Capítulo 9 Sua sombra ressuscita sentimentos mortos

Ponto de vista do Theron

Apoiei-me de leve na minha bengala feita sob medida; a pressão na palma da minha mão era um lembrete constante do que eu precisava desesperadamente esconder. O peso dela me mantinha firme enquanto eu estendia a mão livre para o Dr. Mitchell, diretor do centro médico.

— A Sterling Investments tem o prazer de apoiar o avanço da tecnologia médica — eu disse, mantendo a mesma voz autoritária que comandava salas de reunião pelo país. — Essas novas máquinas de diagnóstico devem chegar ainda esta semana.

A expressão do Dr. Mitchell era quase cômica — a mistura perfeita de gratidão e ambição.

— Sr. Sterling, a sua generosidade é sem precedentes. Garanto que nossa equipe fará um excelente uso desse equipamento.

— Tenho um interesse especial nas terapias experimentais que estão sendo desenvolvidas pela Dra. Winters — eu disse, e o nome soou estranho na minha língua. — Pelo que entendi, ela está na linha de frente do tratamento regenerativo neuromuscular.

— Com certeza. — Mitchell me entregou um cartão de visita elegante. — A Dra. Winters é bem... seletiva com os pacientes. Mas tomei a liberdade de informar o consultório dela sobre o seu interesse.

Guardei o cartão no bolso, com a satisfação percorrendo meu corpo. Depois de meses procurando, eu finalmente tinha um contato direto da especialista evasiva. Segundo minhas fontes, a Dra. Winters havia desenvolvido uma terapia revolucionária para casos como o meu — uma atrofia neuromuscular progressiva que a medicina convencional não conseguia sequer atingir.

— Então, estamos acertados — eu disse, levantando-me da cadeira com uma elegância treinada. O movimento foi cuidadosamente coreografado — um leve deslocamento de peso para a perna esquerda, mais forte, a pressão discreta na bengala, o gesto fluido que disfarçava a fraqueza crescente do meu lado direito.

Saí do escritório esperando encontrar Noah com James no corredor. Em vez disso, só o meu assistente estava ali, com a expressão cuidadosamente neutra.

— Onde está o Noah? — perguntei, varrendo o corredor com uma precisão gelada.

James ajeitou a gravata — um tique nervoso que ele nunca conseguiu perder.

— Ele estava aqui até um instante atrás, senhor. Talvez tenha ido até as máquinas de lanche.

Meu maxilar se contraiu.

— Meu filho não “vai dar uma volta” em lugar nenhum. — O medo que sempre se escondia sob a minha fachada controlada ganhou vida por um segundo.

— Vou encontrá-lo imediatamente, senhor — disse James, já pegando o celular.

— Espere. — Ergui a mão. — Que cara é essa?

James hesitou.

— Tem havido uns... comentários entre o pessoal do hospital. Pelo visto, estão circulando boatos de que, se alguma médica conseguir curar a sua condição, ela pode... virar a próxima Sra. Sterling. E a nova mãe do Noah.

A raiva fria que subiu em mim era familiar e bem-vinda — uma distração da consciência constante dos meus músculos se deteriorando.

— Minha condição médica virou fofoca de hospital?

— Eu já identifiquei a fonte e providenciei para que fosse transferida para outro setor — garantiu James.

— Só isso? — Minha voz saiu perigosamente baixa.

James entendeu a implicação na hora.

— Vai ser demitida até o fim do dia.

Assenti uma única vez, satisfeito.

— Onde o Noah está agora?

— Ele desativou o aplicativo de rastreamento do celular de novo. — James parecia genuinamente arrependido. — O menino é surpreendentemente bom com tecnologia.

Apertei mais forte a bengala.

— Quando voltarmos para casa, peça para o TI desenvolver um novo software de rastreamento. Se uma criança de cinco anos consegue invadir, estamos desperdiçando recursos da empresa.

Puxando o celular, disquei diretamente o número do Noah. Ele atendeu no terceiro toque.

— Noah Sterling — eu disse, sem fazer qualquer esforço para adoçar o tom —, onde exatamente você se enfiou?

—Estou perto dos elevadores, no segundo andar —ele respondeu. —Eu estava procurando alguém que pudesse te ajudar.

—Fica exatamente onde você está. Eu vou te buscar. —Encerrei a ligação, cerrando o maxilar enquanto seguia em direção ao conjunto de elevadores.

Assim que virei a esquina e cheguei ao saguão do segundo andar, vi Noah parado perto dos elevadores. Um alívio me inundou, rapidamente seguido de irritação comigo mesmo por ter me preocupado tanto.

Mas, no instante em que eu ia chamar por ele, as portas do elevador começaram a se fechar. Naquele último milésimo de segundo antes de se fecharem por completo, meus olhos se encontraram com os dela —um lampejo rápido de olhos âmbar familiares, que sumiram tão depressa quanto apareceram. Um segundo de contato visual, e ainda assim foi o suficiente para disparar um choque de reconhecimento pelo meu corpo inteiro.

Meu coração deu uma falhada dolorosa. Leila?

Seis anos desde que ela foi embora de mim, de San Francisco. Seis anos desde que eu tinha colocado os recursos consideráveis do Sterling Group para procurá-la, sem sucesso. E agora, essa desconhecida de costas tinha meu pulso acelerado como o de um adolescente.

A voz de Noah me puxou de volta para a realidade.

—Pai? Por que você tá parado aí? Tá pensando no quê?

Eu pisquei, incomodado com aquela perda momentânea de controle. Com uma compostura já ensaiada, endireitei os ombros e fui até meu filho.

—Nada importante —respondi, embora o estrondo do meu coração sugerisse o contrário. —Vamos.

—O que você tava pensando, sumindo daquele jeito? —cobrei, olhando para o rostinho teimoso de Noah.

Ele explicou como se fosse a coisa mais normal do mundo:

—Mas eu encontrei uma médica muito bonita que pode te ajudar a voltar a andar direito.

Levantei uma sobrancelha.

—Uma médica bonita?

—Sim! Ela era linda, tipo uma princesa de filme. E ela tinha o sorriso mais legal quando não tava toda séria. —O entusiasmo de Noah era incomum. Normalmente, ele encarava qualquer mulher que se aproximasse de mim com uma hostilidade desconfiada.

—E onde está essa médica milagrosa agora? —perguntei, lançando um olhar para o elevador já fechado.

—Ela foi embora. —Os ombros de Noah caíram. —Justo quando eu achei que tinha convencido ela a ser minha nova mãe.

Quase me engasguei.

—Sua o quê?

—Ué, ela é médica e é bonita e olhou pra mim como se eu fosse inteligente, e não só fofinho —Noah explicou, como se esse fosse um critério perfeitamente lógico para escolher uma madrasta. —E ela não falou comigo como se eu fosse um bebê.

Uma sensação desconfortável se retorceu no meu peito.

—Noah, a gente já conversou sobre isso. Você não pode sair por aí entrevistando possíveis mães.

—Por que não? Você não tá procurando uma —ele rebateu, com a lógica implacável de uma criança. —Alguém tem que procurar.

Suspirei, beliscando a ponte do nariz.

—Vamos pra casa. Eu já falei com a dra. Winters —uma especialista de verdade, que talvez consiga mesmo ajudar.

—Mas, pai—

—Noah. —Meu tom deixou claro que a discussão tinha acabado. —A gente vai embora.

Enquanto caminhávamos em direção à saída, eu não conseguia afastar a imagem da silhueta daquela mulher. Não podia ser a Leila. As chances eram astronômicas. E, mesmo que fosse... por que eu me importaria? Nosso casamento tinha sido um acordo de negócios, nada além disso. A partida dela mal tinha passado de um incômodo pelo transtorno que causou.

Então por que meu coração ainda parecia estar tentando arrebentar o peito?

—Pai, você tá de cara fechada de novo —Noah observou, encaixando a mãozinha na minha.

Desmanchei a expressão, empurrando as lembranças para longe.

—Eu só tô pensando no trabalho.

Mas, quando saímos para o sol, não consegui evitar olhar para trás, para a entrada do hospital, com alguma parte irracional de mim meio esperando ver ela saindo por aquelas portas, de volta para a minha vida.

Ridículo.

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