Capítulo 6 Os Três Homens Misteriosos

POV da Leila

Saí do shopping e encarei a chuva implacável, enxergando tudo agora pelo filtro da maternidade que se aproximava. Cada problema parecia dez vezes maior. Eu precisava de abrigo — não só para mim, mas para o meu bebê ainda não nascido. O pouco dinheiro que eu tinha, de repente, parecia ainda mais insuficiente.

“Eu preciso sair do centro”, decidi, indo na direção de um ponto de ônibus. “Para algum lugar onde ninguém me reconheça.”

A viagem até a periferia da cidade levou quase uma hora, as janelas do ônibus embaçando enquanto a chuva continuava caindo lá fora. Quando finalmente desci, eu estava num bairro que nunca tinha visitado durante meus anos em San Francisco. Prédios caindo aos pedaços se alinhavam pelas ruas, com muros cobertos de grafite. Pessoas em situação de rua se encolhiam nas entradas dos prédios, e o fedor de lixo e de desespero pairava no ar.

O contraste com Pacific Heights, onde eu tinha morado com Theron, não poderia ser mais brutal. Lá, gramados impecáveis e portões com segurança protegiam mansões de milhões. Aqui, janelas quebradas eram remendadas com papelão, e crianças brincavam em ruas esburacadas.

As pessoas que passavam me olhavam com curiosidade — meu jeito e minha forma de falar denunciavam que eu era de fora, apesar das roupas simples. Pelo menos aqui, pensei com uma satisfação amarga, ninguém reconheceria a ex-senhora Sterling, agora desmoralizada, nem a falsa herdeira Reed.

Eu me aproximei de vários prédios com placas de “Aluga-se”. A maioria dos proprietários já pedia consulta ao histórico de crédito e comprovante de emprego — duas coisas que eu não tinha como apresentar. Outros até aceitavam dinheiro vivo, mas falavam valores muito acima do que eu podia pagar.

Conforme o dia ia acabando, as ruas ficavam mais ameaçadoras. Grupos de rapazes se juntavam nas esquinas, e os olhos deles me acompanhavam com um interesse inquietante. Meu coração disparou quando eu acelerei o passo, sentindo o peso inteiro da minha vulnerabilidade cair sobre mim.

“Como foi que eu vim parar aqui?”, me perguntei, segurando as lágrimas. “Como é que tudo desmoronou desse jeito?”

As primeiras gotas da chuva da noite começaram a cair quando virei em mais uma rua. E, bem na hora em que o desespero começou a me sufocar, eu vi um aviso escrito à mão numa janela do porão: “Aluga-se quarto — só dinheiro”. Bati na porta e fui recebida por uma senhora idosa, com olhos desconfiados.

“O que você quer?”, ela exigiu, me olhando de cima a baixo.

“Eu tenho interesse em alugar o quarto”, respondi, tentando soar confiante.

Ela hesitou, então abriu mais a porta. “Não é grande coisa. É no porão. Tem banheiro e uma cozinha pequena.”

O espaço era pior do que eu tinha imaginado. Mofo subia pelas paredes, o teto vazava em vários pontos, e havia fezes de roedor espalhadas pelos cantos. As peças do banheiro estavam enferrujadas, e só uma boca do fogão antigo parecia funcionar.

“Eu fico com ele”, eu disse, tirando dinheiro. “Eu preciso me mudar imediatamente. Isso deve cobrir o primeiro mês.”

Depois que a proprietária foi embora, eu tentei deixar o lugar minimamente habitável. Limpei o que deu, com o pouco que eu tinha, coloquei baldes debaixo dos piores vazamentos e cobri o colchão manchado com as minhas roupas mais limpas. Sentada na beirada da cama, eu encarei meu novo lar sem acreditar.

“Desculpa, meu amor”, sussurrei, acariciando a barriga. “A mamãe só consegue te oferecer isso por enquanto.”

O sono veio picado naquela noite, interrompido pelo pinga-pinga constante do teto e por barulhos desconhecidos vindos da rua. De manhã, eu estava exausta e fui atingida imediatamente por outra onda de náusea. Quase não consegui chegar ao banheiro imundo, vomitando com dor no vaso. Depois, só saiu água fria da torneira quando eu enxaguei a boca, tremendo com o frio.

Encostada na parede, eu me preocupava com a gravidez avançando sem nenhum acompanhamento médico. Tentei lembrar de tudo o que sabia sobre pré-natal, avaliando meu próprio estado da melhor forma possível.

“Eu mal consigo me alimentar”, pensei, desesperada. “Como é que eu vou cuidar de uma criança?”

A chuva constante nos dias seguintes piorou as goteiras do teto, criando uma sinfonia interminável de pingos. À noite vinha um frio de rachar que o aquecedor caindo aos pedaços não dava conta de vencer. Eu me preocupava com o mofo cobrindo uma das paredes — com certeza aquilo não podia fazer bem para uma grávida. A pia da cozinha entupiu e a água voltou, deixando tudo inutilizável, e as brigas aos gritos nos apartamentos vizinhos interrompiam minhas tentativas de descansar.

Encolhida debaixo da minha manta fina, na quinta noite, eu fiquei cada vez mais convencida de que minhas dificuldades não eram só azar. Coincidências demais tinham se alinhado para destruir qualquer tentativa minha de recomeçar. Alguém estava, de forma sistemática, cortando todas as minhas fontes de apoio.

Quem teria recursos e motivação? A família Reed? Os Sterling? O timing e a minúcia pareciam indicar forças poderosas agindo por trás.

Na manhã seguinte, eu fui até um café ali perto e comprei o item mais barato do cardápio só para poder usar o Wi‑Fi. Meus dedos tremiam enquanto eu procurava notícias do mundo que eu tinha deixado para trás. Meu coração se apertou com uma dor aguda ao ver uma manchete: “Noivado entre CEO do Grupo Sterling e herdeira Reed é iminente”.

A foto que acompanhava a matéria mostrava Theron ao lado de Chloe num evento beneficente, com a mão dela pousada de um jeito possessivo no braço dele. O rosto dele continuava tão impassível quanto sempre, mas havia algo diferente na postura — mais rígida, talvez, do que eu me lembrava.

Aquilo doeu, mas também endureceu a minha determinação. Eu ia sobreviver sem o mundo deles, sem a aprovação deles. Eu precisava, agora não só por mim.

Uma semana se passou, e cada dia foi mais sombrio do que o anterior. A pouca comida que eu tinha comprado estava quase no fim, e eu tinha emagrecido visivelmente apesar da gravidez. O enjoo matinal tinha piorado, me deixando fraca demais para sair na maioria dos dias. A chuva que não parava encharcou metade do meu colchão, me obrigando a dormir numa posição desconfortável, espremida no canto mais seco.

Eu acordei de um sono inquieto com um som incomum: motores caros — um barulho totalmente fora de lugar naquele bairro. Lá fora, vozes curiosas encheram a rua enquanto os moradores saíam para ver o que era.

Arrastando meu corpo enfraquecido até a janela, eu olhei e vi três sedãs de luxo parados bem em frente ao prédio. As carrocerias pretas e brilhantes reluziam de um jeito incongruente contra o cenário deteriorado ao redor.

As portas dos carros se abriram ao mesmo tempo, e três homens altos e distintos desceram. Eles usavam ternos impecavelmente alinhados e se moviam com a confiança tranquila de quem nasceu com privilégios. Os moradores da vizinhança se juntaram, murmurando entre si.

“O que gente rica desse jeito está fazendo aqui?”, alguém perguntou em voz alta.

Os três homens ignoraram a multidão que crescia e caminharam com objetivo na direção do meu prédio. A expressão determinada deles fez um arrepio descer pela minha espinha. Theron tinha me encontrado? Eles estavam ali para dar o golpe final na minha vida, que já estava em pedaços?

Batidas fortes sacudiram a minha porta. Eu fiquei parada atrás dela, congelada, com o coração disparado.

Respirei fundo e entreabri a porta, encontrando os três desconhecidos no meu corredor encardido. As expressões deles traziam uma mistura complexa de emoções que eu não consegui decifrar.

O homem à frente puxou o ar de repente, e os olhos dele cintilaram com algo que pareceu empolgação e alívio.

Eu perguntei com cautela:

— Quem são vocês?

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