Capítulo 7 Voltando para a família

POV da Leila

O homem que estava à frente puxou o ar de uma vez, com os olhos cravados no meu rosto numa intensidade que me deixou desconfortável. Ele era alto, impecavelmente vestido num terno sob medida que provavelmente custava mais do que seis meses de aluguel desse porão.

— Leila — ele disse, a voz carregada de emoção. — Você é mesmo a Leila... A gente está procurando você há vinte e cinco anos. Você é nossa irmã!

Eu pisquei, certa de que tinha ouvido errado.

— Como é?

— Meu nome é Adam Randall — ele continuou, sem tirar os olhos de mim. — Esses são meus irmãos, Brandon e Jude. Nós somos seus irmãos, Leila.

Eu apertei mais forte o batente da porta, de repente tonta.

— Isso não tem graça. Eu não sei que tipo de jogo vocês estão fazendo, mas—

— Não é jogo — o segundo homem, Brandon, interrompeu com gentileza. — A gente pode entrar? Tem muita coisa pra explicar.

Meu instinto de sobrevivência gritava pra ter cuidado, mas havia algo nas expressões deles — uma sinceridade crua — que me fez sair do caminho. Os três homens entraram, os sapatos de marca totalmente fora de lugar sobre o piso de linóleo manchado. Eles avaliaram minhas condições de vida com um horror mal disfarçado.

— O que vocês querem? — perguntei, cruzando os braços de forma protetora sobre o abdômen.

Adam tirou um envelope do paletó.

— DNA não mente, Leila. A gente encontrou você por uma coincidência num banco de dados médico. Você é nossa irmã, a bebê que foi levada do hospital pouco depois de nascer.

Eu peguei o envelope com as mãos tremendo e examinei o conteúdo. A linguagem científica era familiar o bastante, por causa da minha formação na área da saúde, pra eu entender as implicações. Compatibilidade genética perfeita com a família Randall.

— Isso é impossível — eu sussurrei, embora a prova estivesse literalmente nas minhas mãos.

O irmão mais novo, Jude, deu um passo à frente. Os olhos dele eram gentis, apesar de marejados, como se segurasse o choro.

— A gente nunca parou de procurar você. Mamãe e papai estão a caminho. Eles estão esperando por esse momento há vinte e cinco anos.

Como se fosse combinado, houve uma movimentação lá fora. Pela minha janela encardida, eu vi um casal idoso sair de outro carro de luxo. A mulher se movia com uma rapidez surpreendente, praticamente correndo em direção ao prédio.

Segundos depois, passos apressados ecoaram pelo corredor, e um casal distinto apareceu na minha porta. A mulher parou, congelada, quando me viu, levando a mão à boca.

— Elizabeth — murmurou o homem ao lado dela, amparando-a quando ela balançou de leve.

— Minha bebê — ela sussurrou, lágrimas escorrendo pelo rosto. — Minha menina.

Antes que eu conseguisse reagir, ela atravessou o cômodo e me envolveu num abraço que parecia ao mesmo tempo estranho e assustadoramente familiar. Ela cheirava a perfume caro e a outra coisa — algo que despertou um reconhecimento instintivo que eu não sabia explicar.

— A gente te encontrou — ela repetiu, segurando meu rosto entre as mãos. — Todos esses anos... a gente nunca desistiu.

O homem — meu suposto pai — se aproximou com mais cautela, com os olhos brilhando de um jeito suspeito.

— Você é a cara da sua mãe na sua idade — ele disse, a voz áspera de emoção.

Eu fiquei paralisada, engolida pela presença deles e pelo peso do que estavam dizendo.

— Eu não entendo. Se isso for verdade... como eu fui parar com os Reeds?

A expressão de Richard se fechou.

— Você foi levada do berçário do hospital dois dias depois de nascer. A investigação esfriou depois de alguns anos, mas a gente nunca parou de procurar. Detetives particulares, fotos de progressão de idade, bancos de DNA... a gente tentou de tudo.

Elizabeth enfim me soltou, mas manteve uma mão no meu braço, como se tivesse medo de eu desaparecer. Os olhos dela percorreram o cômodo, reparando no teto pingando, nas paredes cobertas de mofo e no balde no canto recolhendo a água da chuva.

— Você está morando aqui? — ela perguntou, com o horror evidente na voz.

—Só na última semana —respondi, na defensiva. —Depois do meu divórcio e de ter sido renegada—

—Renegada? —Adam interrompeu, cortante. —Os Reed te renegaram?

Eu assenti, de repente exausta com o peso de tudo. —Quando descobriram que eu não era filha biológica deles, cortaram qualquer contato. Meu marido se divorciou de mim no mesmo dia.

—Sterling —Richard praticamente cuspiu o nome. —A gente sabe muito bem quem ele é e o que ele fez. Os Reed pegaram a nossa filha, e o Sterling te descartou quando você deixou de ser útil pros interesses dele nos negócios.

A atenção de Elizabeth foi direto pro meu rosto, com um olhar de mãe que enxergava detalhes que eu nem tinha percebido que estavam tão aparentes. —Você está magra —observou, tocando de leve minha bochecha funda com a ponta dos dedos. —E pálida.

Os olhos dela desceram até a minha postura defensiva, com um braço ainda envolto na minha barriga. Um lampejo de compreensão atravessou o rosto de Elizabeth.

—Leila, querida —ela disse, baixinho —, você está grávida?

O quarto ficou totalmente em silêncio. Eu senti cinco pares de olhos cravados em mim, esperando uma confirmação.

—Eu... —minha voz falhou. Eu ainda não tinha contado pra ninguém; mal tinha tido tempo de processar aquilo. —Sim. É bem no começo. Menos de um mês.

Os olhos de Elizabeth se encheram de lágrimas novas, mas ela se recompôs rápido. —Mãe sempre sabe dessas coisas —disse, apertando minha mão. —Aconteça o que acontecer, agora nós estamos com você.

Jude deu um passo à frente, com uma expressão feroz. —A Randall BioPharm tem a melhor equipe de pré-natal do país —disse, convicto. —Você e o bebê vão ter o melhor cuidado possível.

Eu me sentei na beirada da cama, sentindo uma tontura. —Isso é... muita coisa pra assimilar.

Richard se ajoelhou diante de mim, segurando minhas mãos entre as dele. —Eu sei que isso é avassalador, mas a gente quer te levar pra casa —pra Chicago. Pro seu lar de verdade.

—E a sua vida aqui? —Brandon perguntou, com delicadeza. —Tem alguma coisa te prendendo em San Francisco?

Eu pensei. Meu casamento tinha acabado. Minha carreira tinha sido destruída aos poucos, de propósito. Os únicos amigos que eu tinha eram ligados aos Reed ou aos Sterling, e todos tinham me virado as costas.

—Não —eu disse, por fim. —Não tem mais nada pra mim aqui.

Elizabeth sentou ao meu lado na cama, fazendo uma careta leve quando uma gota do teto que pingava acertou o ombro dela. —Então vamos tirar você daqui. Tem um jato particular esperando.

Enquanto ela me ajudava a juntar meus poucos pertences, eu reparei Adam e Richard conversando em tons baixos, carregados de raiva.

—Eles vão pagar por isso —Richard estava dizendo. —As duas famílias vão responder pelo que fizeram com ela.

—Não —interrompi, surpreendendo a mim mesma com a firmeza da minha voz. —Os Reed me criaram do melhor jeito que puderam. E quanto ao Theron... —engoli em seco. —Eu só quero seguir em frente. Deixa o passado no passado.

Minha nova família trocou olhares surpresos.

—Você é incrivelmente... compreensiva —Brandon comentou.

—Não é compreensão —eu esclareci. —É só... ser seletiva sobre onde eu coloco minha energia agora. —Minha mão voltou, instintiva, pra barriga. —Eu tenho coisas mais importantes pra focar.

Elizabeth sorriu, passando um braço protetor em volta dos meus ombros. —Você tem razão, claro. Mas se algum dia você mudar de ideia...

Eu arrumei as poucas coisas que eu tinha. Quando nos preparamos pra sair, eu dei uma última olhada naquele quarto miserável, que tinha representado o ponto mais baixo da minha vida.

Horas depois, eu olhava pela janela do jatinho particular da família Randall enquanto a gente voava acima de San Francisco. A cidade onde eu tinha passado vinte e cinco anos da minha vida se espalhava lá embaixo —ruas e prédios familiares agora reduzidos a uma paisagem em miniatura.

—Adeus —eu sussurrei, com a mão pousada de forma protetora sobre a barriga, enquanto a cidade desaparecia por baixo das nuvens.

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