noite com Theron, antes do nosso divórcio... tinha sido pouco mais de uma semana atrás.
Comprei o teste de gravidez e saí apressada. Em seguida, encontrei um banheiro público em um shopping ali perto.
Dentro da cabine, encarei as duas linhas nítidas na tira do teste, com as mãos tremendo. Um turbilhão de emoções passou por mim — terror, impotência e, por baixo de tudo, uma faísca pequena e inexplicável de alegria.
Lembranças do meu último momento íntimo com Theron piscaram na minha mente — a intensidade dele, o jeito possessivo, nenhum de nós sabendo que seria a nossa última vez juntos.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios diante da ironia. Eu tinha saído da mansão Sterling sem nada, arrancada de riqueza, status e identidade. E, ainda assim, de algum jeito eu tinha levado a coisa mais preciosa de todas: o filho dele.
Minha mão foi instintivamente até a minha barriga ainda lisa.
—Pelo menos você não vai me abandonar, vai? —sussurrei, surpresa com a proteção feroz que já começava a criar raízes em mim.
