Capítulo 8 Seu filho?

POV da Leila

Seis anos depois de sair de San Francisco com a família Randall, eu me vi de volta à cidade que um dia tinha testemunhado a minha queda.

A ironia não passou despercebida quando eu cambaleei para fora da sala de tratamento do Advanced Medical Center de San Francisco, os ombros caídos de exaustão depois de uma sessão de seis horas de uma terapia neural experimental.

Quando minha família sugeriu pela primeira vez que eu liderasse esse projeto de pesquisa da Randall BioPharm em San Francisco, eu hesitei. Mas a chance de avançar no nosso tratamento revolucionário para doenças neurodegenerativas acabou falando mais alto do que os velhos medos.

O corredor estéril parecia se estender sem fim à minha frente enquanto eu tirava a touca cirúrgica, deixando meu cabelo cair solto. Meu celular vibrava sem parar no bolso do jaleco. Eu tinha colocado no silencioso durante o procedimento, mas agora via a tela acender com mensagens da Mia.

Eu sorri apesar do cansaço enquanto deslizava pelas mensagens que inundavam o meu celular.

[Pai: Como foi o procedimento? Não esquece de comer alguma coisa.]

[Mãe: Meu amor, seis horas é tempo demais. Você está se cuidando?]

[Adam: Outra cirurgia maratona? Se cuida.]

[Brandon: Manda mensagem quando terminar. A gente está preocupado com você se exigindo demais.]

Não consegui evitar que um calor se espalhasse no meu peito ao imaginar minha família em casa. Os homens Randall conseguiam ser ridiculamente superprotetores, me checando o tempo todo mesmo sabendo que eu era perfeitamente capaz de administrar minha própria agenda. Com uma carreira revolucionária, eu aparentemente ainda era a garotinha deles, que precisava que lembrassem de comer e descansar.

[Eu tô bem, gente,] eu respondi no grupo da família, ainda sorrindo. [O procedimento foi bem. Já vou pra casa.]

Guardando o celular, fui em direção à sala dos médicos, desesperada por um instante de silêncio antes de revisar minhas anotações. Quando passei pelo posto de enfermagem, pedaços de conversa chamaram minha atenção.

“...o menininho mais fofo. Disse que, se ela curar o pai dele, ela pode ser a nova mãe dele.”

“Sério? Isso é o pedido mais adorável do mundo.”

“A Sarah já se ofereceu. Disse que sempre quis uma família pronta.”

Eu parei, surpresa com a coincidência. Outra criança tentando arrumar uma nova mãe? Pelas mensagens da Mia, parecia que isso estava acontecendo bastante hoje. A curiosidade falou mais alto, e eu fiquei por perto do posto.

Um garotinho de uns cinco anos estava sentado numa cadeira da sala de espera, balançando as pernas. O rosto ainda tinha a redondeza de criança pequena, mas os traços eram surpreendentemente refinados. Pele de porcelana, feições perfeitamente simétricas e, o mais marcante — olhos azul-acinzentados intensos demais para um rostinho tão jovem.

Eu observei quando Sarah Jenkins se aproximou dele com um sorriso meloso. “Oi, seu fofo! Fiquei sabendo que você está precisando de um médico pro seu papai? Eu sou uma médica excelente e adoro crianças!”

A expressão do menino não mudou, mas eu praticamente conseguia ler o que ele estava pensando. Aqueles olhos expressivos revelavam uma mistura de desconforto e avaliação que parecia madura demais para a idade. Eu conhecia aquele olhar. Era o mesmo que a Mia fazia quando adultos falavam com ela como se ela fosse boba.

Um risinho escapou de mim antes que eu conseguisse impedir, chamando atenção. Sarah virou a cabeça num impulso, e várias enfermeiras se endireitaram.

“Dra. Winters”, uma delas me cumprimentou com uma formalidade recém-adquirida.

“Desculpa interromper”, eu disse, assentindo na direção do menino. “Mas eu acho que vocês podem estar interpretando errado as intenções dele.”

Sarah franziu a testa. “E como é que você sabe?”

Eu dei de ombros. “Só um palpite.”

Antes que eu pudesse explicar melhor, o garotinho desceu da cadeira e marchou direto na minha direção. Ele parou a menos de um metro, levantando o rosto para me encarar com aqueles olhos impressionantes.

— É você — ele declarou com convicção, a voz doce e aguda. — Eu sabia que ia te encontrar.

Eu pisquei, pega de surpresa. — Como é?

— Eu procurei por todo lado. E agora eu te achei. Eu tô tendo um amor à primeira vista. — Ele falou como se fosse uma palavra só: amoràprimeiravista.

— Que fofo — eu disse com delicadeza —, mas acho que você deve estar confundindo as coisas. Arrumar uma mãe nova não é brincadeira.

Ele inclinou a cabeça, me encarando com uma intensidade surpreendente. — Na minha família, sou eu que tomo essas decisões.

Tive que segurar outra risada. Ele me lembrava a Mia — esperta demais pro próprio bem e absolutamente convencida da própria importância no mundo.

— Bom, sinto muito, mas vou ter que recusar sua oferta tão lisonjeira — eu disse, dando um tapinha de leve na cabeça dele.

Na sala de descanso dos médicos, tirei o jaleco. A idade do menino tinha mexido comigo — uma ferida que nunca cicatrizou direito. Se o meu filho tivesse vivido, teria mais ou menos aquela idade agora.

Seis anos desde que eu tinha dado à luz gêmeos — uma menina que vingou e um menino cujos pulmõezinhos eram fracos demais para sustentá-lo.

Eu juntava minhas coisas quando abri a porta da sala e encontrei o mesmo garotinho esperando do lado de fora.

— Você é muito bonita — ele anunciou, sem rodeios. — Igual uma princesa de filme.

Não consegui evitar um sorriso. — Obrigada. Que gentileza.

— Então você vai ser minha nova mamãe? — ele perguntou, cheio de esperança.

Eu suspirei, apertando de leve a bochecha gordinha dele. — Eu já te falei, não é assim que funciona. Eu nem conheço seu pai.

— Mas você pode consertar ele — o menino insistiu. — Ele tá doente, e ninguém consegue melhorar ele. Por favor?

Alguma coisa no olhar suplicante dele me puxou por dentro.

— Qual é o seu nome? — perguntei baixinho.

— Noah.

— Bom, Noah, eu… — Eu hesitei, sabendo que devia recusar, mas achando surpreendentemente difícil diante daqueles olhos implorando. — Acho que eu posso dar uma olhada no caso dele.

A mãozinha dele escorregou para dentro da minha, com uma confiança inesperada, me puxando em direção ao elevador. Assim que entramos, o celular dele tocou.

— Oi, papai — ele atendeu.

Minha respiração travou quando uma voz fria e familiar respondeu pelo viva-voz. Mesmo distorcida pelo alto-falante minúsculo, eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar.

Theron Sterling.

Baixei a cabeça num movimento brusco para olhar o menino. Os traços perfeitamente simétricos, os olhos azul-acinzentados, o jeito aristocrático do queixo. Era o filho do Theron. Pela época, ele devia ter engravidado outra mulher logo depois do nosso divórcio — talvez até antes de a gente se separar.

— Eu achei ela, papai! — Noah dizia, empolgado. — A médica que vai te deixar bem!

Meu coração martelou nas costelas quando o elevador apitou, anunciando que tínhamos chegado ao térreo. Eu precisava sair daqui. Agora.

— Noah — eu disse, com a voz alta demais, artificial —, me desculpa, mas eu acabei de lembrar que tenho um paciente de emergência que preciso ver.

O rosto dele desabou. — Mas você prometeu.

— Eu sei, e sinto muito de verdade. — Eu recuei para dentro do elevador, apertando o botão freneticamente. — Quem sabe outra hora.

Quando as portas se fecharam entre nós, eu ainda peguei um último vislumbre do rosto decepcionado dele. Encostei na parede do elevador, lutando para respirar normalmente.

Seis anos reconstruindo minha vida, criando uma nova identidade, protegendo a Mia. E agora isso — o filho do Theron, a prova viva de que ele seguiu em frente imediatamente depois de me descartar. Provavelmente com a Chloe, a mulher que tinha tirado tudo de mim.

— Desgraçado sem coração — eu sussurrei.

Eu me lembrei do motivo de estar em São Francisco: o projeto de pesquisa Randall sobre doenças neurodegenerativas. Eu não podia me deixar enroscar com o Theron de novo.

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